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Pegar carona, plantar árvores: precisamos reaprender a ter hábitos simples

Compartilhe:     |  28 de setembro de 2019

Os jovens gostaram de sair às ruas a protestar, e hoje lá estão de novo, usando sua energia, voz e criatividade para exigir mudanças. As fotos impressionam. Como eu disse aqui em outro texto, é preciso olhar para este movimento com atenção. O protesto é porque há mais secas e tormentas que estão acabando com muitas vidas hoje, quem dirá no futuro, quando forem adultos. E também porque o processo civilizatório em que vivemos, o nosso sistema econômico, tem dado mais importância ao lucro do que as pessoas. Tem criado uma desigualdade com a qual é difícil conviver sem se sentir muito incomodado. Isto fica claro nos cartazes que expõem e nas palavras de ordem que gritam.

É fantástico ver multidões ocupando espaços públicos de forma ordeira. Por mais cético que seja o cidadão, dificilmente ficará indiferente às cenas do movimento que se tem visto nas cenas que nos chegam do mundo inteiro. Tenho lido muita coisa sobre a jovem Greta Thunberg, sueca que resolveu tomar providências e está sendo considerada uma espécie de liderança de tais protestos. Como se tornou pessoa pública e não se tem negado a falar e botar seu rosto em todos os lugares, tornou-se vulnerável. Faz parte do jogo. Sobretudo num mundo que anda tão polarizado, claro que os detratores de Greta já lhe arrumaram apelidos e ligações perigosas. Sem nenhuma prova, como tem sido o hábito das comunicações via redes sociais.

Fico daqui torcendo para que não a transformem em vítima, muito menos em heroína. O que Greta fez foi ajudar a acender um pequeno pavio, nada mais. O resto, o nosso próprio descuido com o ambiente que nos cerca já se encarregou de fazer. Nunca foi tão imperativo promover mudanças em nosso modo de vida, e gosto da ideia de que as passeatas e palavras de ordem das multidões que estão indo semanalmente para as ruas possam contribuir para isto.

Quer com ajuda do governo local, quer entre cidadãos comuns dentro do seu próprio território, é possível ir criando soluções que nos tragam melhor qualidade de vida. Uma forma de sair do sofá e de abandonar o papel de revolucionário em mesas de boteco.

Em Bruxelas, capital da Bélgica, uma das cidades mais congestionadas da Europa, onde um cidadão ou uma cidadã pode ficar até 85 horas por ano preso no trânsito, descobriu-se um jeito para amenizar este aperreio. O governo local está dando apoio a uma equipe de start up para criar um aplicativo de carona que conecta motoristas que possuem assentos extras àqueles sem carona. Será que isto poderia funcionar aqui no Brasil?

Julien Uyttendaele, um parlamentar do parlamento de Bruxelas cujo partido faz parte da coalizão verde, lembrou bem: estamos levando uma vida tão corrida, tão empenhados em executar tarefas para ganhar dinheiro, que nos tornamos mais individualistas do que nunca. O bom e velho hábito de pedir ou oferecer carona tem, agora, que ser estimulado por um aplicativo. Que seja, então.

O objetivo do tal aplicativo belga não é ser um POP desses que temos aqui e que são pouco usados. Vai ser assim: o motorista que perceber que seu carro está com apenas uma pessoa entra em contato com outras para compartilhar – de graça – sua jornada.

“Pego transporte público, mas se eu tivesse um carro, não teria problemas em pegar alguém na rua. Especialmente se agora, por causa da tecnologia, eu sei quem é essa pessoa. Quero que isso seja feito pela administração ou uma associação sem fins lucrativos, não por uma organização comercial”, disse Uyttendaele.

Se você, caro leitor, já está virando o rosto, achando absurda a proposta, eu o convido a pensar um pouco mais. Estamos falando sobre mudanças, então o hábito de acordar em determinada hora para fazer tudo igual pode ser trocado. Em benefício próprio, inclusive. Mais tempo para estar acordado e a possibilidade de conhecer pessoas diferentes podem vir no pacote. Sim, claro que não estou me referindo às pessoas que já fazem uso frequente dos transportes públicos ou de bicicleta para transpor distâncias.

Aqui no bairro onde moro, um outro exemplo que pode fazer um enorme bem ao meio ambiente e aos cidadãos. Incomodados com o corte frequente de árvores, os moradores, em associação, decidiram pedir ajuda ao setor público responsável e, juntos, saíram a plantar algumas mudas que estão sendo, desde então, zeladas com cuidado por cada um que passa. Acordou-se mais cedo num sábado para isto. Fizemos contato, conhecemo-nos, trocamos telefones, zaps, e de agora em diante certamente o poder público vai ter, aqui, a medida de que é preciso olhar com atenção quando fizermos um pedido. Porque estamos unidos e somos um número razoável.

Árvores urbanas são absurdamente necessárias, entre outras coisas, para abrandar o forte calor, estimular a passarinhada a cantar e, no fim das contas, trazer mais beleza às ruas e praças.

Tanto um quanto o outro exemplo que escolhi para trazer à reflexão neste espaço exigem trabalho e contato. Mais do que isto: exigem que se abandone a ideia de que “o mundo não tem mais jeito”, de que “tudo pode sempre ficar pior do que está” e outras máximas que vimos repetindo à exaustão pelas calçadas da vida. O que nos aguarda, daqui para a frente, e cada vez mais, é uma tomada de consciência de que é preciso fazer alguma coisa se queremos melhorar.

Isto inclui, claro, atos solidários. O sistema econômico tem sido excludente. Moro no Rio de Janeiro e é difícil circular pelas principais vias de toda a cidade sem topar com moradores de rua, às vezes famílias inteiras que tentam se defender dos riscos de pragas ou de frio e calor com caixotes, cobertores, seja lá o que for. Não é admissível.

Dar cobertores e comida é bom, mas precisamos pressionar o poder público a ir além. E não falo em confiná-los em abrigos tão ou mais pestilentos do que a rua. Quem sabe esteja na hora de tratá-los como cidadãos e perguntar-lhes o que eles próprios fariam para se livrarem desta situação. É possível que, para muitos, o caminho seja voltar à própria terra de onde saíram. Uma contribuição do poder público para tornar esta volta possível poderia ser uma das soluções.

Se os exemplos que dei aqui parecem absurdos e utópicos, é a demonstração clara de que há algo de muito errado em nossa civilização. São, na verdade, situações simples. E estamos precisando reaprender a gostar da simplicidade.



Fonte: G1 - Por Amelia Gonzalez



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