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ONG alemã realiza mega-ação de limpeza na Baía de Guanabara

Compartilhe:     |  22 de dezembro de 2020

Na sede da Colônia de Pescadores Z-10, na Ilha do Governador, o cenário é de horror: sacos de lixo abarrotados formam pilhas de metros de altura no pavilhão, sem deixar quase nenhum espaço livre. As sacolas contêm cerca de 15 toneladas de resíduos da Baía de Guanabara – toda a gama do que a nossa sociedade de consumo joga fora diariamente: garrafas plásticas, sacolas plásticas, brinquedos de plástico, embalagens plásticas, isopor, sapatos, mochilas, pneus, colchões, carcaças de televisores e geladeiras, etc.

“Quem jogou o lixo na baía jogou no meu quintal”, diz Geraldo de Jesus Coutinho. Este senhor de 69 anos trabalha como pescador artesanal desde os 10 – assim como seu pai e seu avô. Coutinho – musculoso, de pele bronzeada e bigode – nasceu na Colônia Z-10. Ela existe desde 1920 e é a primeira colônia de pescadores registrada no Brasil.

Durante décadas, a pesca proporcionou às pessoas do local um meio de subsistência estável. “Tinha muito peixe bom, como robalo e tainha”, lembra Coutinho. “Tinha camarão, ostra e mexilhão. Era só colocar a mão na água limpa. Hoje, a gente pega lama.”

Com a pesca, Coutinho alimentou a família e permitiu que seus três filhos estudassem – mas não quer que eles também virem pescadores. “Esse trabalho não tem futuro, não dá mais para viver disso”, afirma. Mesmo hoje, muitos dos pescadores da Z-10 já fazem bicos como pedreiros ou motoristas do Uber.

“Quem jogou o lixo na baía jogou no meu quintal”, diz o pescador Geraldo Coutinho

Com Coutinho, a tradição milenar da pesca artesanal na Baía de Guanabara chega ao fim. A razão é simples: o lixo e a contaminação de uma das maiores, mais belas e biologicamente mais valiosas baías do mundo. “Minha rede costumava ser cheia de peixes”, conta Coutinho. “Hoje está cheia de sacos plásticos.”

Grande ação para coleta de lixo

Essa é uma das razões pelas quais ele participou de uma ação incomum no último sábado (19/12). Ao lado de outros 160 pescadores de oito diferentes colônias, ele coletou lixo. Às seis da manhã, ele e cerca de uma dúzia de colegas da Z-10 entraram em suas canoas de madeira e navegaram pela baía até uma das praias mais sujas do Rio de Janeiro, a Praia de São Bento, na Estrada do Galeão. Era uma visão chocante, pois era tudo praticamente só lixo.

Por cerca de duas horas, Coutinho e seus colegas percorreram a praia com luvas e botas de borracha. Além do lixo habitual, eles encontraram seringas hospitalares, máscaras, preservativos e um peixe preso dentro de uma sacola.

“Quando apareceram as primeiras sacolas plásticas, meu pai avisou que elas iriam destruir o mundo”, diz Coutinho. “Cansei de encontrar tartarugas mortas com o estômago cheio de sacos, porque elas os confundem com algas.” Quando todos os sacos de lixo estavam cheios, um barco de pesca veio da colônia para buscá-los.

Os voluntários percorreram a praia com luvas e botas de borracha para coletar o lixo

ONG alemã One Earth One Ocean (OEOO) é quem está por trás da operação de limpeza – uma das maiores já realizadas na Baía de Guanabara. Os organizadores prepararam a ação durante meses e pagaram 100 reais a cada um dos pescadores pela participação.

Dez anos de luta contra a poluição

A OEOO foi fundada há dez anos pelo empresário de TI de Munique Günter Bonin, que largou sua empresa para investir seu capital e know-how na limpeza dos mares. Velejador apaixonado, Bonin estava chocado com o aumento de lixo nos oceanos, onde flutuam atualmente mais de 150 milhões de toneladas de resíduos plásticos. Em 2050, o peso de tais detritos pode inclusive ultrapassar o dos peixes, alerta a ONU.

O plástico, por fim, também chega ao organismo humano por meio de micropartículas, onde pode causar danos graves. E, mais cedo ou mais tarde, o meio ambiente se vinga de tudo o que os humanos fazem com ele. Bonin, hoje com 64 anos, sentiu que precisava fazer algo.

Desde então, a OEOO tem atuado na Indonésia, no Camboja, nas Filipinas e no Egito, países com extrema poluição da água. Lá, a ONG atua com as comunidades locais e tem funcionários pagos. O objetivo é sensibilizar a população para o problema, porque não se trata apenas de recolher o lixo, mas sobretudo de evitá-lo. Como resultado, algumas comunidades ribeirinhas do Camboja estão hoje muito mais limpas do que antes, diz Bonin.

Na Ásia, também começam a ser usados os primeiros barcos de coleta de lixo desenvolvidos pela OEOO. Em suas viagens, eles coletam toneladas de lixo plástico e em breve poderão navegar inclusive pela Baía de Guanabara. A menor das embarcações se chama Sea-Hamster e é comparável aos ecobarcos do governo estadual do Rio, que zarparam pela primeira vez em 2014 – mas já em 2015, por falta de financiamento, tiveram que ancorar no porto. É típico do Rio que uma ONG faça agora o trabalho que o estado não faz por causa de corrupção, desinteresse e incompetência.

No lixo coletado, restos de tudo o que sociedade de consumo joga fora diariamente

Por último, mas não menos importante: a OEOO também trabalha com instituições de pesquisa para coletar dados sobre poluição e classificar o lixo. Segundo Bonin, um dos nossos objetivos é obter combustível, como o diesel sintético, a partir do lixo plástico.

Rio como símbolo

Faz cerca de um ano que a ONG decidiu atuar no Rio. “A cidade é um símbolo”, afirma a presidente da OEOO no Brasil, Laura Kita Kejuo. “O que acontece aqui é visto e divulgado.”

Sendo assim, foi seguida uma estratégia: o primeiro passo foi criar conceitos gerais com a Colônia Z-10 para a reciclagem do lixo. Na comunidade de cerca de 5 mil habitantes, foi coletado então o lixo reciclável, sobretudo garrafas PET. A ideia era gerar uma pequena renda extra para a comunidade com a venda do lixo.

No sábado, a primeira carga de resíduos chegou de caminhão à sede da colônia de pescadores no início da tarde. Mas naquele dia, ele ainda iria voltar carregado muitas vezes para entregar o lixo das demais colônias participantes da ação, entre elas Magé e Itaboraí.

Depois que cada saco era pesado, voluntários tinham que separar o lixo

Depois que cada saco era pesado, uma dúzia de voluntários, em sua maioria jovens da Colônia Z-10, começava a separar o lixo. Um deles era a jovem Lohane Quintanilha, de 19 anos, cujos dois tios são pescadores. “Se a gente não atua, vamos viver num grande lixão”, diz ela, enquanto apanha do lixo dezenas de tampinhas de garrafas de plástico. “O povo que joga tudo isto no meio ambiente está sem noção.”

Estima-se que 90 toneladas de resíduos vão parar na Baía de Guanabara todos os dias, além de 15 mil litros de esgoto não tratado por segundo. É claro que, com tais dimensões, uma ação pontual como essa é pouco mais do que enxugar o gelo.

“Vemos isso como um projeto piloto”, diz Kita Kejuo, filha de um camaronês com uma brasileira e fluente em alemão, francês e inglês. “Estamos agora em busca de parceiros no Rio: empresas, instituições de pesquisa e outras ONGs. Para 2021, planejamos cinco limpezas. Queremos operar permanentemente no Rio.”

Para o pescador Geraldo Coutinho, a limpeza de sábado foi muito importante. Ele diz que algo assim deveria ser feito todos os dias, mas que pelo menos é um começo. “Isso devolve a nós, pescadores, um pouco da nossa dignidade.”



Fonte: Ambiente Brasil - Deutsche Welle



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