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Para se defender de ácaros vampiros e bactérias, as abelhas possuem eficientes estratégias de defesa

Compartilhe:     |  16 de maio de 2021

A convidada desta semana é Patrícia Nunes-Silva, bióloga, mestre em Ecologia pelo Instituto Biológico da USP e doutora em Entomologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Atualmente é pós-doutora na Unisinos. Pesquisa comportamento de abelhas e polinização. Faz divulgação científica pelo perfil @loucadasabelhas no Instagram, Facebook e YouTube.

A pandemia nos mostrou que viver em sociedade pode ser o ambiente perfeito para disseminação de microrganismos causadores de doenças. Para controlar a transmissão desenfreada de um patógeno (como o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19), não tem jeito: é preciso apelar para medidas sanitárias coletivas: máscaras, isolamento social, vacinação.

Agora, imagine a dificuldade desse controle se toda a população de uma pequena cidade morasse em um único espaço, compartilhando todos os ambientes, sem casas nem apartamentos: tudo junto e misturado.

É assim que vivem as abelhas eussociais, ou seja, aquelas que formam colônias perenes. Elas habitam ninhos superpopulosos, que, dependendo da espécie, podem ter populações desde centenas de indivíduos até mais de 70 mil habitantes. Tudo em um só espaço – é como se todos os moradores de Ouro Preto (MG) vivessem em uma única igreja barroca.

Um filme de terror

Assim como nós, abelhas também podem ser infectadas por diversos vírus e bactérias, e alguns são capazes de causar doenças dignas de um filme de terror. É o caso de uma bactéria que mata o inseto e o transforma em uma massa gosmenta e fedida. Já outro vírus faz com que as abelhas nasçam com asas deformadas – ou até sem elas.

Como se não bastasse, as abelhas também são atacadas por parasitas. Existem ácaros que se alojam no sistema respiratório delas e sugam sua hemolinfa (o “sangue” das abelhas), causando enfraquecimento ou morte.

O mais famoso (e temido) dos ácaros vampiros é o varroa, que, além de se alimentar da hemolinfa, pode transmitir vários vírus às abelhas. Comparado ao tamanho do hospedeiro, esse parasita é enorme. É como se um carrapato do tamanho de uma cabeça humana resolvesse sugar o nosso sangue.

Nojento, mas eficiente

Uma das maneiras de transmissão de doenças e parasitas é por contato entre indivíduos – um problema para as abelhas eussociais. Afinal, não existe home office nas colmeias, tampouco ligação por Zoom. A comunicação entre elas acontece de várias maneiras, como pela troca de alimento boca a boca (trofalaxia) e tocando umas às outras com as antenas. Como impedir, então, que ameaças se espalhem?

Uma das maneiras de evitar o colapso da colmeia não é muito bonita (considerando o jeito que cuidamos de pessoas doentes), mas é eficiente. As abelhas são capazes de detectar quando uma cria está doente, morta ou com algum parasita. As abelhas do mel (Apis mellifera), por exemplo, identificam os enfermos por meio de odores. Após a detecção, elas comem o indivíduo (sim, canibalismo) ou o retiram de sua célula no favo e jogam fora da colônia.

Imunidade social

Entre as espécies sem ferrão, as operárias identificam o indivíduo infectado ou morto e destroem toda a célula de cria (ninho onde os ovos são depositados) que ele estava, deixando deixando um buraco no favo. A abelha que realizou o procedimento age como uma célula do sistema imunológico do nosso corpo, eliminando a ameaça e protegendo toda a colônia.

Essa solução é conhecida como comportamento higiênico e é um importante mecanismo de imunidade social. Mas nem todas as colmeias são higiênicas. Algumas são mais eficientes que outras na contenção de doenças e parasitas – assim como alguns países controlam melhor a pandemia de Covid-19 do que outros.

Essa variação acontece pois o comportamento higiênico é determinado geneticamente. E hoje, por meio de testes, é possível identificar as colônias com “melhores práticas” sanitárias – um conhecimento importante para a apicultura e para a meliponicultura, que são, respectivamente, as atividades de criação de abelhas-africanizadas (Apis mellifera) e de abelhas sem ferrão.

A criação desses insetos acentua o risco de propagação de doenças – afinal, colônias superpopulosas passam a viver próximas umas das outras. Ao criar colônias higiênicas, a chance de perdas é reduzida, bem como a utilização de antibióticos e outros medicamentos para combater as ameaças.

A ciência ainda tem muito a aprender sobre o comportamento higiênico das abelhas. Ele é amplamente estudado em Apis mellifera, a espécie mais usada para produção de mel, e o conhecimento adquirido já vem sendo usado em projetos de melhoramento das colônias.

Nas abelhas sem ferrão (espécies sociais, nativas do Brasil), por outro lado, o tema é menos estudado, mas já se sabe que o comportamento higiênico está presente, por exemplo, em abelhas jataí (Tetragonisca angustula), na uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), na canudo (Scaptotrigona depilis) e na mirim-guaçu (Plebeia remota).



Fonte: Super Interessante - Por Patrícia Nunes-Silva



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