Denúncia

O Rio Gramame quer Viver em Águas Limpas

Compartilhe:     |  7 de abril de 2019

Por Cristina Crispim* e Ivanildo Santana**

A maioria dos rios deixou de ser uma área agradável, cheia de vida, em que as pessoas tomavam banho, pescavam, usavam suas águas para consumo e outros usos. Infelizmente o que se vê dos rios atualmente é uma grande quantidade de poluentes, desde resíduos sólidos, contaminantes líquidos, que tornam suas águas escuras, com mau cheiro, cobertos por plantas, sem pesca e sem atrativos, principalmente os que correm nas cidades ou nas suas imediações.

O Rio Gramame nasce em Oratório, em Pedras de Fogo, e faz um percurso de mais de 54 Km, banhando as cidades de Alhandra, Cruz do Espirito Santo, São Miguel de Itaipu, Santa Rita, Conde e João Pessoa. Tem como afluentes principais os rios Utinga, Pau Brasil, Mamuaba, Camaço, Mumbaba e o rio Água Boa, além dos riachos Pitanga, Ibura, Piabuçu, Santa Cruz, da Quizada, do Bezerra, do Angelim e Botamonte, que também o abastece, compondo sua Bacia Hidrografica, com uma área de mais de 580 Km.

Mesmo sendo o Gramame um importante rio da Paraíba, de onde vem a maior parte da água de consumo da região metropolitana de João Pessoa, os cuidados, a diminuição dos impactos ou a sua restauração não se verificam.

Desse modo, é importante que se busque de todas as formas possíveis voltar o olhar para o Rio Gramame, buscando ações para a sua revitalização. Segundo pesquisas realizadas em 2011 por Nunes (2012) e Turnell e Crispim (2014), as comunidades ribeirinhas perderam vários usos que eram efetuados junto ao rio mas, segundo os últimos autores, este continua sendo importante tanto social quanto economicamente, e ainda provém sustento para muitas famílias. Nunes (2012) chama a atenção para os problemas de saúde sofridos pela população, em virtude dos efluentes industriais que são lançados pelas fábricas, principalmente no período da noite.

Dois Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) já foram implantados por ação do Ministério Público, mas isso gerou apenas pesquisa diagnóstica no local. Faz-se necessário e urgente dar o passo seguinte, iniciando ações que provoquem mudanças na qualidade da água do rio, para que este possa voltar a ser um manancial de vida e beleza, com atividades de pesca, lazer, turismo e, sobretudo, como fonte de cuidado e preservação.

Para que a população se interesse e se mobilize para a recuperação do Rio Gramame, é necessário que construa um sentimento de cuidado pelo rio, com amor, carinho e o sentimento de pertencimento pelo mesmo. Só quem ama cuida. Ao longo dos últimos anos, muitos movimentos de alerta para a necessidade de cuidar do Rio Gramame, ações culturais, educativas e políticas em prol do rio têm resgatado esse sentimento. O rio Gramame é um tema permanentemente trabalhado nas práticas educativas da EVOT, e ao longo desses últimos anos as comunidades do Vale, junto com a EVOT e outras entidades, vêm lutando pela preservação desse rio. Essa campanha, intitulada “O Rio Gramame Quer Viver em Águas Limpas”, teve início no ano de 2004, em virtude da grave poluição provocada pelas fábricas do Distrito Industrial de João Pessoa. É uma iniciativa da Escola Viva Olho do Tempo, coordenada pelo educador Ivanildo Santana, mobilizando o Ministério Público, a comunidade e diversos segmentos da sociedade, e apresenta propostas que envolvem ações sócio-eco-educativas-culturais, com o objetivo de divulgar os graves problemas de degradação do rio Gramame. Ao longo dos anos, várias mobilizações foram realizadas, com importante visibilidade na imprensa local e nas redes sociais, entre as quais: Ocupação do Rio Gramame; Remada no Rio Gramame; Rio Gramame em Concerto; Audiências no Ministério Público; Sessões especiais na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de João Pessoa, coletivas para a imprensa, caminhadas na comunidade, capacitação de jovens em educomunicação.

Está na hora de dar o passo seguinte, com ações efetivas para restaurar o rio. Para isso é necessário, além de fiscalizar, denunciar e cobrar providencias dos órgãos responsáveis, ampliar a conscientização de cada pessoa nesse processo, pois é fundamental agir coletivamente para: não impactar negativamente o rio, lançando águas de lavagem a céu aberto que, mesmo quando não vão diretamente para o rio, lá chegam quando chove; não fazer uso de fossas vazadas, que contaminam o lençol freático que abastece o rio por percolação; cuidar dos lixos, sobretudo os resíduos plásticos, para que não sejam descartados em locais inadequados, que terminam chegando até o rio; Recompor as áreas de preservação permanente revegetando em torno dos corpos de drenagem e nascentes; produzir a mudança e contribuir com a sua restauração.

A Universidade Federal da Paraíba, através do Laboratório de Ecologia Aquática, do Departamento de Sistemática e Ecologia desenvolveu metodologias simples e a baixo custo para promover o aumento da capacidade de depuração de ecossistemas aquáticos, usando a comunidade do biofilme como biorremediadora. Em pesquisa já realizada por Marinho (2018) foi comprovado a sua eficácia na melhoria de qualidade de água, havendo aumento na transparência, diminuição de dominância de plantas aquáticas (macrófitas) e inclusive o aumento de espécies de peixes, experiência já realizada no Rio do Cabelo. Dessa forma, usando a biorremediação, o controle de macrófitas e saneamento básico ecológico, é possível mudar as condições ambientais do Rio Gramame e reverter a sua situação atual, para condições ambientais presentes antes da construção do Distrito Industrial.

Para isso, é importante a gestão participativa, em que individualmente as pessoas entendam o seu papel na mudança, o que pode ser feito para contribuir com outras ações que já existem, como o TAC induzido pelo Ministério Público. Com a biorremediação, através do uso do biofilme, será possível diminuir a carga de nutrientes presente na coluna de água, isso irá gerar um efeito em cascata que resultará num rio menos poluído. Com menos nutrientes terão menos plantas aquáticas, com menos plantas a luz entrará no rio e permitirá que haja mais plâncton, que são os elos iniciais da cadeia alimentar, fornecendo mais alimento e mais oxigênio para a biota aquática. Com mais oxigênio, compostos tóxicos como amônia e nitrito passarão a nitrato, que não é tóxico e permite a produção das microalgas, que são alimento de muitos animais aquáticos, refletindo-se nos peixes. A instalação dos substratos para o biofilme, promoverá o aumento desta comunidade, que além de absorver nutrientes também serve de alimento para animais aquáticos, aumentando as interações ecológicas.

Com as fossas ecológicas diminuirá a entrada de nutrientes para a água, auxiliando no processo de descontaminação do Rio Gramame, ao mesmo tempo as fossas ecológicas (Círculos de Bananeiras (CB) e Tanques de Evapotranspiração (TEVAP)) são sistemas de produção de alimentos, reusando os resíduos líquidos domiciliares.

Com a gestão participativa, com o envolvimento da população, com a transmissão de conhecimento pela Escola Viva Olho do Tempo, que aumenta a sensibilização das crianças, jovens e comunidade para a problemática da água, será possível uma melhor qualidade ambiental do Rio Gramame. Com isso será possível melhorar a pesca e tornar o rio um parceiro na manutenção de tantas famílias que dele precisam para a economia familiar e para garantir a segurança alimentar, além das memórias e histórias de vida que fazem parte desse rio.

*Cristina Crispim – Professora da Universidade Federal da Paraíba/UFPB.
**Ivanildo Santana – Morador de Gramame, Educador e Gestor de Meio Ambiente da EVOT, Coordenador da campanha permanente ‘O Rio Gramame Quer Viver em Águas Limpas’



Fonte: Revista Espaço Ecológico



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Projeto de lei ‘Animal não é coisa’ é aprovado pelo Senado

Leia Mais