Notícias

Pecuária do Caribe é obrigada a adaptar-se às mudanças climáticas

Compartilhe:     |  13 de outubro de 2014

A mudança climática eleva os custos e as dificuldades da produção pecuária no Caribe, situação que representa uma ameaça para a região. Norman Gibson, cientista especializado em pecuária que trabalha no Instituo de Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola do Caribe (Cardi), afirmou que as consequências da mudança climática fazem os produtores gastarem mais dinheiro em insumos para produzir animais sadios e experimentar taxas de mortandade mais altas entre seus rebanhos devido ao estresse causado pelo calor.

Gibson participou de uma mesa-redonda da Semana Caribenha da Agricultura, que começou no dia 6 na capital do Suriname e termina no dia 12, organizada pelo Centro Técnico de Cooperação Agrícola e Rural. A atividade anual se concentrou na promoção de políticas e práticas de adaptação dos agricultores à mudança climática.

O especialista alertou que a redução da produção pecuária repercutirá com força no Caribe, onde a carne é uma parte importante da dieta diária. Anualmente, a região importa carne no valor de US$ 40 milhões da Austrália e Nova Zelândia, e “as importações crescem mais rapidamente do que a produção nacional”, apontou Gibson durante o encontro.

Ao mesmo tempo, a pesquisa científica demonstrou que a mudança climática provoca maiores níveis de dióxido de carbono na atmosfera, o que, por sua vez, “gera mudanças no estado nutricional das plantas”, afirmou Gibson à IPS. Essa situação limita a capacidade nutritiva dos pastos tropicais, já baixa por si só, acrescentou. “Os animais teriam que comer mais para conseguir um nível aceitável de nutrição. Como isso costuma ser impossível, é preciso complementar com alimento concentrado, que no Caribe é importado, e caro”, ressaltou.

Em países como a Guiana, que estão abaixo do nível do mar, enquanto a água continua subindo, a invasão de água salgada compromete ainda mais a ração disponível para os ruminantes, explicou Gibson, “A maior parte das pastagens que cultivamos atualmente não está adaptada a um alto nível de sal. A maioria tem baixa tolerância a esse mineral e, portanto, não prosperará nem crescerá nessas condições. Os cientistas terão que encontrar novas variedades que sejam mais tolerantes”, acrescentou.

Uma espécie de pasto, cultivada na sede do Centro Internacional de Agricultura Tropical na Colômbia, teve resultados promissores em Trinidad e Tobago, Jamaica, Barbados e São Cristóvão e Neves. “Grande parte da produção leiteira de Trinidad e Tobago se baseia nessa pastagem em particular. Em São Cristóvão e Neves se converteu na principal erva de escolha dos pequenos produtores de ruminantes”, pontuou Gibson.

O especialista afirmou que não há dúvidas de que as temperaturas estão aumentando, embora a certeza seja menor sobre o aumento de chuvas. Isso gera estresse por calor nos animais, o que limita sua capacidade de reprodução. O estresse por calor causa mortandade de até 15% entre os ruminantes, detalhou à IPS Cedric Lazarus, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que também participou da mesa-redonda em Paramaribo e falou dos esforços que a região realiza para reduzir esse problema.

Lazarus explicou que a homeostase dos animais se altera quando sua temperatura corporal supera os 45 graus, levando eventualmente à morte. Por isso, os produtores caribenhos investem em sistemas de ventilação para refrescar o gado, explicou. “É a única maneira de manter essas raças de gado de alta produção e garantir sua sobrevivência”, acrescentou, lembrando que o uso de sistemas de ventilação se observa especialmente em Barbados.

O plantio de árvores também é uma maneira simples e viável de dar sombra aos animais, acrescentou o representante da FAO. Vários estudos revelaram que o estresse por calor leva a uma queda brusca na produção de leite, às vezes de 33%, o que reduz a rentabilidade do animal, destacou Lazarus. Segundo Gibson, o calor extremo que a região sofre provocou anormalidades no esperma dos animais e redução em seu acasalamento, o que diminuiu as taxas de concepção. “O sucesso de um pecuarista depende da quantidade de animais que pode levar ao mercado a cada ano, o que está relacionado com a reprodução” do gado, acrescentou.

Tanto Gibson quanto Lazarus disseram que o impacto da mudança climática obrigará os produtores a dependerem mais das raças locais de ruminantes para garantir um rebanho resistente ao calor cada vez mais forte na região, embora a tendência nos últimos 15 a 20 anos tenha sido de importar animais para “melhorar” o gado.

Para os agricultores, a importação de animais estrangeiros é uma oportunidade para melhorar o rebanho, porque significa introduzir sangue fresco sem os problemas vinculados à endogamia, opinou Rommel Parris, criador de ovelhas e presidente da Associação de Produtores de Ovelhas e Cabras de Barbados. Mas os benefícios de uma nova reserva genética não superam as desvantagens de um rebanho estrangeiro no clima quente do Caribe, ressaltou.

“Os custos sobem porque é preciso mantê-los em espaços com ar-condicionado ou usar ventiladores para refrescá-los. É preciso alimentá-los com ração especial e adaptar-se à dieta que recebiam antes. O cuidado com esses animais é mais complicado do que com os adaptados há anos à região”, explicou Parris à IPS. Os animais importados tendem a produzir menos descendência e são mais suscetíveis aos parasitas da região, acrescentou.

Embora seja verdade que a endogamia das populações locais gera um rebanho um pouco mais fraco, “os agricultores sabem como tratar seus próprios animais. Muitos sabem como prevenir as doenças”, o que reduz a taxa de mortandade e as perdas, destacou Parris.

A maioria dos ruminantes da região continua sendo da variedade local, explicou Lazarus. Porém, acrescentou que o Caribe deve evitar o erro cometido em outras partes do mundo, onde a introdução de raças estrangeiras causou a extinção dos animais locais, mais sustentáveis.



Fonte: Envolverde/IPS



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Colecionadores de fãs, os siameses são inteligentes, comunicativos e brincalhões. Conheça curiosidades da raça

Leia Mais