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Para onde vai meu lixo? Quantidade recolhida no Carnaval liga alerta

Compartilhe:     |  3 de março de 2020

O Carnaval já passou, mas deixou uma reflexão: para onde vai o lixo gerado na festa? Se o leitor nunca fez essa pergunta, talvez seja hora, afinal foram quase 200 toneladas de resíduo reciclável coletadas só no período da folia, em Salvador – 65,5 toneladas a mais que o ano passado. Sem contar nos 110 kg de lixo retirados do mar da orla da Barra apenas na Quarta-Feira de Cinzas.

Na verdade, o Carnaval é só um pretexto para refletir sobre o processo de descarte correto desse resíduo que é gerado o ano inteiro. De quem é a responsabilidade? “É toda uma cadeia: poder público com sua obrigação, comunidade com sua consciência”, defende o presidente da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb), Marcus Passos, 46 anos.

A Limpurb “tem obrigação, sim”, acrescenta Passos, mas a população tem que ter a consciência de descartar o resíduo da forma correta. “Não é que a Limpeza Urbana não queira ter trabalho, mas descartar da forma incorreta pode provocar entupimento, alagamento e deslizamento de encosta”, cita Passos. E para quem separa o lixo em casa, existe uma coleta seletiva que funcione?

Depende. O presidente da Limpurb explica que Salvador ainda não tem uma estrutura de coleta seletiva direcionada pela Limpeza Urbana, mas existem cooperativas que realizam esse tipo de serviço. “A gente não tem como abraçar a cidade inteira”, pondera Passos. Ou seja, para o lixo reciclável ter o destino correto, é necessário que o  condomínio entre em contato com as cooperativas.

Outra opção é o próprio cidadão levar seu lixo em um dos pontos de entrega voluntária espalhados pela cidade. Além dos containers azuis que recebem qualquer material reciclável, Salvador tem apenas um Ecoponto, no Itaigara, onde é possível depositar recicláveis, entulhos, óleo de cozinha, eletrônicos e materiais usados como sofá e geladeira. O segundo Ecoponto da capital será inaugurado nos próximos dias, em Itapuã.

Exposição País Tropical, da artista argentina Lula Cicala, foi criada a partir do lixo coletado no mar (Foto: Dimus/Divulgação)

Frustração
“O que nos deixa frustrado é quando a gente separa o lixo em casa e vê o gari juntar tudo em um caminhão de lixo. É a mesma coleta feita há 30 anos: pega tudo, joga no caminhão e leva para o aterro”, critica Edmundo Góes, 43 anos, morador de Periperi. Sua frustração era maior ainda na época em que o caminhão de lixo não conseguia chegar na rua onde mora, porque “é uma viela”. Por causa disso, Edmundo cansou de ver os vizinhos tocando fogo no lixo um do outro.

Pensa que ele se acomodou? Pelo contrário. Se juntou com amigos do bairro e formou a ONG Movimento do Subúrbio Ferroviário, para pensar em soluções para os problemas da região, como a ineficiente coleta de lixo. “A gente vivia em uma comunidade carente que tinha todas as mazelas. Nossos amigos eram os traficantes, então a gente queria dar outro rumo para nossas vidas. Criamos a ONG para reivindicar as coisas que faltavam no Subúrbio”, explica Edmundo.

Frustração
“O que nos deixa frustrado é quando a gente separa o lixo em casa e vê o gari juntar tudo em um caminhão de lixo. É a mesma coleta feita há 30 anos: pega tudo, joga no caminhão e leva para o aterro”, critica Edmundo Góes, 43 anos, morador de Periperi. Sua frustração era maior ainda na época em que o caminhão de lixo não conseguia chegar na rua onde mora, porque “é uma viela”. Por causa disso, Edmundo cansou de ver os vizinhos tocando fogo no lixo um do outro.

Pensa que ele se acomodou? Pelo contrário. Se juntou com amigos do bairro e formou a ONG Movimento do Subúrbio Ferroviário, para pensar em soluções para os problemas da região, como a ineficiente coleta de lixo. “A gente vivia em uma comunidade carente que tinha todas as mazelas. Nossos amigos eram os traficantes, então a gente queria dar outro rumo para nossas vidas. Criamos a ONG para reivindicar as coisas que faltavam no Subúrbio”, explica Edmundo.

110 Kg de resíduos submarinos foram coletados na orla da Barra, apenas na Quarta-Feira de Cinzas, pela Ambev e Agência MAP

Ele e oito voluntários passaram, então, a realizar a coleta de lixo que não chegava em algumas ruas. Além disso, começaram a educar os vizinhos sobre as consequências da queimada de resíduos e a realizar atividades educativas nas escolas, com crianças. “A gente vê que a educação é o caminho de tudo. Às vezes a pessoa faz uma coisa por não saber. Entendemos que o problema podia ser resolvido pelo diálogo”, lembra Edmundo, que estudou até o segundo grau.

As ações da ONG chamaram tanto a atenção que abriram caminho para a criação da Cooperativa de Catadores do Paraguary (Cooperguary), que hoje atua em parceria com a prefeitura e tem Edmundo como presidente. Durante o Carnaval desse ano, por exemplo, a Cooperguary coletou cerca de 16 toneladas de latinhas de alumínio e oito toneladas de plástico.

“É muito resíduo retirado no Carnaval”, reforça o presidente da cooperativa que dá vários destinos para o lixo. O papelão, por exemplo, é prensado e vendido para uma indústria de Sergipe. Já a latinha de alumínio é prensada até ficar “parecendo cubo de gelo” e levada por uma carreta para o Rio de Janeiro ou São Paulo, onde é refeita. A latinha, explica Edmundo, “tem muito alumínio e é fácil da indústria reabsorver”.

Entre os próximos planos do presidente da Cooperguary, está convencer a prefeitura a contratar as cooperativas para uma coleta seletiva mais eficaz. “Chega de fazer essa coleta de enterrar o lixo. A gente tem que dar um destino correto, porque temos responsabilidade sobre nosso lixo”, defende. “O que a gente faz com o meio ambiente, todo mundo sofre. Cada um tem que fazer sua parte, independente de apontar o dedo. Culpar os outros é fácil”, opina.

200 Toneladas de lixo reciclável foi a quantidade de material coletado pela Limpurb neste Carnaval

Arte
Pensando em dar uma utilidade ao lixo gerado em casa, a artista plástica argentina Lula Cicala, 30, resolveu ir além da separação ecologicamente correta. Pintora por essência, passou a se expressar de outras formas só para poder reutilizar o lixo coletado no dia a dia. “Nos lugares onde morei, nunca vi coleta seletiva”, justifica Lula, que mora no Brasil há sete anos e está em Salvador há um ano.

O resultado pode ser visto na exposição País Tropical, que reúne obras feitas com material reciclado e está em cartaz no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, até maio. O papel usado nas obras, por exemplo, Lula pegou em uma gráfica que ia jogar fora.  Já a maioria dos plásticos, canudos, sacolas e isopores, a artista recolheu nas praias de Salvador. “Algumas coisas peguei do meu lixinho também”, reforça.

Seu principal objetivo é que as pessoas vejam que aquele material que é “vendido como descartável”, tem uma vida útil depois do uso. “Quando a gente começa a pensar no lixo, é uma coisa infinita. Separar o lixo é muito importante e a gente tem que fortalecer isso. Mas as pessoas não se responsabilizam, não pensam ‘aquele lixo que a gente joga fora, vai para onde?’. A gente coloca a sacola na porta e pensa que fez sua parte”, provoca a artista.

Então, quem for conferir sua exposição, vai encontrar uma instalação em cores neon que recria o fundo do mar, com tartarugas e toda a flora encontrada no oceano. A instalação Recanto das Tartarugas foi apresentada pela primeira vez no Projeto Tamar, durante o evento comemorativo da soltura de 35 milhões de tartarugas no Brasil, em 2018, no Santuário Ecológico da Praia de Pipa, em Natal.

“Queria fazer uma coisa atrativa e lúdica para incentivar as pessoas a fazerem arte, coisas legais”, explica Lula. “Não quero criticar ninguém, quero convidar as pessoas a se inspirarem, a irem para o lado do bem. Elas precisam se sensibilizar de algum jeito. É uma coisa que vai demorar, mas que se consegue. Olha quanta coisa linda a gente pode fazer com o lixo?”, reflete.

Para se inspirar
O quê: Exposição País Tropical, com obras da artista Lula Cicala feitas com material reciclado
Onde: Galeria Solar Ferrão (Rua Maciel de Baixo, 43, Pelourinho | 3116-6743)
Visitação: De terça a sexta, das 10h às 17h; e aos sábados, das 13h às 17h. Até 02/05
Entrada gratuita

Descarte seu lixo

Ecoponto
Recebe resíduos recicláveis (papel, papelão, vidro, etc.), restos de construção civil (entulho de até 2 m3/dia/transportador), materiais i- naproveitáveis (sofá, fogão, geladeira etc.) e poda de árvore. End.: Rua Wanderley Pinho, 710, Itaigara (atrás do Hiper Posto). Em breve, o segundo Ecoponto de Salvador será inaugurado em Itapuã.

Pontos de Entrega Voluntária (PEV) 
São os containers azuis, distribuídos em diversos bairros, que fazem parte do Programa de Coleta Seletiva da prefeitura. Neles, qualquer pessoa pode depositar os resíduos secos separados em casa, como garrafas PET e latas de alumínio.

Localize
Para saber a localização dos PEVs e do Ecoponto, acesse o site www.coletaseletiva.salvador.ba.gov.br ou baixe o aplicativo Coleta Seletiva Salvador, nas plataformas Android e IOS. Nas duas ferramentas está disponível o mapa dos pontos de descarte.

Vale Luz Coelba 
Recebe resíduos em troca de descontos na conta de energia. São aceitos: papel e papelão, plásticos, metal, óleo vegetal, azeites e eletrônicos. Postos fixos: Salvador Shopping e Salvador Norte Shopping. Veja unidades móveis no site: servicos.coelba.com.br.

Programa So+ma Vantagens
Latas de alumínio, vidro, papelão, garrafa PET e sucatas são trocados por pontos. Estes dão direito a alimentos, serviços ou cursos profissionalizantes. End.: Periperi (Pça. da Revolução), de segunda a sexta, das 8h às 17h, e sábado, das 9h às 12h; e Paripe (R. Chile de Paripe, 170), de segunda a sexta, das 8h às 17h, e sábado, das 9h às 12h.



Fonte: Correio 24 Horas - Laura Fernandes



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