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O que é ‘cegueira vegetal’ e por que ela é vista como ameaça ao meio ambiente

Compartilhe:     |  5 de agosto de 2019

Qual foi o último animal que você viu? Você consegue lembrar de sua cor, tamanho e forma? Você consegue distingui-lo com facilidade de outros animais?

Agora, e quanto à última planta que você viu?

Se as suas imagens mentais de animais são mais precisas que as das plantas, você não está sozinho. As crianças reconhecem que os animais são seres vivos antes de entender que plantas também são vivas. Testes de memória também mostram que voluntários de pesquisas lembram de figuras de animais melhor que imagens de plantas.

Por exemplo, um estudo americano testou a “piscada da atenção”, ou seja, a habilidade de perceber uma ou duas imagens rápidas, usando fotos de animais, plantas e objetos não relacionados. Isso mostrou que os participantes detectavam melhor imagens de animais do que plantas.

Essa tendência é tão comum que Elisabeth Schussler e James Wandersee, uma dupla de botânicos e educadores americanos, criaram um termo para isso em 1998: “cegueira vegetal”. Eles descreveram isso como “a inabilidade de ver ou perceber as plantas no seu ambiente”.

Não é de se admirar que a cegueira vegetal resulte em uma subapreciação das plantas – e um interesse limitado na conservação delas. Cursos de biologia das plantas estão fechando ao redor do mundo em uma velocidade impressionante e o investimento público para a ciência das plantas está diminuindo.

Por mais que ainda não tenham sido feitos estudos sobre a dimensão da cegueira vegetal e sua mudança com o tempo, a crescente urbanização e o tempo gasto com aparelhos eletrônicos indica que há uma maior “desordem de déficit de natureza” (o prejuízo causado a humanos por se alienar da natureza). E menos exposição a plantas significa mais cegueira vegetal. Como explica Schussler, “os humanos só conseguem reconhecer (visualmente) o que eles já conhecem”.

Isso é problemático. A conservação de plantas importa para a saúde ambiental. E também importa para a saúde humana.

A pesquisa sobre plantas é essencial para muitas descobertas científicas, desde colheitas de alimentos até remédios mais eficazes. Mais de 28 mil espécies de plantas são usadas na medicina, incluindo drogas anticâncer derivadas de plantas e anticoagulantes.

Fazer experimentos com plantas também oferece uma vantagem ética sobre o teste em animais: técnicas versáteis de áreas como alteração de genoma podem ser refinadas usando plantas, que são fáceis e baratas para reproduzir e controlar. Por exemplo, a sequência do genoma da Arabidopsis, uma planta com flores importantes para a pesquisa da biologia, foi um marco não apenas na genética das plantas, mas no sequenciamento de genoma em geral.

Dada a importância das plantas à nossa sobrevivência, como os humanos se tornaram “cegos vegetais”?

Passarela do ICMBio APA Costa dos Corais em Porto de Pedras, que cuida da preservação dos peixes-boi — Foto: Marcelo Brandt/G1

Passarela do ICMBio APA Costa dos Corais em Porto de Pedras, que cuida da preservação dos peixes-boi — Foto: Marcelo Brandt/G1

Vendo verde

Há motivos cognitivos e culturais pelos quais animais, até mesmo de espécies não importantes objetivamente para os humanos, sejam mais fáceis de distinguir.

Parte disso é porque categorizamos o mundo. “O cérebro é fundamentalmente um detector de diferenças”, explicam Schussler e Wandersee.

Porque as plantas mal se movem, crescem perto uma das outras, e muitas vezes têm cores parecidas, nossos cérebros tendem a agrupá-las juntas. Com cerca de 10 milhões de bits de dados visuais transmitidos por segundo pela retina humana, o sistema visual humano filtra coisas não ameaçadoras, como plantas, e as coloca no mesmo grupo.

Isso não se restringe a humanos. Uma capacidade de atenção limitada pode afetar até a forma como pássaros veem plantas e insetos ao seu redor.

Há também nossa preferência por similaridade biocomportamental: como primatas, tendemos a perceber criaturas que são mais parecidas conosco.

A onça-pintada Juru descansa em um barrando no Parque Estadual Encontro das Águas — Foto: Eduardo Palacio/G1

A onça-pintada Juru descansa em um barrando no Parque Estadual Encontro das Águas — Foto: Eduardo Palacio/G1

“Pela minha experiência com grandes primatas, eles geralmente estão mais interessados em criaturas mais parecidas com eles em termos de aparência”, diz Fumihiro Kano, da Universidade de Kyoto, no Japão. Nos humanos, há um elemento social nessa preferência visual.

“Primatas criados entre humanos se interessam mais em imagens de humanos do que de não humanos, incluindo de sua própria espécie”, diz Kano.

Nas sociedades humanas, a ideia de que animais são fundamentalmente mais interessantes e visíveis que plantas é constantemente reforçada. Nós damos nome a muitos deles, os descrevemos com características humanas.

E prestamos atenção inclusive a variações individuais entre eles: a personalidade de um cachorro, por exemplo, ou a paleta de cores única de uma borboleta.

Ver os animais como parecidos – ou mais parecidos – conosco provoca uma certa empatia. Isso é chave para as decisões sobre conservação.

A maioria de nós sente propelido a querer proteger ursos polares, por exemplo, não porque temos uma lista racional de motivos pelos quais precisamos deles, mas porque eles tocam nossos corações, diz a psicóloga ambiental Kathryn Williams, da Universidade de Melbourne, na Austrália.

Até mesmo dentro da conservação animal, alguns bichos carismáticos (especialmente mamíferos grandes que olham para a frente) recebem muito mais atenção. A pesquisa de Williams mostrou que as pessoas apoiam muito mais a conservação de espécies com características parecidas com a de humanos.

Pantanal matogrossense — Foto: Eduardo Palacio/G1

Pantanal matogrossense — Foto: Eduardo Palacio/G1

O desafio é muito maior para as plantas. Em 2011, as plantas representavam 57% das espécies em perigo de extinção nos EUA – mas receberam menos de 4% do investimento público em espécies em extinção.

“Construir essas conexões emocionais com ecossistemas e espécies de plantas é crucial para a preservação de plantas”, diz Williams.

É claro que a Ciência não é um jogo de soma zero em que mais interesse e mais recursos aplicados em alguma coisa signifique menos investimento em outra. Mas, assim como qualquer outro tipo de preconceito, reconhecê-lo é o primeiro passo para reduzi-lo.

Tornando-se ‘menos cego’

Um fator chave para reduzir a cegueira vegetal é aumentando a frequência e variedade de maneiras através das quais vemos as plantas.

Isso pode começar cedo – como diz Schussler, que é professor de biologia da Universidade de Tennessee (EUA) – “antes dos estudantes começarem a dizer que estão entediados com as plantas”. Um projeto de ciência cidadã que tenta mudar isso é o TreeVersity, que pede para pessoas comuns ajudarem a classificar imagens de plantas do Arbóreo Arnold, da Universidade Harvard.

Interações diárias com plantas é a melhor estratégia, diz Schussler. Ela também cita falar sobre conservação de plantas em parques locais e jardinagem.

Imagem aérea do Jardim Botânico e Zoológico de São Paulo, na Zona Sul — Foto: Governo de São paulo/Divulgação

Imagem aérea do Jardim Botânico e Zoológico de São Paulo, na Zona Sul — Foto: Governo de São paulo/Divulgação

As plantas também podem ser mais enfatizadas na arte. Dawn Sanders, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que colaborou em projetos de arte e meio ambiente no Jardim Botânico de Gotemburgo, descobriu que imagens e histórias são importantes para conectar os alunos com as plantas.

O trabalho de Sanders também indica variações culturais. “A cegueira vegetal não é aplicada a todas as pessoas da mesma maneira”, diz ela. Comparado ao estudo inicial com estudantes americanos, diz ela, “nós temos descoberto que nossos alunos suecos se conectam com as plantas através de memória, emoção e beleza, especialmente durante o verão ou os primeiros dias da primavera”.

Por exemplo, a vitsippa (Anemone nemorosa) é valorizada como mensageira da primavera.

Na Índia, a ligação entre humanos e plantas pode ter mais a ver com religião e medicina. “Seu valor certamente é vivido em um nível visceral”, diz Geetanjali Sachdev, que pesquisa arte e educação botânica na Escola Srishti de Arte, Design e Tecnologia em Bangalore.

“Nós não podemos escapar disso porque as plantas estão muito interligadas com vários aspectos da vida cultural indiana”.

Sachdev tem documentado a presença dos motivos vegetais nas cidades indianas: desde flores de lótus pintadas em tanques de água até desenhos botânicos no chão.

Essas imagens vão além das flores, que tão frequentemente dominam a ligação com plantas nos países ocidentais. “De uma perspectiva mitológica, árvores, folhas e flores poderiam todas ser significativas, mas, com as perspectivas medicinais da ayurveda (uma forma indiana de medicina tradicional), muitas outras partes das plantas têm valor – folhas, raízes, flores e sementes”, diz ela.

Portanto, a cegueira vegetal não é universal nem inevitável. “Apesar de nossos cérebros humanos serem programados para não ver as plantas, podemos superar isso com uma percepção maior”, diz Schussler.

Williams também está otimista quanto ao aumento da empatia pelas plantas. “É plausível, tem a ver com imaginação”, diz ela.

Até mesmo personagens fictícios de plantas estão aparecendo. Dois do mundo dos quadrinhos são McPedro, o cactus escocês que aparece na série webcomic Girls with Slingshots, e o super herói da Marvel Groot.

A oferta global de alimentos está enfrentando mais desafios do que nunca hoje devido a uma combinação de aumento populacional, escassez de água, diminuição de terras para agricultura e mudanças climáticas. Pesquisas com biocombustíveis mostram que as plantas também são importantes fontes em potencial de energia renovável. Isso significa que é necessário saber detectar, aprender e inovar com nossos amigos verdes. Nosso futuro depende disso.



Fonte: G1 - BBC



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