Crônicas e Poesias

O Santo romântico do Velho Chico

Compartilhe:     |  12 de novembro de 2016
Domingos Montagner: “Não me vejo como um herói, claro. Mas eu compactuo desse espírito de superação do Santo. E também desse valor que ele dá à sua palavra.” - Imagem: DivulgaçãoDomingos Montagner: “Não me vejo como um herói, claro. Mas eu compactuo desse espírito de superação do Santo. E também desse valor que ele dá à sua palavra.” – Imagem: Divulgação

Às vezes, realidade e ficção parecem cruzar o mesmo palco. Quando isso acontece, o roteiro da vida muda. Alguns personagens ficam, outros se vão. A história, que a partir daí parece nunca mais ser a mesma, toma rumos desconhecidos. E nosso coração, atento aos detalhes do que viu e viveu, resiste em escrever novos capítulos para a história que lhe era cativa.

A realidade, enfim, é muito difícil e sofrida. Por isso, finais felizes nas novelas e filmes que assistimos são âmago, uma necessidade obrigatória para o ser humano. A ficção é uma válvula de escape, claro, mas não há como impedir que ambas se cruzem. E, nesse ponto em que elas se alinham em comum, é onde mora a tristeza nacional pela perda do ator Domingos Montagner, que choramos até hoje.

Domingos já acenava a chegada da sua quinquagésima primavera quando a fama apertou sua mão. No caso dele, ela aconteceu de forma natural – única e exclusivamente pelo seu talento artístico. Cada personagem era diferente, sabia se separar da persona que criava para interpretar. Ele era grande no palco, mas despia-se totalmente de seus personagens quando saía de lá: o Domingos verdadeiro preferia a simplicidade, a companhia da família, da esposa Luciana Lima e dos três filhos, o acolhimento da casa em meio à natureza. Tudo isso, sem holofotes.

Nascido em São Paulo (SP), abraçou cedo a arte circense. Com o colega Fernando Sampaio, fazia apresentações de rua como palhaço, trabalho que o ensinou a equilibrar sentimentos como tristeza e alegria na dose certa na hora de interpretar.

Fundou o grupo de circo e teatro La Mínima, recebeu um Prêmio Shell de “Melhor Ator”, foi um dos criadores do Circo Zanni e se enveredou pela TV fechada e pelo cinema. Não demorou para a televisão, carente de grandes atores, perceber nele uma força da natureza.

Natureza, inclusive, é um dos lugares onde ele se sentia mais feliz. E talvez a escolha para viver o personagem Santo, na novela global “Velho Chico”, um defensor da igualdade social e um expoente da preservação do debilitado Rio São Francisco, fosse um jeito de ficar mais perto deste ambiente que também lhe fazia feliz.

Cangaceiro romântico, era mestre do seu sertão. Tinha um dos maiores rios do país como companheiro de vida, ganhou o coração dos telespectadores. Domingos interpretava Santo com tanta verdade que o Brasil acreditou que aquele personagem realmente existia pelos sertões afora. Estaria, neste momento, a ficção, de tocaia, a espreitar a realidade se aproximar?

O abraço do Rio São Francisco foi mais forte. Levou Domingos, a uma semana do início da primavera, para a ilha da imortalidade. E quis também o personagem Santo eternamente em seu palco, lutando por suas águas e pelas árvores de suas margens -agora em outra dimensão.

Para nós, que continuamos andarilhos nesta Terra aquecida, por mais que o picadeiro agora pareça estar vazio, é só a gente lembrar do sorriso, das palavras (que você lerá a seguir) e do amor pela vida que Domingos tinha para que a sua luz se acenda, a qualquer momento, em nossas memórias e nos palcos que estivermos.

Esta é a realidade que ficará na lembrança quando pensarmos em Montagner. E, com certeza, o papel que a ficção jamais conseguirá reproduzir com perfeição:

Amor

“Amor é um sentimento que não dá pra lutar contra. Quando se estabelece com força, não adianta. Adoro o romantismo. Minha geração é a das canções com letras envolventes, delicadas, poéticas.”

“Ter um amor para a vida inteira não é uma obrigação, mas, quando você o descobre, tem que se entregar. Foi o que eu fiz, há 15 anos.”

 “Sempre lutei pelo amor, em todos os planos das relações humanas, afetivas, de amizade ou profissionais.”

Decisão

“O ser humano é diverso e sua construção emocional também, obviamente. Todos têm os seus motivos para tomar as suas decisões, sejam elas corajosas ou não. Se alguém toma uma decisão é porque sua vida o levou a isso, de alguma forma. Cada um deve saber o que é bom para si.”

Opinião

“A gente vive em uma época na qual todo mundo dá palpite na vida de todo mundo. As redes sociais proliferaram uma quantidade de opiniões superficiais, infundadas. Estimularam essa ânsia por dar opiniões, sem necessariamente refletir sobre elas.”

Rótulo de galã

“Isso não muda muito, pode ser uma armadilha. Não me incomoda mas também não altera em nada. Mas pode reduzir a possibilidade de trabalhar o personagem. Os rótulos reduzem.”

“Essa imagem que o meu trabalho proporciona é efêmera. Procuro me centrar em coisas mais sólidas, no meu ofício de ator, de palhaço. Sou só um ator. Sou só um palhaço. O êxito em um trabalho é mais importante do que o sucesso. Sou responsável pelo êxito. Não pelo sucesso.”

 Assédio

“A princípio eu era meio arredio, assustado. Mas aprendi que não posso mudar meus hábitos, me privar de ir a mercado, farmácia, padaria, banco. Prefiro o contato a me isolar e criar uma atmosfera de deslumbre danosa. Mas sou resguardado com relação à minha vida particular, não gosto de me colocar em evidência. As pessoas têm que conhecer o Domingos ator, isso é suficiente.”

Objetivo

“Ser ator nunca foi meu objetivo de vida. Quando criança queria ser bombeiro.”

Paternidade

“Foi um chá de realidade, me dá um eixo, um chão, um foco, essa avidez por fazer coisas no trabalho.”

“Acho que os pais são uma referência para os filhos e isso é fundamental. Se o filho não vê ali uma referência de segurança, ele vai crescer com uma deficiência muito grande de afetividade.”

 Contador de histórias

“Sou paulistano, urbano. Em ‘Cordel encantado’, eu já tinha mergulhado no universo do cangaço, mas ali era uma fábula. Agora, em ‘Velho Chico’, estamos representando uma realidade, falando de um rio extremamente importante para todo o país. São questões geográficas, sociais, políticas. É um mergulho um pouco mais profundo na vida e nos costumes dos nordestinos e suas dificuldades. Eu adoro contar histórias, servir à História. Nada pode ficar à frente disso.”

 Casamento

“Eu acho que seria uma pessoa bem pior se não fosse casado. O relacionamento ajuda a você perceber os seus erros.”

Personagem Santo

“Sua capacidade conciliadora, reflexiva, apesar de todas as pressões que sofre, é muito bonita. Ele consegue raciocinar e ver o caminho melhor. Ele tem essa alma de herói.”

“Não me vejo como um herói, claro. Mas eu compactuo desse espírito de superação. E também desse valor que ele dá à sua palavra. Levo a minha vida de acordo com os meus valores, amo o que faço. E sou grato por tudo o que conquistei.”

Vaidade

“Eu me cuido bastante fisicamente. Gosto de me manter ativo, o corpo funcionando, pronto para correr, pular, andar a cavalo. Cremes, ainda não uso. Já os anéis são uma mania desde garotinho, tenho uma coisa meio cigana. Por enquanto, gosto do que vejo no espelho, mas a idade chega pra todo mundo. Quero fazer sempre papéis que não tenham a ver com beleza. Eu sou um palhaço, ora! É a antítese do galã.”



Fonte: Revista Ecológico - Luciano Lopes



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