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Pediatras preparados para lidar com estresse infantil se formam em 2017

Compartilhe:     |  2 de outubro de 2016

“A infância está intoxicada, cronicamente estressada” O estresse é o “vírus” mais difundido hoje no planeta e as consequências são visíveis na faixa etária que vai até 12 anos. Hoje, sabemos sobre a influência do meio ambiente, entendido como a família, a escola, o contexto de vida, na expressão dos genes. O DNA precisa de condições plenas para se exprimir. Está provado cientificamente e de forma crescente que a primeira infância, quando o cérebro tem mais plasticidade e se diferencia pelas sinapses, é um período essencial e insubstituível.

As informações são do professor titular da Universidade de Brasília (UnB) Dioclécio Campos Júnior, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, diretor de Desenvolvimento da Educação em Saúde do Ministério da Educação (MEC) e o primeiro brasileiro a presidir o Global Pediatric Education Consortium (GPEC), consórcio mundial de educação pediátrica. Há pesquisas que mostram que crianças vítimas de abusos, negligenciadas, chegam à fase adulta com distúrbios e doenças diversas, como as cardiovasculares, deficit de memória, incapacidade de aprendizado, comportamentos agressivos.

A boa notícia é que vem aí uma nova geração de pediatras que está sendo preparada para lidar com tudo isso. Em março de 2017, concluem a residência 90 médicos formados na Universidade de São Paulo (USP), no Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio (HSE), no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, em Recife, na UnB e no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. São as primeiras turmas treinadas durante três anos nessa especialidade (e não mais em apenas dois, como antes), com um currículo internacional que tem o Brasil como pioneiro e a lógica aprovada em 2012 pelo GPEC, aliança que reúne sociedades de países como China, Japão, Alemanha e Brasil, as academias americana e europeia, além da Associação Internacional de Pediatria, entre outras organizações relevantes de cerca de 50 países.

— O estresse é mecanismo de defesa do animal. Quando há ameaça, existe também reação, que automaticamente se traduz internamente na produção de substâncias próprias do momento e que ajudam o organismo a resistir, como o cortisol e a adrenalina, que depois voltam aos níveis normais. Mas se o estresse persiste, se torna crônico, os efeitos negativos são como uma autointoxicação. Nesta situação, contribui para exaurir a capacidade de reação do organismo, que passa a ser acometido por doenças que circulam cada vez mais, como hipertensão arterial, problemas digestivos, úlceras e doença coronariana — ressalta Campos Júnior.

FORMAÇÃO MAIS ABRANGENTE

A mudança foi proposta pela Sociedade Brasileira de Pediatria e aprovada pela Comissão Nacional de Residência Médica em 2013. O futuro pediatra Pedro Bichaff, da USP, está entre os residentes dos serviços que começaram o novo programa em 2014, em unidades sabidamente qualificadas e experientes pedagogicamente. Em março, ele e os colegas terminam o treinamento em serviço.

— A formação mais abrangente já é uma tendência mundial, e agora também no Brasil. Estamos tentando voltar à imagem do pediatra generalista e, para isso, faltavam algumas ferramentas que o currículo novo está trazendo — avalia Bichaff.

Para o chefe da Residência em Pediatria do HSE, Gil Simões Batista, a mudança se justifica pela evolução do conhecimento, que obriga a modernização da formação, assim como exige mais tempo para o aprendizado. Além disso, há o fato de que as principais causas de mortalidade do adulto podem ser prevenidas com modificações nos hábitos das crianças, com uma nova cultura alimentar e o reconhecimento de que várias etapas da formação pediátrica estavam sendo negligenciadas. O médico lembra também a importância da busca de um currículo universal e que a epidemiologia vem se transformando ao longo dos anos.

— Hoje, as doenças crônicas, agora obrigatórias na residência, ocupam um grande espaço nas enfermarias de pediatria — comenta ele. — Os desafios para a implantação estavam relacionados à utilização de outras unidades, fora do Hospital dos Servidores, como o Hospital Sousa Aguiar para a formação em trauma e o Instituto de Psiquiatria da UFRJ para a psiquiatria infantil.

De acordo com a professora Sandra Grisi, chefe do departamento de pediatria da USP, o pediatra formado pelo novo currículo tem uma base mais sólida sobre desenvolvimento infantil e do adolescente dentro dos novos conhecimentos de neurociência, o que faz com que apoie melhor a família na estimulação e na adaptação social do paciente.

— Isso está atraindo mais os jovens para a especialidade — observa ela. — Tínhamos menos de seis candidatos por vaga e agora chegamos a dez.

Ainda segundo a médica, ao longo dos três anos, o residente terá a oportunidade de aprender a interagir com todas as idades da faixa pediátrica, bem como de acompanhar crianças com doenças crônicas, como alergia, asma, câncer, diabetes, e vítimas de bullying ou outras formas de violência.

— Ele terá treinamento no desenvolvimento normal, sabendo identificar precocemente os desvios de comportamento ou os distúrbios na área mental. Com isso, poderá indicar um especialista que vai ajudar na condução do caso — frisa Sandra.

A maior parte dos pacientes não tem problema psíquico, mas comportamental, fruto de elementos como falta de limites. Outro ponto forte do novo currículo é o reforço da puericultura, o acompanhamento do paciente “normal”, a promoção da saúde, que também estava sendo abandonada na formação dos jovens médicos.

— Temos uma metodologia que tenta ser a mais integral possível. A consulta é mais longa, precisamos conhecer aspectos como a alimentação, se há irmãos, se faz atividade física — conta Pedro Bichaff. — No consultório, por exemplo, abordamos melhor as questões de cunho psicológico, como é o comportamento na família, na escola, se tem dificuldade de se comunicar. Às vezes, isso nos apresenta dados que levam ao autismo. A partir daí, deflagramos uma série de ações, encaminhamos para a neurologia, psiquiatria, psicologia, orientamos os pais. Aconselhamos várias atividades, leitura, música, e estímulo daparte dos familiares. É importante ouvir e conversar com a criança.

A genética é bem forte nessa nova realidade. A área não constava do currículo anterior. Agora, os residentes acompanham as discussões, a parte científica. Muitas condições envolvem alterações genéticas, como a síndrome de Down.

Importante também salientar que o currículo do GPEC estabelece ainda o treinamento em outras habilidades e competências, como a ética, a advocacia da saúde e os direitos da criança e do adolescente. Sua implantação no Brasil deverá se tornar ainda referência para mudanças nas demais áreas básicas da medicina, como a Ginecologia e Obstetrícia e a Cirurgia Geral, já com prazo previsto até 2019.



Fonte: O Globo - Celina Machado



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