Geografia Ambiental

O rio Ganges flui com sua história e profecia para a Índia

Compartilhe:     |  13 de setembro de 2020

Apesar de sua poluição e os riscos que isso impõe sobre a saúde humana, rio permanece religiosamente puro

Barco aportado em Varanasi, India

Barco aportado em Varanasi, India (Unsplash/Srivatsan)

Altaf Qadri

Ao longo do rio Ganges, na Índia – há  mais de 2 mil anos, um poderoso rei construiu um forte nas margens do rio mais sagrado da Índia, perto do que hoje é uma vasta cidade industrial.

Hoje, pouco da construção antiga permanece, exceto montes de entulho que os trabalhadores de curtumes vasculham em busca de tijolos para construir barracos no topo do que já foi a fortaleza do grande Rei indiano Yayati.

A cidade de Kanpur, onde Yayati construiu seu forte, é uma localidade conhecida por seus curtumes de couro e pela poluição implacável que derramam sobre o rio Ganges.

Por mais de 2.700 quilômetros, da geleira Gangotri no Himalaia até a Baía de Bengala, o Ganges flui pelas planícies como uma linha do tempo do passado da Índia, nutrindo uma extraordinária riqueza de vida. O rio tem visto impérios surgirem e caírem. Também muitas guerras, incontáveis governantes, colonização britânica, independência e ascensão do nacionalismo hindu como movimento político.

Na Índia, o Ganges é muito mais do que apenas um rio. É uma religião, uma indústria, uma fonte para a agricultura e um ator político. É uma fonte de água para milhões de pessoas e um imenso sistema séptico que suporta milhões de litros de esgoto bruto.

Para os hindus, o Ganges é “Ganga Ma” – Mãe Ganges – e um centro de vida espiritual para mais de um bilhão de pessoas. Todos os anos, milhões de hindus fazem peregrinações aos templos e santuários ao longo de suas margens. Beber dele é um ato de esperança. Para muitos hindus, a vida ficaria incompleta se eles não se banhassem no rio pelo menos uma vez na vida, para lavar seus pecados.

Mas nem tudo é bom no Ganges.

A poluição deixou grandes partes dele comprometidas e suas águas são perigosas para beber. Grupos de criminosos extraem areia ilegalmente de suas margens para alimentar o apetite implacável da Índia por concreto. Barragens hidrelétricas ao longo dos afluentes do rio, necessárias para alimentar a economia crescente do país, enfureceram alguns hindus, que dizem que a santidade do rio foi vendida.

E nos últimos 40 anos, a Geleira Gangotri – fonte de quase metade da água do Ganges – tem recuado em um ritmo cada vez mais assustador, agora perdendo cerca de 22 metros por ano.

Por milênios, o derretimento glacial de Gangotri garantiu que as planícies áridas recebessem água suficiente, mesmo durante os meses mais secos. O resto vem de afluentes do Himalaia que fluem da colossal cadeia de montanhas.

Conforme o Ganges corre pelas planícies, suas águas antes limpas e ricas em minerais começam a coletar os resíduos tóxicos de milhões de pessoas que dependem dele, tornando-se um dos rios mais poluídos do mundo. Milhões de litros de esgoto, junto com metais pesados, pesticidas agrícolas, corpos humanos e carcaças de animais, são despejados no Ganges todos os dias.

Às vezes, as autoridades tentam consertar as coisas, mas grandes extensões continuam perigosamente prejudiciais à saúde.

Ainda assim, para os hindus, o rio permanece religiosamente puro.

Todos os anos, dezenas de milhares de hindus trazem os corpos de seus entes queridos para serem cremados no Ganges, na cidade de Varanasi. Um hindu que morre na cidade ou é cremado ao lado dela também é libertado desse ciclo do nascimento até a morte.

Depois de Varanasi, o Ganges continua sua jornada para o leste através de campos agrícolas sem fim à medida que se aproxima da costa, eventualmente dividindo-se em rios cada vez menores no grande deserto de seu delta. O maior rio, o Hooghly, segue para o sul em direção ao mar, passando por Calcutá, a maior cidade do leste da Índia. Outrora capital do raj britânico, conhecida também por ser o lar da Madre Tersa de Calcutá, hoje a metrópole abriga cerca de 15 milhões de pessoas.

Eventualmente, suas águas se derramam e fluem até a Baía de Bengala.

Perto da geleira Gangotri, um homem santo hindu genial que atende pelo nome de Mouni Baba e passa grande parte de sua vida em meditação silenciosa vê toda a humanidade refletida no rio.

“A existência humana é como este gelo”, disse. “O gelo derrete e se torna água e depois se funde em um riacho. O riacho vai para um afluente que deságua em um rio e então tudo termina em um oceano. Alguns [rios] permanecem puros enquanto outros coletam sujeira ao longo do caminho. Algumas pessoas ajudam a humanidade e algumas outras se tornam a causa de sua devastação”.

Original originalmente em NCR

Tradução: Ramón Lara



Fonte: Dom Total



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