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Pandemia aumenta risco de radicalização de jovens, alertam especialistas na Alemanha

Compartilhe:     |  9 de fevereiro de 2021

Forçados a ficar em casa devido ao coronavírus e diante de incertezas sobre o futuro trazidas pela crise, adolescentes ficam mais suscetíveis à influência de grupos extremistas, alertam especialistas na Alemanha.

A seguinte história de extremismo começa, como muitas outras na Alemanha, com Adolf Hitler. Mais especificamente, um meme de Hitler – postado juntamente com alguns comentários racistas no quadro de avisos virtual de uma escola.

Memes são apenas uma das ferramentas de mídia social usadas por grupos extremistas. Com esse tipo de “conteúdo leve” divulgado em canais populares – como Youtube, Instagram e plataformas de jogos –, eles vêm estendendo seu alcance digital a partir de cantos obscuros da web.

Entre o público-alvo estão adolescentes, diz Lisa Kiefer, que lidera um projeto chamado CleaRTeaching, lançado em 2016 para prevenir a radicalização de jovens na Alemanha. Foi em uma das escolas parceiras do projeto que aconteceu o episódio do meme de Hitler.

Postar um meme ofensivo ou, nesse caso, potencialmente ilegal, não significa necessariamente radicalização. No entanto, revela uma tendência perturbadora entre a população menor de idade: eles estão agora mais propensos a compartilhar conteúdo extremista, em muitos casos sem saber, por causa da internet, aponta Kiefer.

Não é raro que alunos compartilhem vídeos e outros conteúdos que para eles “parecem completamente inofensivos”, diz Kiefer. “Mas isso se torna um problema maior quando sabemos o que está realmente por trás. E há muito disso circulando por aí.”

Com a pandemia do coronavírus forçando adolescentes a ficarem em casa, é menos provável que professores tomem conhecimento de conteúdo problemático como o meme de Hitler. E sem esse suporte, alguns alunos podem ficar mais vulneráveis a grupos extremistas na internet.

Esforços sutis nas redes sociais

Nos últimos anos, esforços de radicalização avançaram rapidamente na Alemanha graças à internet, com os maiores temores em torno não só do extremismo de direita, mas também de grupos islamistas. E esses esforços estão se tornando cada vez mais sutis.

Extremistas de direita protestam em Berlim contra restrições por covid-19

Extremistas de direita, por exemplo, têm abandonado os velhos métodos de recrutamento, como distribuição de CDs de música nazista. A chamada “Nova Direita”, na verdade, não está realmente recrutando, no sentido clássico da palavra, avalia o especialista em extremismo de direita Andreas Speit, escritor e repórter do jornal berlinense Taz.

“Eles querem mudar a maneira como as pessoas pensam e agem na esfera pré-política na esperança de enfraquecer o status quo”, diz Speit. “E essa é exatamente a estratégia que eles usam nas redes sociais. Eles buscam atingir os jovens adultos com seu ressentimento de direita.”

Uma das maneiras de fazer isso é distribuir jogos que promovam ideias de proteção da Europa, com protagonistas que se enquadrem no contexto do “nacionalismo étnico”. Outra são contas do Instagram com mensagens sutis de teor antissemita ou xenofóbico.

Neossalafistas, um grupo islamista na Alemanha, também têm adotado uma estratégia similarmente sutil. Vídeos publicados no Youtube e postagens feitas nas redes sociais, por exemplo, manipulam a luta contra o racismo e a exclusão como forma de fortalecer a solidariedade muçulmana. Em termos de aparência e mensagem, eles podem até parecer menos radicais, mas especialistas alertam que isso não passa de uma falsa impressão.

“Eu não canso de dizer: o que está por trás disso é uma ideologia brutal”, afirma Bernd Ridwan-Bauknecht, professor há muitos anos no sistema escolar público alemão e ele próprio convertido ao islã.

Desde 2004, Bauknecht dá aulas de religião islâmica, que são oferecidas em algumas escolas públicas, e testemunha como a propaganda chega aos adolescentes, seja a partir da cena neossalafista na Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha, ou de remotos partidários do “Estado Islâmico” nos últimos anos.

Na visão de Bauknecht, a radicalização é um processo complexo com muitos fatores a serem considerados. Ao mesmo tempo, ele adverte que esses esforços mais sutis de mídia social não devem ser subestimados. “Eles representam um meio para alcançar um fim”, alerta.

Identificação de adolescentes em risco

Quando se trata de ajudar os alunos a navegar nessas águas turvas, no entanto, nem sempre é tudo tão evidente quanto o meme de Hitler, uma violação óbvia.

O CleaRTeaching, que lançou recentemente um programa nacional para implementar os resultados de seu projeto-piloto, pretende introduzir uma abordagem holística para combater a radicalização. A ideia é incorporar a conscientização entre alunos e professores sobre suas próprias crenças e preconceitos ao lidar com conteúdo ideológico. A ênfase está em contexto, diálogo e respeito – e na implementação de um sistema nas escolas que possa prevenir a violência radicalizada nos casos mais graves.

Atualmente, Kiefer pôde observar um aumento perceptível nos “medos existenciais” entre os alunos das escolas profissionalizantes onde o CleaRTeaching atua.

A experiência de passar por uma crise pode servir de catalisador para a radicalização, junto com uma série de outras questões, desde questões de desenvolvimento durante a puberdade a problemas familiares, passando por discriminação ou exclusão.

Os alunos em maior risco, segundo Kiefer, são aqueles “em busca de um significado e frustrados com a sociedade”. “E atualmente, estamos passando por um momento em que muitas pessoas estão frustradas com muitas coisas”, diz.

Conteúdo extremo na pandemia

A própria covid-19 se tornou matéria-prima para propaganda online. Postagens islamistas identificadas pelo jugendschutz.net, órgão virtual independente que monitora a segurança infantil na Alemanha, equipararam a pandemia a uma punição de Deus por comportamento pecaminoso e profetizaram o fim dos tempos.

Posts de direita, por sua vez, usaram a crise para espalhar teorias da conspiração de que as medidas restritivas são na verdade o início de uma ditadura sob o comando da chanceler federal alemã, Angela Merkel. Eles também conseguiram juntar teorias da conspiração da pandemia com crenças antissemitas e xenófobas.

Print de tela de propaganda islamista baseada em teoria da conspiraçãoPostagem no Instagram afirmando que a propagação de doenças como a covid-19 é um castigo de Deus

Mas quanto disso é visto pelos adolescentes? Essa é uma pergunta quase impossível de responder, diz Julia Klatt, que trabalha com o Mobile Beratung gegen Rechtsextremismus NRW, um programa de aconselhamento móvel encarregado de combater o extremismo de direita e promover esforços antidiscriminação na Renânia do Norte-Vestfália.

Mas uma coisa Klatt pode confirmar: antes da pandemia, a maioria dos pedidos de aconselhamento ocorria quando os alunos eram expostos a “memes de direita ou racistas, ou geralmente, fotos ou mensagens em um grupo da turma no WhatsApp”.

E também que, apesar das limitações da pandemia, tais pedidos não diminuíram de forma perceptível.

Ascensão de grupos alternativos

Um ponto que preocupa programas como o de aconselhamento móvel e o CleaRTeaching é o surgimento de teorias da conspiração por meio de grupos alternativos como o QAnon ou de seguidores do chamado movimento Querdenken ou de movimentos antivacinas.

Segundo um estudo realizado neste mês pela Comissão para a Proteção de Menores na Mídia (KJM), mais de um terço das postagens de grupos alternativos, incluindo de influenciadores, foram consideradas ilegais ou prejudiciais a menores. Após examinarem 800 posts e vídeos, os pesquisadores descobriram que isso vale para mais da metade do conteúdo analisado do Telegram e do VK, quase 40% do Youtube e pouco menos de 30% no caso de Twitter e Facebook.

Manifestação antivacina em Dortmund, na Alemanha, em 18 de outubro de 2020.Grupos antivacina causam preocupação por estarem muitas vezes ligados a teorias da conspiração

Também há uma preocupação crescente de que o envolvimento com “conteúdo menos prejudicial” possa acabar levando a percepções mais radicais. Um estudo abrangente de 2019, que analisou mais de 330 mil vídeos em cerca de 350 canais do Youtube, sugeriu que isso acontece em parte por meio de doutrinação, mas também através de algoritmos.

Tanto Kiefer, do ClearTeaching, quanto Klatt, do grupo de aconselhamento móvel, têm visto essas tendências aumentarem – e não é apenas com os alunos que elas se preocupam.

“Já estou recebendo pedidos de ajuda dizendo, por exemplo, que ‘minha mãe, meu pai ou meu tio estão envolvidos [em um desses grupos]. O que devo fazer, o que posso fazer para resgatá-los?’,” conta Klatt.

Klatt e Kiefer calculam que esse será um problema crescente nos próximos meses, à medida que isso se torna cada vez mais problemático também na sociedade como um todo.



Fonte: Deutsche Welle - Kathleen Schuster



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