Crônicas e Poesias

Os incendiários são os outros

Compartilhe:     |  14 de novembro de 2020
J.B. Libanio

Numa casa simples na Serra do Cipó, rumo à Cachoeira do Bicame, a apenas 50 metros de distância da linha de fogo que só foi apagada após quase oito horas de combate, envolvendo o heroísmo de 60 brigadistas, um livro precioso também se salvou das chamas.

Trata-se, na verdade, de um livreto escrito pelo teólogo e padre jesuíta J. B. Libanio, intitulado “Qual o caminho entre o crer e o amar?”. Parece que ele foi escrito para as pessoas que, sem culpa e ignorantes da beleza e importância vital do mesmo Deus ou da Natureza que lhes dá a vida sem nada pedir de volta, são responsáveis por 90% dos incêndios, segundo estatísticas de bombeiros e brigadistas. Sentem prazer no que fazem.

E por que Deus, a própria Natureza, mais forte do que eles, permite isso? É o que Padre Libanio nos convida a meditar na página 9, sobre os humanos infernais que continuamos sendo.

“De maneira imperfeita e analógica, imaginamos um Deus que se retrai, se encolhe para que o mundo exista. Quando chove, chove. E Deus não pode impedir que as águas subam, inundem e matem. Quando o sol arde, seca. E Deus não pode evitar que a seca castigue muitos com seus efeitos.

Essas leis agem dentro de determinados limites que nem ele infringe. Já começam a aparecer os pequenos infernos terrestres: terremotos, avalanches, nevascas, temporais, maremotos, etc.

Deus encolhe-se uma segunda vez.

Os limites da criação material até então não afetariam nenhuma consciência. Os males terrestres não seriam infernos humanos. Não chegariam a ser realmente sofrimento, porque não havia quem os captasse como tal.

Eis que Deus cria o ser humano livre, consciente. Doravante estabelece-se um jogo entre a criação e ele. Tudo que acontece na natureza afeta os seres humanos e eles também interferem na harmonia do universo. Surgem os infernos humanos, produzidos por catástrofes naturais e por ações históricas.

Toca ao ser humano, em liberdade e consciência, ir configurando o seu entorno terrestre e histórico. Ele é um nó de relações livres, afetivas, humanas com todos os seres existentes e com o criador deles. Nesse momento surge a possibilidade, não de Deus criar um inferno de relações, mas de o ser humano fazê-lo.

Sartre plasmou a frase tão repetida, mas sem deixar de ser terrível: “O inferno são os outros”.

É verdade só em parte. Todos fizemos experiências de quão pesado, quão infernal é conviver com pessoas extremamente egoístas, narcisistas, fechadas nelas mesmas. São-nos um inferno.

Foi Deus? Não. Foram a nossa liberdade e as nossas decisões, nutridas e corroboradas com muitas outras. Há, sem dúvida, um nível pessoal em que unicamente eu sou o plasmador do inferno.

O inferno começa então a ser construído na Terra pelas relações que instituímos com as pessoas. Nelas estão ausentes o amor, a misericórdia, a compaixão, a ternura, a acolhida. Elas cristalizam-se cada vez mais no ódio, na rejeição, na frialdade, no absoluto encapsulamento em si mesmo.

A frase de Sartre adquire plena verdade quando o eu se faz absoluto no sentido forte da etimologia – Ab-soluto – estar separado de todo liame, de toda relação. Isto é, separado de todo outro ser humano. Eis aí o inferno. E o conjunto de seres assim constitui-se o inferno coletivo.

Neste sentido, Deus (a Natureza) não condena a ninguém. Respeita sofrido (a) e calado (a) a decisão das pessoas se autodeterminarem numa direção. Continua eternamente aberto, esperando, sofrendo a eterna rejeição egoísta da liberdade humana.”



Fonte: Revista Ecológico



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