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Os estranhos ataques de orcas contra barcos na costa de Portugal e da Espanha

Compartilhe:     |  26 de novembro de 2020

“Não me assusto facilmente, mas aquilo foi assustador”, diz o capitão David Smith, rememorando uma noite de outubro quando seu barco foi abordado por animais que a princípio pareciam golfinhos.

Logo ficou claro que eram muito maiores do que os golfinhos, e se comportavam de maneira muito estranha.

“Eu olhei para o animal, muito preto e branco brilhante.”

Por cerca de duas horas, um grupo de baleias assassinas bateu na parte inferior do iate de 45 pés (13,7 m) que navegava ao largo da costa de Portugal.

“Foi sem parar”, diz ele. “Acho que eram seis ou sete animais, mas parecia que os mais jovens, os menores, eram os mais ativos. Pareciam mirar o leme, e o timão simplesmente começava a girar muito rápido toda vez que havia um impacto.”

O trabalho de David é entregar novos barcos onde os proprietários os querem ancorados. Nesse caso, ele fazia parte de uma equipe de entrega de um catamarã que seguia da França para Gibraltar.

Uma hora antes do pôr do sol, um dos tripulantes gritou. “Parece que temos alguns golfinhos grandes por aqui.”

Até então, o único encontro que David havia tido com uma orca se deu há mais de 20 anos em um aquário de Vancouver, mas no segundo encontro não tinha dúvidas de que estava olhando para um grupo das chamadas baleias assassinas.

Uma sensação de curiosidade e excitação rapidamente se transformou em medo quando uma orca desapareceu sob o barco e houve um forte som de batidas no casco.

O barco estava a quase 30 km de Porto, cerca de três horas da costa portuguesa. Com o rádio VHF fora de alcance, tiveram que usar o telefone via satélite para entrar em contato com a guarda costeira, que os aconselhou a desligar o motor e retirar as velas. Seja o mais “desinteressante” possível, disseram.

“Então estávamos apenas à deriva. Mas, enquanto estava ao telefone, pude ouvi-los batendo no barco. Em um ponto, um dos animais maiores veio direto para a popa e virou de costas. Dava para ver sua parte inferior branca e brilhante.”

As batidas repetidas, por mais perturbadoras que fossem, não eram o maior medo de David. Enquanto o timão girava para lá e para cá, ele pensou que os animais estariam prestes a deslocar o cabo do leme.

“Se isso quebrar, você está realmente em apuros”, diz ele. “Definitivamente, estava me preparando para pedir à guarda costeira portuguesa que enviasse um helicóptero para nos resgatar.”

O episódio descrito por David é um de pelo menos 40 incidentes semelhantes na região. Durante o verão de 2020, um grupo de orcas na costa da Espanha e de Portugal começou a agir de maneira bastante estranha.

Os relatos apontavam que os animais visavam deliberadamente os barcos à vela. Como diz David: “Eles vieram até nós, não o contrário”.

O primeiro incidente relatado foi em julho, e o mais recente, no final de outubro.

Por trás das manchetes ao redor do mundo sobre “baleias assassinas”, ataques de orcas “orquestrados” e vídeos compartilhados milhares de vezes nas redes sociais, há uma investigação científica marinha forense que ainda está tentando descobrir o que está levando esses complexos, inteligentes e altamente sociais mamíferos marinhos a se comportem dessa maneira.

‘Eu simplesmente não podia acreditar’

À medida que escurecia, os baques reverberantes sob o barco continuavam. De repente, David percebeu as luzes de um barco de pesca à distância.

“Levantamos a vela, com a ideia de que, se as coisas realmente dessem errado, teríamos outro barco para embarcar.”

Finalmente, depois de duas horas, de uma forma tão inesperada quanto começou, tudo ficou em silêncio. Nenhum som por cinco minutos, depois dez minutos sem barulho. O timão havia parado de girar.

“Depois de quase uma hora, estávamos confiantes de que eles haviam nos deixado.”

A tripulação então moveu o barco para mais perto da costa, até o rádio voltar a ter alcance. Quando chegaram a Gibraltar para uma avaliação mais completa de danos, o barco tornou-se mais uma prova na investigação em curso.

Não é incomum ver orcas nessas águas do Atlântico. Durante milênios, elas perseguiram sua presa favorita, o atum-rabilho, enquanto migravam ao longo das centenas de quilômetros da costa portuguesa e espanhola, e através do estreito estreito de Gibraltar, para se reproduzir nas águas mais quentes do mar Mediterrâneo.

O relacionamento dos humanos com essas orcas, no entanto, tem estado por um fio desde que começamos a pescar mais do ultravalorizado atum-rabilho do que parece ser sustentável.

Cerca de 60 baleias assassinas vivem nessas águas hoje, mas o número era 39 em 2011, um declínio que a organização conservacionista espanhola Circe associou a uma queda nos estoques de atum-rabilho.

Em 2010, autoridades regulatórias internacionais reduziram o montante permitido de captura anual no Mediterrâneo. E, à medida que o atum-rabilho se recuperava gradualmente, o mesmo acontecia com as baleias assassinas.

Mas a sobrevivência da espécie continua precária. Esta população específica de orcas está listada como criticamente ameaçada e protegida por lei. Mas a crise de conservação não explica por que alguns desses animais de repente começaram a se comportar de forma tão bizarra e aparentemente agressiva perto de barcos.

“No início eu simplesmente não acreditei”, diz Ruth Esteban, cientista marinha de fala mansa que escolhe as palavras com cuidado, não querendo especular sobre algo tão complexo como o comportamento de uma orca.

Ruth trabalha no Museu da Baleia da Madeira, mas estudou esta população de orcas durante os seis anos de seu doutorado.

“Essas baleias assassinas estão sempre curiosas sobre os barcos e vão se aproximar deles. Mas tocá-los e causar estragos? Eu pensava que as pessoas só estavam com medo e interpretavam mal o que estava acontecendo.”

Mas os relatos só aumentaram.

Em julho, uma embarcação a vela teve que ser rebocada de volta para a costa depois que um grupo de orcas danificou o leme.

Em agosto, um navio de bandeira francesa comunicou por rádio à guarda costeira que estava “sob ataque” de baleias assassinas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, um iate espanhol, Mirfak, perdeu parte de seu leme após um encontro com orcas. Um vídeo desse incidente mostrou a tripulação tentando deixar para trás os animais, que pareciam perseguir o barco.

Em setembro, um homem que viajava da Espanha em seu barco de volta para a Escócia de repente teve o timão girando de suas mãos. Uma baleia assassina surgiu na lateral do barco e, por 45 minutos, os animais bateram e mastigaram o leme, fazendo o barco girar.

“Está ficando cada vez pior”, diz Renaud de Stephanis, biólogo envolvido na investigação.

Renaud e Ruth costumavam trabalhar juntos na pesquisa de orcas. Ele estuda essa população de baleias assassinas desde os anos 1990 e, por meio de sua organização de pesquisa conservacionista, Circe, realizou um trabalho que ajudou os animais a obterem o atual status de proteção oficial.

Os dois cientistas agora fazem parte de um grupo que realiza uma investigação informal sobre esse comportamento estranho e potencialmente perigoso.

Identificando os envolvidos

Em setembro, os pesquisadores começaram a reunir evidências sobre o fenômeno. Eles compararam as imagens dos incidentes com um catálogo de imagens capturadas e usadas pelo Circe para identificar os animais. Cada uma das orcas tem um formato único atrás de sua barbatana dorsal, que da superfície serve como uma “impressão digital”.

Fotos e vídeos mostraram que três indivíduos estiveram envolvidos na maioria dos incidentes: machos jovens nomeados no registro oficial como Gladis Negra, Gladis Branca e Gladis Cinza.

As baleias assassinas vivem, caçam e se movem em grupos familiares intimamente ligados: grupos fortemente unidos, liderados por matriarcas que, em algumas populações, demonstraram ter até dialetos próprios do grupo.

As famílias geralmente ficam muito próximas, com avós longevas que ajudam a criar os filhotes e os ensinam a caçar. Os machos vagam, misturando-se e acasalando-se com outros animais. Até agora, os pesquisadores não descobriram a qual família “os três Gladis” pertencem.

Os cientistas publicaram suas conclusões sobre a identidade dos “culpados”, e imediatamente surgiram notícias sobre “saqueadores adolescentes”.

A cobertura da mídia ficou mais estranha e sombria quando os cientistas também revelaram que Gladis Branca tinha um ferimento bastante grave na cabeça: um corte que parecia ter sido causado por um barco, possivelmente por uma hélice.

Esta revelação fez com que as manchetes aumentassem um nível antropomórfico do fenômeno: as baleias assassinas estariam “orquestrando ataques de vingança”, disseram os tabloides New York Post, dos EUA, e The Sun, do Reino Unido.

Nas redes sociais, em meio a GIFs e memes sobre o confronto no oceano, houve comentários sugerindo que as pessoas em seus iates deveriam “ficar em suas mansões” e que as orcas haviam se alistado em uma “luta contra os proprietários de iates”.

Ruth não dá muito crédito à ideia de orcas vingativas porque não dá para saber o que aconteceu primeiro: o ferimento ou o primeiro incidente com um barco.

Mas há uma conclusão que os cientistas tiraram com segurança do estudo e de seus anos de observação dessas baleias assassinas: elas estavam brincando.

Brincadeira perigosa?

“Elas sempre parecem mirar o leme, e eu acredito que isso acontece porque é a parte móvel do barco”, explica Ruth. “Em alguns casos, elas podem mover o barco inteiro com ele. Nós vemos em alguns vídeos o barco girando quase 180 graus.”

“Se elas percebem que têm o poder de mover realmente grande, talvez isso as tenha impressionado.”

As conclusões da investigação e as recomendações para barcos sobre como evitar essas interações potencialmente perigosas dependem da compreensão do que impulsiona o comportamento desses animais.

Mas cientistas, documentaristas ou marinheiros conseguiriam entender a mente de um predador marinho tão complexo e inteligente?

Muitos tentaram. Enquanto as orcas eram historicamente caçadas e vistas pelas comunidades pesqueiras como “pragas” perigosas, a década de 1960 viu o início do que era indiscutivelmente uma fascinação igualmente perigosa pelos animais.

Ao longo das décadas de 1960 e 70, orcas eram capturadas para exibição em parques aquáticos e realizar truques com treinadores para o deleite de milhares de espectadores.

Os conservacionistas fizeram campanhas contra o cativeiro de orcas por décadas. Mas uma baleia assassina, Tilikum, que passou a maior parte de sua vida no SeaWorld na Flórida, alçou o problema para os holofotes globais quando se envolveu na morte de três pessoas.

O filme Blackfish, de 2013, alegava que Tilikum sofreu um trauma mental por causa da vida em cativeiro, e isso o levou a atacar pessoas.

A vida sozinha em uma piscina de concreto certamente tem pouca ou nenhuma semelhança com a existência natural de uma orca selvagem.

Região estimada onde acaba a migração das orcas — Foto: BBC

Região estimada onde acaba a migração das orcas — Foto: BBC



Fonte: G1 - Por Victoria Gill - BBC



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