Entrevista

O que são alimentos transgênicos? Eles impactam no ambiente e na saúde?

Compartilhe:     |  21 de março de 2021

Placa sinaliza plantação de transgênicos no Centro de Tecnologia Canavieira, em Piracicaba, no interior de São Paulo.  - Rodrigo Capote/Folhapress

A seleção natural é feroz, a natureza privilegia sempre os organismos mais fortes e faz com que os mais fracos tenham que perecer ou se adaptarem às regras do jogo, pelo menos à nossa visão, meramente humana, de todo o processo.

Mas é longe da terra, nas mãos dos homens e entre as paredes dos laboratórios, que algumas sementes criam resistência a algumas pragas e fazem nascer frutos maiores e com cores diferentes, plantações com cultivo mais rápido e até com qualidades nutricionais modificadas.

Estes são os alimentos transgênicos, que fazem parte do grupo dos OGM (organismos geneticamente modificados). É provável que, em algum momento, eles fizeram ou fazem parte de alguma de suas refeições diárias. Mas você sabe o que realmente são os alimentos transgênicos? Ecoa explica sobre o tema e as polêmicas que o cercam, passando dos laboratórios aos campos, até as prateleiras dos supermercados.

O que são alimentos transgênicos, quando e como surgiram?

Há mais de 20 anos que esse tipo de alimento circula pelo Brasil, mas a história da transgenia nasceu na década de 1970, quando Stanley Cohen e Herbert Boyle, dois geneticistas norte-americanos, criaram a técnica chamada de DNA recombinante. O processo consiste em reunir partes diferentes de DNA isoladas na natureza, transferindo-as de uma espécie a outra.

A luz da nova descoberta gerou tabacos resistentes aos antibióticos e fez com que em 1986, bactérias modificadas geneticamente pudessem produzir insulina, hormônio que antes era extraído dos animais, e que é essencial em alguns tratamentos de saúde.

Cerca de um ano depois, a tecnologia com cara de ficção científica chegou nos grãos de soja que germinaram nas terras dos EUA e apresentavam maior resistência aos herbicidas, substância química usada para controlar o nascimento de ervas daninhas nas plantações.

No Brasil, os transgênicos também chegaram dando as caras nos grãos de soja em 1998, que embora autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), enfrentaram fortes críticas de ambientalistas e de entidades que eram contra a livre comercialização desses tipos de alimentos.

No entanto, aprovada em 2005, a Lei de Biossegurança estabelece normas claras a respeito dos mecanismos de cultivo, produção, manipulação, transporte, armazenamento, pesquisa, comercialização e consumo dos OGMs (organismos geneticamente modificados) e seus derivados.

Como os alimentos transgênicos são feitos?

Mas como tudo isso é feito na prática? Os alimentos transgênicos têm genes transferidos de uma espécie para outra – imagine que uma tesoura cortou precisamente as características de uma planta ou animal e colou no gene de outro, a fim de fazer com que este seja resistente ao calor, ao sol, às pragas ou possa ser regado com água do mar (no caso de espécies vegetais).

Foi assim, que um cientista brasileiro “deu vida” a um tomate que traz as características de uma espécie selvagem do passado, que tem mais nutrientes e apresenta resistência às secas e ao sal.

Alimentos transgênicos fazem mal à saúde?

Mesmo após décadas do surgimento dos alimentos transgênicos, esse tipo de produto não passa confiança total, nem é unânime. Ainda que sejam assegurados por grupos como a Associação Médica Americana, a Academia Nacional de Ciências, a Associação Americana para o Avanço da Ciência e a Organização Mundial de Saúde, são vistos com receio por alguns setores da sociedade.

Entre eles o IDEC (Instituto de Defesa ao Consumidor), que cita entre as preocupações, em sua cartilha sobre o tema, a falta de rigor nos estudos sobre os alimentos transgênicos, que na maioria das vezes são feitos pelas próprias organizações, que criaram o produto, e são detentoras de suas patentes.

O documento também alerta para um possível aumento de alergias, resistência ou anulação da eficácia de antibióticos nos seres humanos e um aumento de substâncias tóxicas produzidas pelas plantas, que são capazes de interferir no ecossistema. Como no caso do milho transgênico Bt (Bacillus thuringiensis), capaz de produzir um pólen que elimina larvas aquáticas, que fazem parte da cadeia alimentar de peixes.

Polêmicas, prós e contras dos alimentos transgênicos

“A engenharia dos alimentos tende a ser promissora, pensando no melhoramento dos produtos, porém os estudos ainda não são 100% comprovados. A manipulação contribui na obtenção de organismos menos perecíveis, mais saudáveis e seguros, mas não se sabe ainda o tamanho dos riscos que os mesmos podem nos trazer”, comenta a nutróloga Valéria Goulart.

Goulart, que é especialista em terapia nutricional, orienta pelo consumo de alimentos naturais e orgânicos, livre de agrotóxicos. “É importante sempre ficar atento ao rótulo. Há sempre a informação se o alimento é transgênico, por exemplo, assim como existe a indicação dos produtos orgânicos”, lembra.

Longe das questões nutricionais, outro ponto a ser levado em consideração é o patenteamento de alimentos, que agora são criação (e propriedade) de grandes empresas, e nivelam com ainda mais disparidade a competição entre agricultores, que podem e que não podem pagar pelo preço de um milho que seja geneticamente modificado e apresente maior resistência às pragas ou que tenha cultivo mais rápido, fazendo com que a profissão possa se tornar inviável para alguns, como alerta Bela Gil em sua coluna aqui em Eco.

Uma boa parte do que nasce em terras brasileiras, passa pelo laboratório antes.

O Brasil está entre os países que mais cultivam organismos geneticamente modificados. O fato não é de todo mau, o estudo ‘20 anos de OGM no Brasil: impactos ambientais, econômicos e sociais‘, realizado pelo Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia (ISAAA), uma organização internacional sem fins lucrativos, apontou que em 20 anos da adoção do cultivo desse tipo organismo [1998-2018], houve o aumento do lucro dos produtores, menor perda para pragas, maiores safras e redução do uso de agrotóxicos por hectares.

Mas entre laboratório e lavoura, o nosso cultivo passa a não ser tão facilmente recebido por países como a Índia, que recentemente estabeleceu novas exigências para importação de alguns produtos vegetais brasileiros, e vetou que estes tenham transgênicos em suas composições.



Fonte: Ecoa por um mundo melhor - Giacomo Vicenzo



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