O lixo em questão

O que as empresas já estão fazendo para substituir o plástico e driblar o problema do lixo

Compartilhe:     |  8 de março de 2020

Por Gisella Meneguelli*

Todo mundo já está consciente de que o planeta não suporta tanto lixo plástico. Oceanos e mares estão repletos de sacolas e embalagens plásticas que não apenas poluem como interferem na fauna marinha, a ponto de levar à morte diversas espécies. Também nós ainda não sabemos com clareza quais são os efeitos do microplástico no nosso organismo. Logo, é preciso repensar os nossos hábitos em relação a esse material tão poluente.

 

Consciência tranquila

Muita gente fica com a consciência tranquila ao comprar um produto cujo rótulo diz “embalagem reciclável”. Mas você sabe realmente o que isso significa?

Conforme já informamos aqui: reciclagem não é a solução para o problema do plástico em nosso planeta! Isso porque a reciclagem abarca alguns problemas.

O primeiro deles é que, na maioria das cidades brasileiras, a coleta seletiva é inexistente ou não funciona a contento. Sem falar que nem toda a população tem informação suficiente e correta para fazer a separação do lixo.

Uma outra questão é que a grande maioria do plástico não é reciclável, isso porque muito plástico é composto de polímeros diversos, o que dificulta ou impede a reciclagem. Pasmem: apenas 9% do plástico no mundo é reciclado! 91% vai ficar aí por + 400 anos

Além disso, produtos como esponjas, rótulos de embalagens e outros tipos de plásticos são considerados impuros, porque são misturados a outros químicos, como tinta e componentes não recicláveis e, no mais, a reciclagem é sempre um processo industrial que deixa sua pegada de carbono.

A reciclagem é apenas uma solução para o problema do lixo plástico, e não o único e principal recurso para evitá-lo ou minimizar o seu dano. Pense que por mais que se recicle o plástico, ele permanece sendo um material de decomposição tão lenta que secular (400 anos estimativamente).

O brasileiro é um consumidor exigente

Segundo dados divulgados pelo jornal Tribuna de Minas, ao mesmo tempo em que o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo é, também, o que menos recicla. Paradoxalmente, o consumidor brasileiro tem grande preocupação com a questão do lixo plástico. O país ocupa o sexto lugar no ranking dos consumidores que mais demandam sustentabilidade por parte das empresas.

A demanda do mercado tem feito as empresas a repensarem a forma como os seus produtos são colocados à venda, já que isso impacta positivamente na imagem das marcas. As embalagens precisam ser funcionais e conter produtos de qualidade, um desafio nem sempre fácil.

Embora haja mais soluções sendo desenvolvidas para evitar o uso do plástico, é preciso que os produtos sejam bons e se mantenham bem conservados. Toda uma engrenagem está sendo mobilizada para esse fim: pesquisas científicas para o desenvolvimento de novos materiais, reciclagem de PET, embalagens em refis, plástico verde feito da cana-de-açúcar, sistema de lógica reversa – tudo para atender um consumidor mais consciente sobre o problema do lixo para o meio ambiente.

As apostas hoje em dia são as embalagens compostáveisbiodegradáveisreutilizáveisretornáveis ou, em qualquer modo, feitas com matérias-primas menos impactantes como os materiais recicláveis ou feitos de papel prensado, bambu ou vidro.

Consumidor: não se deixe enganar

Claro que, de olho nessa fatia de mercado em expansão, muitas empresas adotam a retórica “green” para vender os seus produtos. Por isso, é preciso ter atenção para não comprar gato por lebre e ser vítima de “greenwashing”.

A palavra designa o uso do conceito de sustentabilidade em vão. Ou seja, empresas que não têm uma filosofia ambientalista em si, mas que tenta vender produtos para a fatia ecológica do mercado.

Para não cair na lábia das falsas empresas ecologicamente corretas, informe-se de que empresa se trata em seu site e em suas redes sociais.  Vá aos links institucionais “sobre nós” e “o que fazemos” para obter mais detalhes sobre a visão e a missão da empresa. Mande um e-mail caso não encontre as informações que procura.

Opte por adquirir produtos fabricados por pequenos produtores, de preferência de produtores locais. Isso permite que você tenha acesso direto a quem está envolvido na cadeia produtiva e ainda evita emissão de gases de efeito estufa produzido com o transporte das mercadorias.

O plástico não é o único vilão

Não adianta apenas colocar na conta do plástico a responsabilidade pelo lixo ambiental. Há opiniões divergentes a respeito. Elvira Fortunato, vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa e diretora do Centro de Investigação de Materiais dessa universidade, defende que há vantagens em substituir plástico por papel:

“Trata-se de um material eco-sustentável, totalmente degradável quando exposto ao meio ambiente e é totalmente reciclável. Esta substituição é especialmente relevante no caso dos plásticos mais finos de uso único”, informa o site português Sapo.

A fala dela faz eco à da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP) de que “não faz sentido” avançar com restrições ao plástico se não for provado que existem alternativas ecológicas melhores e com menor impacto ambiental. Um estudo da Agência da Proteção Ambiental da Dinamarca e outro do Governo do Quebeque (Canadá) apontam que os sacos de plástico comuns são menos danosos ecologicamente do que materiais como o algodão (porque esta é uma cultura onde se usa muito agrotóxico) ou um plástico mais duro (porque provavelmente reciclável ou reutilizável). O papel extraído de madeira reflorestada ou renovável não é o mesmo do extraído de florestas virgens, por isso o papel pode não ser um material melhor do que o plástico para o meio ambiente, ainda que sua decomposição, dependendo de vários fatores (tintas e outras químicas usadas), seja menor a do plástico.

Até um carro elétrico pode poluir mais que um a diesel, dependendo da fonte de energia usada para abastecer o carro elétrico.

Tanto empresas quanto consumidores devem fazer a sua parte. Estes precisam reavaliar as suas formas de consumo, a fim de que causem o menor impacto possível ao meio ambiente. Dessa forma, estarão também forçando as empresas a buscarem alternativas no sentido de um consumo (mais) consciente.

Gisella Meneguelli
*GISELLA MENEGUELLI – É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.


Fonte: GreenMe



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