Entrevista

O que o varejo pode fazer para reduzir o impacto socioambiental da alimentação?

Compartilhe:     |  11 de maio de 2019

Para responder a essa pergunta, o diretor de sustentabilidade do Grupo Carrefour necessariamente precisa enveredar pela cadeia de valor dos alimentos, desde a produção até a mesa do consumidor. Reduzir perdas é o primeiro desafio, afirmou à Página22 na abertura da exposição Prato do Mundo, apoiada pela rede supermercadista. A exposição temporária, que vai até outubro no Museu do Amanhã, percorrerá outras capitais brasileiras mostrando o desafio de alimentar, com qualidade nutricional, a população de 10 bilhões estimada para o mundo até 2050.

Proteína oriunda de insetos, produção de alimentos em edifícios, plantação na tundra e nos desertos e uso cada maior de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) são algumas das saídas mostradas na exposição. Mas é preciso falar também de como reduzir desperdícios e melhorar a distribuição de alimentos. Hoje, por exemplo, seria possível eliminar a fome no mundo se a comida fosse bem distribuída.

Reduzir elos intermediários, valorizar a produção local e orgânica, rastrear a produção e estimular a demanda por produtos com bem-estar animal são outros desafios pela frente, nos quais a comunicação exercerá um papel fundamental, segundo Pianez.


Diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Carrefour Brazil Group, Paulo Pianez é graduado em Economia pela Unicamp. Possui pós-graduação em Qualidade e Estatística pela mesma universidade e em Gestão de Varejo pela Youngstown University (EUA). Foi diretor de qualidade do BankBoston e superintendente de relacionamento com o cliente do Banco Santander.


A exposição Prato do Mundo enfatiza a produção de alimentos, locais e maneiras mais sustentáveis de produzir, novos hábitos alimentares etc. Mas qual o papel na distribuição de alimentos nesta equação? Hoje seria possível alimentar todo o mundo, sem aumentar a produção, se os alimentos fossem mais bem distribuídos, certo?

Sim. Exatamente.

Como fica, então, a questão da distribuição no horizonte de 2050?

Se nós tivéssemos uma produção e até um aproveitamento mais adequado do alimento, conseguiríamos muito provavelmente suprimir a fome. Tanto a fome propriamente dita, quanto a fome nutricional também, em que as pessoas comem, mas não necessariamente estão se alimentando. Isso acontece justamente devido ao desafio que existe na distribuição. Há uma perda monumental desde o momento que se produz, até a casa do consumidor. O grau de desperdício é estimado em cerca de 30% a 35%. Então este é o primeiro desafio que nós, como distribuidores, temos: reduzir as perdas.

O segundo ponto é que a forma como a gente produz também precisa ser de alguma maneira repensada. As grandes produções massificadas têm o seu papel, mas acreditamos que também exista um enorme espaço para se valorizar a identidade, a regionalização, a pequena produção. Isso porque a pequena produção é um ente importante de inserção socioeconômica e de fixação da população nos lugares em que originalmente os produtores estão há muitos anos. A pergunta que nos fazemos é: como o Carrefour conseguirá distribuir a produção dessas regiões de origem?

Um terceiro desafio são os impactos ambientais da produção. Como nós, do varejo – elo importante da cadeia como um todo –, podemos contribuir para mitigar o risco de degradação ambiental e social da produção de alimentos? Vamos pegar a cadeia da pesca: além do desperdício e da falta de valorização da produção local, ela também é muito impactante quando não respeita os momentos decisivos para que as espécies possam se regenerar. Além da pesca, esses desafios se estendem à soja, à pecuária, à produção de hortifrutis…

E como o varejo pode atuar em relação a esses pontos?

Muitas vezes fazendo o elo direto com a produção, mapeando fornecedores. Vamos pegar o exemplo do peixe. As nossas peixarias oferecem muitas espécies. Mas sabemos que, no mapeamento da cadeia de pescados, é possível identificar aqueles produtores que estão degradando, aqueles que estão em regime de sobrepesca e aqueles que estão distribuindo peixes em situação de ameaça.

Aí o supermercado prioriza o fornecedor que atua com as melhores práticas?

Exatamente. Na verdade, o que fazemos é a modificação dessa cadeia. Ou simplesmente suspendemos a distribuição de um determinado pescado porque está sob ameaça, ou estabelecemos parcerias para que se produza de uma maneira menos impactante, por meio de uma assessoria técnica.

A nossa assessoria técnica nesta área a gente escolheu o Monterey Bay Aquarium, da Califórnia dos Estados Unidos, que desenvolveu uma metodologia chamada Seafood Watch. Por meio dela, estamos mapeando todas as nossas cadeias de pescados para a gente consiga produzir mitigando esses riscos.

Mas e se tudo isso custar mais para o consumidor? Fornecedores mais responsáveis vão internalizar as externalidades no preço.

Exatamente.

Então como fazer que o consumidor perceba que aquele produto possui mais qualidade e por isso que custa mais?

Existe um grande desafio de levar a informação para o consumidor para que ele possa entender o que está sendo feito, obter uma base para poder tomar a melhor decisão. Nós, do varejo, temos esse papel.

Como se faz isso?

Por meio de comunicação em loja. Por meio de disponibilizar essa informação nos canais. O Carrefour acabou de adquirir o e-mídia que tem o Equilibrium [que presta serviços de marketing na área de bem-estar] e o CyberCook, que é um grande portal de culinária. Então, quando a uma pessoa entra no Cybercook para buscar uma receita de um produto ou de determinado prato, a ideia é passar uma mensagem. Por exemplo: se for uma receita de picadinho, mostrar como aquela carne é produzida, quais os desafios existem na produção da carne, qual a importância, de diversificar a sua alimentação etc.

Podemos comunicar isso nas redes sociais e nas gôndolas. Explicamos o que é um produto orgânico, o que é um produto funcional. Dá para levar essa informação ao consumidor. Então a comunicação é absolutamente fundamental nesse processo

Uma outra maneira, relacionada ao preço, é desintermediar essa cadeia, reduzindo a quantidade de elos. Quando há menos elos, você faz com que, do preço final que o consumidor está pagando, você distribua melhor a rentabilização com todos os outros atores que fazem parte da cadeia.

O senhor comentou sobre a meta de reduzir o preço dos orgânicos, para que deixem de custar três vezes mais que o produto convencional e passem a custar no máximo uma vez e meia. Reduzir os elos é uma maneira para se conseguir isso?

Sim, porque aí o produtor vai produzir diretamente para o supermercado – no caso, para o Carrefour.

O intermediário é o principal fator do preço do orgânico ser maior?

Não necessariamente. Tem questão de escala, de necessidade. Muitas vezes, o intermediário possui uma conotação negativa. E não necessariamente deveria ter.

Mas, sem dúvida nenhuma, em determinadas cadeias podemos fazer o elo direto com o produtor. Principalmente para a produção local e orgânica. Porque são produtos que, quanto menos atores na cadeia, menor será o preço na ponta e, com isso, maior será a escala. À medida que damos escala, conseguimos um aumento da produtividade, o que faz com que o preço caia também. Esses são os mecanismos nos quais acreditamos para fazer com que o preço lá na ponta seja menor.

O consumidor, uma vez informado, começa a diversificar sua mesa. Não tem certo e errado nesta história, não tem pior e melhor. Tem equilíbrio. Eu não vou deixar de comer um chocolate. Eu não vou deixar de eventualmente tomar um refrigerante. Eu não preciso suprimir a proteína animal. Lógico que, se a pessoa que quiser fazer isso, não tem problema nenhum. Queremos dar as condições para as pessoas usarem do discernimento para diversificar suas escolhas.

Existe a intenção, por parte do Carrefour, de rastrear a maior parte dos produtos que vende, para identificar a origem socioambiental?

Sim.

Principalmente os mais críticos e problemáticos como a carne?

Hoje 100% da carne bovina que o Carrefour distribui é geomonitorada. Estou falando de mais de 25 fornecedores, mais de 160 plantas produtoras, quase 100 mil fazendas envolvidas. Então 100% das carnes, tanto as que são da marca Carrefour quanto aquelas tradicionais, aquelas que você compra na bandejinha, hoje são geomonitoradas.

O que significa geomonitoramento?

Nós temos uma empresa de monitoramento importante neste segmento, chamada AgroTools. Quando o Carrefour faz um pedido de carne para um determinado frigorífico, este frigorífico automaticamente aciona as fazendas para que a carne esteja na gôndola do supermercado como um corte.

Quando fazemos esse pedido, as fazendas entram na base de dados para fazer o envio daquela carne e automaticamente o Carrefour terá a informação de quais são as fazendas estão fornecendo. Essas fazendas já estão com os seus perímetros formatados, georreferenciados via satélite, ou seja, é como se eu tirasse uma foto da situação dessa fazenda. Essa foto é cruzada com a do Prodes, que faz o acompanhamento do desmatamento no Brasil.

Quando você faz este cruzamento, se for detectada qualquer área de sobreposição com o uso do desmatamento, o pedido é bloqueado na hora. Então a gente nem vai comprar esse gado. Isso é geomonitoramento. Não é rastreamento ainda. Não conseguimos ainda mapear o gado, desde a criação do bezerro, até chegar a engorda e vir para o frigorífico.

Existem as fazenda cria, recria e engorda, por isso é bem complexo? [saiba mais aqui]

Exatamente. Nessa primeira fase ainda não conseguimos. Todavia, temos uma linha de carnes da marca Carrefour, a Sabor & Qualidade, em que já conseguimos mapear e rastrear da cria até a gôndola. Porque o boi está marcado, está brincado [com brinco], está chipado [com chip]. Para esta linha de produtos, aí sim eu tenho rastreamento desde a origem. Mas é um segmento só.

Nos outros, infelizmente, não há tecnologia para isso. Haveria se as mais de 5 milhões de fazendas [no Brasil] tivessem condições de brincar um bezerro desde a origem. Existe tecnologia para isto, mas infelizmente tem na quantidade e na viabilidade técnica e econômica necessária.

A pecuária que tem vínculo com o desmatamento é principalmente a que está na fase da cria, são as pequenas produções. Porque é o pequeno pecuarista quem cria bezerro e que muitas vezes também não tem condições técnicas e econômicas para fazer boa gestão do pasto e evitar sua degradação. Então, busca um pasto novo. Muitas vezes ele não age de má fé, age por uma questão de sobrevivência.

Por isso temos um projeto, no qual estamos pegando 450 produtores do Norte de Mato Grosso, em pleno Cerrado e em plena Amazônia, e fazendo com que sejam integrados em um modo de produção mais sustentável, regenerando áreas degradadas e fazendo regularização ambiental. Tendo acesso a tecnologia de melhoria do pasto, tendo acesso a tecnologia de melhora genética. Acreditamos que isso ganhará escala, para levarmos mais produtores depois. E então eu conecto a minha gôndola a esse produtor.

Sobre a questão do bem-estar animal nos produtos vendidos pelo Carrefour, o senhor comentou sobre o prazo de nove anos para haver uma adequação na criação de galinhas livres de gaiolas. Por que não é possível fazer isso antes?

Primeiro porque não existe produção suficiente. Hoje, a produção livre de gaiolas custa em torno de 30% a 40% mais que a de um ovo produzido na forma tradicional. E não tem uma tecnologia que consiga fazer com que essa produção esteja mais próxima. Os compromissos de adequação são longos até mesmo na Europa.

Então, nossa ideia é estimular uma demanda do consumidor para esse tipo de produto. No primeiro momento, a produção ainda é mais cara, mas a contrapartida é que o produtor, por si só, em função da demanda, comece a fazer a transição para outros modelos de produção. A Mantiqueira, por exemplo, já tem cerca de 500 mil galinhas produzidas nesse regime.

Lançaremos uma linha de ovos também neste sistema, com um preço mais próximo do ovo convencional. Mas precisaremos de tempo para aumentar essa produtividade e a demanda lá na ponta também. É um desafio grande de comunicação pela pela frente, porque se você não explica que o Happy Eggs, por exemplo, é um ovo diferente, ninguém fica sabendo, porque ovo é tudo igual.

Mas quando você abre o ovo, dá para notar a diferença.

Aí que está! Na hora da compra, você o adquire fechadinho, não é?



Fonte: Página 22



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