Para responder ao apetite insaciável dos peixes, as técnicas de pesca estão sendo cada vez mais aprimoradas, com embarcações maiores, redes mais profundas e sonares mais eficientes, que poderão deixar o mar sem uma parte importante de seus recursos.

Em 2017, 92,5 milhões de toneladas de peixes e frutos do mar foram pescados em todo mundo – quatro vezes mais do que em 1950, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Este aumento se deve ao crescimento da população e a um maior consumo por habitante.

Mas os recursos marinhos não são inesgotáveis. Em 1996, houve um pico na pesca de peixes, segundo a FAO, e, desde então, o volume está estagnado.

Um terço das reservas de peixes do mundo está superexplorado, alerta a FAO. Isso não significa que as espécies envolvidas podem desaparecer, pois uma reserva de peixes corresponde a uma população em uma zona geográfica concreta. Contudo, esta situação pode ameaçar sua pesca no futuro.

Bolas de concreto são jogadas no mar nas águas de Puerto Quetzal, no Oceano Pacífico da Guatemala, em 13 de dezembro de 2016, para formar corais artificiais e restaurar a vida marinha, afetada pela pesca excessiva e poluição© Orlando Estrada Bolas de concreto são jogadas no mar nas águas de Puerto Quetzal, no Oceano Pacífico da Guatemala, em 13 de dezembro de 2016, para formar corais artificiais e restaurar a vida marinha, afetada pela pesca excessiva e poluiçãoAs reservas excessivamente exploradas “podem diminuir a níveis de abundância tão baixos que já não seja mais rentável pescar”, explica Didier Gascuel, pesquisador e membro do conselho científico do instituto de pesquisa Ifremer.

Atualmente, os arrastões (barco que usa redes de arrasto) são responsáveis pela metade das capturas mundiais, mas nem sempre são seletivos em sua forma de captura.

A situação é ainda pior para a pesca de arraste de fundo: a rede é lastreada, uma técnica muito criticada pelas ONGs.

“Ara-se o solo dos oceanos para pescar peixes sem distinção, com um impacto nos corais, nas esponjas”, denuncia Frédéric Le Manach, da associação Bloom, que organizou uma campanha contra a pesca em águas profundas, proibida pela União Europeia em 2016.

O palangre – uma linha na qual são pendurados milhares de anzóis que podem prender também aves, ou tartarugas – ou os dispositivos de concentração de peixes (DCP) também estão na mira.

– Cotas necessárias –

A União Europeia proibiu a pesca elétrica a partir de 2021, uma prática controversa, muito usada na Holanda. É um “novo duro golpe nos pescadores holandeses, que reduz a nada as perspectivas de futuro de suas empresas”, criticou a VisNed, principal organização de pescadores do país.

Diante da exploração excessiva, ONGs e cientistas defendem uma pesca mais razoável. “A pesca é um desafio para a segurança alimentar”, particularmente nos países mais pobres, lembra François Chartier, encarregado desta questão no Greenpeace.

A pesca é regulada pelas legislações nacionais, pela União Europeia, ou por organizações regionais de gestão de pesca (ORGP). Mas “é difícil fazer que sejam aprovadas medidas rigorosas” nestas últimas, levando em conta o peso da indústria pesqueira, lamenta François Chartier.

Reduzir a frota é apenas uma parte da solução, embora os barcos que continuam operacionais sejam cada vez mais potentes. “É preciso limitar as capturas e executar cotas”, afirma Didier Gascuel.

Para as ONGs, é preciso combater a pesca ilegal, os subsídios que estimulam o excesso de pesca e a pesca destinada a fabricar farinha de peixe. Em vez disso, devem ser promovidos métodos passivos de pesca (vasos, redes fixas), o estabelecimento de áreas marinhas protegidas, a criação de rótulos mais rigorosos, ou o apoio a áreas de pesca que permitam a reconstituição de reservas e criação de empregos.

“Recuperar as reservas superexploradas permitiria aumentar a produção em cerca de 25%”, indica Manuel Barange, da FAO, à AFP.

Além disso, a mudança climática poderia piorar as coisas. Isso “provocará certa redistribuição das reservas de peixes” e poderia fazer com que “regiões tropicais e pequenos Estados insulares tenham que fazer frente aos impactos mais negativos, enquanto as regiões polares se beneficiarão dos aumentos”, alerta Barange.