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O sociambientalismo brasileiro Página 2 – A utopia da Agenda 21

Compartilhe:     |  28 de abril de 2019

Por Samyra Crespo*

Assim que o conceito de DESENVOLVIMENTO sustentável foi jogado na mesa da Rio-92, a disputa sobre seu significado e alcance começou. O Fórum Paralelo, ou o FORUM DAS ONGs estava acampado no Aterro do Flamengo e usava como escritório o Museu da República. A Conferência da ONU (intergovernamental) acontecia no Riocentro.

Queríamos influenciar o conteúdo da Declaração do Rio e também tudo o que se decidia por lá. Distância e pressão. Pressão? Sabíamos fazer. O tema do clima apareceu mas ainda não era o centro das atenções. A convenção de florestas foi claramente boicotada pois não se previa mecanismos compensatórias para quem as protegesse.

O GEF (Global Encironment Facility) apenas se esboçava.

O BOFF , nosso Leonardo, dizia que desenvolvimento e sustentabilidade eram termos incompatíveis- que carregavam uma contradição irresolvível. Roberto Pereira Guimarães – o coordenador do documento brasileiro preparatório à Conferência – avisava do perigo de o conceito se tornar o território político das corporações. Pierre Leroy, franco belga que representava a FASE – agia como conciliador, secundado por Katia Drager Maia, secretária do Fórum com sede em Brasília.

Numa outra raia, nadavam outros peixes, bem graúdos. O International Business Council, contava com uma poderosa articulação empresarial iniciada na Suíça e criou uma significativa aliança no Brasil, representada então pela recem nascida FBDS – Fundação para o Desenvolvimento Sustentável, com o empresário ambientalista Israel Klabin à frente.

A proposta que estava na mesa e que ganhou a parada era: o Desenvolvimento Sustentável ocorre quando se promove ações e investimentos responsáveis no TRIPÉ ECONÔMICO, AMBIENTAL E SOCIAL. A “teoria do tripé ” ganhou certidão de nascimento.

O melhor dos mundos, a harmonia celeste – a nova utopia. Capital, trabalho e natureza – de mãos dadas.
Como implementá-la?

Eis então que vem à luz, do cenário brasileiro para o mundo, a AGENDA 21. Com quase 500 páginas e mais de 40 capítulos saiu da Conferência um roteiro de como implementar o tal tripé.

Neste documento consagrou-se todos os conceitos que seriam trabalhados pelos socioambientalistas nos anos seguintes.

O conceito de STAKEHOLDERS, o conceito de inclusão das populações vulneráveis no processo do desenvolvimento (crianças, idosos, índios, populações tradicionais e mulheres). Nada parecia ficar de fora.
Além disso a Agenda 21 repartiu o terreno para ninguém brigar: criou as Agenda Verde, a Agenda Azul e a Agenda Marrom.

Com isto os conservacionistas podiam continuar se sentindo à vontade para cuidar das florestas e da vida selvagem, outros dos oceanos, rios e lagoas e no terceiro time os urbanistas, os cientistas e técnicos dedicado ao controle da poluição urbano-industrial.

Sabendo que era necessário conquistar terreno ideológico o FÓRUMaralelo publicou um documento descrevendo as oito dimensões do desenvolvimento sustentável: ambiental, econômico, social, cultural, nacional/local e global, e espiritual.

Com esse conteúdo inclusivo surgiu um bando de implementadores da Agenda 21, no qual me incluo.
Uma história recheada de otimismos e ingenuidades.

Íamos ecologizar o mundo em 10 anos. Era este o horizonte. Esverdear o capital, conscientizar a população sobre a necessidade de bem utilizar os recursos naturais e deter o consumo conspícuo ou desenfreado. E as futuras gerações iriam nos agradecer e louvar.

Saímos nós – os cavaleiros do bem – daquela Conferência energizados. Uma ferramenta parecia melhor do que todas aos socioambientalistas: educação. Educar para a sustentabilidade. Naquele momento poucos dominavam o hardware da problemática ambiental. Não havia conhecimento ampliado nem profundo das questões envolvidas. Não existia sequer um curso de pós graduação em meio ambiente.

Começa a ferver o caldo da Educação Ambiental. Com açúcar e com afeto seus frutos, ou melhor seus caramelos, logo se tornaram peões num campo de batalha política.

Mas essa história eu deixo, como Sherazade, para contar no próximo post.

(Este texto é parte de uma série que venho publicando no site Envolverde/Carta Capital. Resgata a história recente do ambientalismo brasileiro e busca requalificar nossa atuação no contexto adverso do Brasil atual)

*Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.



Fonte: Envolverde/Carta Capital



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