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Pangolins podem ser salvos com políticas de conservação e esforço coletivo

Compartilhe:     |  3 de maio de 2021

Os pangolins filipinos, encontrados apenas na província insular de Palawan, estão entre os mamíferos mais traficados no mundo, com quase 7,000 resgates entre o ano de 2018 e 2019.

Mas ao contrário de populações de outras espécies de pangolins, o pangolim filipino pode ter a chance de se recuperar se medidas adequadas de conservação forem estabelecidas para proteger a espécie.

Um novo estudo, que usa o avistamento e o conhecimento dos moradores locais sobre as espécies, mostra que o pangolim filipino está amplamente distribuído em toda sua área, e o conhecimento que se tem sobre a espécie é grande. No entanto, os avistamentos de pangolins são raros ou muito raros e foram relatados declínios em todas as áreas de pesquisas.

A pesquisa também mostrou um elevado nível de disposição das comunidades em proteger as espécies, sugerindo que os esforços locais para conservação podem funcionar, segundo os pesquisadores.

Foto: Portal dos Animais

O conhecimento que se tem sobre o pangolim filipino, a única espécie desse animal no país, é escasso. A observação dos animais é ainda mais rara, ao contrário, porém, de outras espécies de pangolim ao redor do mundo que estão à beira da extinção. Um novo estudo sugere que com as medidas adequadas de conservação, os pangolins endêmicos das Filipinas ainda têm uma chance de se recuperarem.

Em um estudo publicado em dezembro do ano passado, no jornal Global Ecology and Conservation, pesquisadores conduziram uma pesquisa abrangente, descobrindo que os pangolins filipinos (Manis culionensis) foram avistados em 17 dos 24 municípios de Palawan. A província insular é o único lugar do planeta terra onde essa espécie é encontrada.

“Para o pangolim filipino, isso é promissor e sugere que não é tarde demais para estabelecer medidas de conservação para toda gama das espécies”, conta a autora, Lucy Archer, da Sociedade Zoológica de Londres (Zoological Society of London – ZSL),  ao Mongabay.

Uma espécie enigmática

Tão pouco é conhecido sobre o pangolim filipino, que até mesmo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) considera que a espécie está em perigo crítico, e não há uma estimativa aceita para sua população base. A literatura científica sugere que a espécie nunca foi comum, e em entrevistas realizadas em 2018 com comunidades indígenas sugere que ela tem estado em declínio acentuado desde os anos 80, de acordo com a IUCN..

Entretanto, a nova pesquisa publicada dá motivos para sermos otimistas. Do grupo da ilha Palawan, o filhote de pangolim filipino e sua mãe são uma espécie endêmica em perigo crítico. Foto por Gregg Yan, licenciado sob CC BY-SA 4.0

Foram realizadas pesquisas abrangentes similares, avaliando o conhecimento que os moradores locais têm sobre pangolins. As pesquisas feitas na África Ocidental para o pangolim gigante (Smutsia gigantea) e na China e Vietnã para o pangolim Chinês (Manis pentadactyla). As pesquisas mostram que os moradores locais acreditam fortemente que suas espécies de pangolim estão extintas: seus avistamentos são raros ou inexistentes. Este já não é o caso dos pangolins filipinos: os moradores locais ainda os veem, embora muito raramente, e o número de áreas onde podem encontrá-los é alto.

“Em comparação com estudos similares sobre a espécie de pangolins em outros lugares, estes resultados sugerem que as populações de pangolins filipinos podem não ter atingido os níveis críticos alcançados pelos pangolins Chineses, na China e no Vietnã, ou pelos pangolins gigantes em Benin,” diz Archer. “Isto oferece alguma esperança para a espécie.”

A pesquisa foi realizada de janeiro a junho de 2019 e ajuda a estabelecer a área de distribuição da espécie com base nos avistamentos dos residentes. Os moradores locais chamam o pangolim filipino de “balintong”, que significa “dar cambalhotas,” em referência ao seu hábito de rolar para se esconder quando ameaçados.

Até 1998, o pangolim filipino foi considerado como uma população separada do pangolim-malaio (Manis javanica), que existe em grande parte do sudeste asiático, mas não nas Filipinas. Seu reconhecimento como espécie própria coincide com a expansão da caça furtiva local: uma alta demanda de escama de pangolim na China e Vietnã, e junto com o aumento das fiscalizações nas rotas conhecidas de tráfico do pangolim-malaio, vimos os traficantes voltarem sua atenção para o pangolim filipino.

Variedade das quatro espécies de pangolins da Ásia: o chinês, indiano, sundanese e filipino. Uma mistura de cores no mapa indica uma sobreposição nas diferentes distribuições das espécies. A variedade das espécies é baseada nas avaliações da lista vermelha da IUCN (IUCN 2014). Nota: Os mapas de distribuição estão atualmente sendo atualizados pelo Grupo Especialista em Pangolins da IUCN. Imagem autoral da Universidade de Adelaide/TRAFFIC.

Os conservacionistas locais também associam o aumento dos projetos chineses nas Filipinas à crescente demanda por carne de pangolim em restaurantes em Manila, que atende o fluxo de trabalhadores e visitantes chineses. Em um intervalo de dois anos, os pangolins filipinos se tornaram uma das espécies mais traficadas em seu país, colocando-os em estado de perigo crítico tanto na IUCN, como nas listas vermelhas nacionais.

As apreensões iniciais de tráfico muita das vezes apareceram em carregamentos que levavam tanto os pangolins, como várias espécies de tartarugas. Mas desde 2018, as autoridades Filipinas têm interceptado os carregamentos que consistem unicamente em peças de pangolim. Em setembro de 2019, as autoridades da cidade de Puerto Princesa, a capital de Palawan, fizeram uma das maiores apreensões já feitas de escamas de pangolim filipino: 1,154 quilogramas (2,545 libras), para os quais pelo menos 3,900 pangolins teriam sido mortos.

De 2018 a 2019, as autoridades locais apreenderam 6,894 pangolins filipinos, de acordo com o relatório recente divulgado pelo grupo de monitoramento de comércio animais silvestres – TRAFFIC. O número é alarmante, dizem os conservacionistas, porque não há estimativas claras de quantos animais restam.
Mas enquanto os pesquisadores correm contra o tempo para salvar a população local de pangolins, os estudos são limitados às peculiaridades e hábitos enigmáticos desses animais. Os pangolins são solitários, noturnos, não vocais e semi-arbóreos. Embora essas características não tenham sido suficientes para protegê-los dos caçadores furtivos, tornam muito difícil o estudo das espécies na natureza, diz Archer.

“Imagine caminhar durante à noite por uma floresta e tentar procurar por algo que faz muito pouco barulho e que pode ser encontrado sozinho em uma árvore”, diz ela “Seria preciso muito tempo e esforço!” Esses comportamentos crípticos resultam em baixas probabilidades de detecção, o que significa que as probabilidades de encontrar um, mesmo que esteja próximo, se tornem “muito pequenas”, acrescenta Archer.

“Portanto, as pesquisas gerais de biodiversidade raramente registram pangolins e por isso, métodos específicos de monitoramento são necessários” diz ela, “Contudo, esses métodos ainda estão em desenvolvimento, então ainda não temos uma forma padrão de monitoramento aceita… em partes porque eles são muito difíceis de serem encontrados, o que dificulta o desenvolvimento desses métodos”.

Os moradores locais oferecem pistas

É aqui que entra o estudo de Archer e de sua equipe. O estudo é acrescentado aos conhecimentos existentes, os quais são extraídos do conhecimento ecológico local (CEL), um banco de dados que se baseia nas observações e interações dos habitantes locais em áreas que as espécies podem ser encontradas.

“O CEL é baseado na premissa de que os habitantes locais podem frequentemente deter mais informações e fornecer essas informações e conhecimentos importantes a respeito dessas espécies raras que dividem o mesmo ambiente que eles” diz Archer “É evidente a partir deste resultado que a população local detém uma riqueza de conhecimentos importantes sobre a vida selvagem em suas áreas locais — eles são os verdadeiros especialistas”.

Mas embora tenha sido utilizado na conservação, particularmente nos esforços de conservação conduzidos pela comunidade, o conhecimento dos moradores locais a respeito de seus ambientes continua sendo uma fonte de dados pouco utilizada. “Os benefícios residem na capacidade de coletar um grande número de informações sobre grandes áreas geográficas em um período curto de tempo e a custos reduzidos — este estudo durou 6 meses”, diz Archer.

“Com sorte, estudos como estes podem ajudar no desenvolvimento de novos métodos como os de monitoramento para que possam ser testados em áreas onde sabemos que essas espécies existem. Podemos também utilizar o conhecimento local para marcar habitats e locais específicos onde as pessoas tenham visto a espécie recentemente”, diz Archer.

Oitenta e sete por cento dos entrevistados na pesquisa Palawan puderam identificar e fornecer informações sobre o pangolim filipino, mas os avistamentos são raros ou muito raros, mesmo quando comparados a outras espécies ameaçadas. Isso aponta para uma urgente necessidade de estabelecer iniciativas de conservação localizadas, diz o estudo. E a pesquisa aponta um alto nível geral de apoio local para a proteção dos animais selvagens, particularmente do pangolim.

“Com o alto nível de conhecimento e a grande vontade de estarem envolvidos nos esforços de conservação relatados pelos entrevistados nesse estudo, acredito que a população se encontra bem posicionada para ajudar a orientar e desenvolver esforços para a conservação”, diz Archer.

O estudo é formado com base nas ações de conservação e no envolvimento da comunidade do Sociedade Zoológica de Londres (SZL) no município de Taytay ao norte de Palawan, uma das áreas prioritárias de conservação identificadas. Archer diz que uma segunda fase envolve a utilização de armadilhas fotográficas para monitorar as espécies, que com sorte ajudará na criação de uma área de conservação comunitária.

“Esperamos que isto proporcione uma base de informação útil que os governos locais e as organizações de conservação possam utilizar para informar os esforços de conservação, à qual pesquisas futuras possam ser comparadas, a fim de acompanhar as tendências do estado das espécies e as ameaças”, diz ela.

Citações:

Archer, L. J., Papworth, S. K., Apale, C. M., Corona, D. B., Gacilos, J. T., Amada, R. L., … Turvey, S. T. (2020). Scaling up local ecological knowledge to prioritise areas for protection: Determining Philippine pangolin distribution, status and threats. Global Ecology and Conservation, 24, e01395. doi: 10.1016/j.gecco.2020.e01395



Fonte: Anda - Leilani Chavez (Mongabay) | Traduzido por Allan Furtado, Bruno Bonafé e Danielle Yumi



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