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Periquito-estrela tem preferências sexuais com quem é igualzinho

Compartilhe:     |  16 de agosto de 2014

O periquito-estrela ou periquito-testinha (Brotogeris sanctithomae) é uma pequena e barulhenta ave que vive nas várzeas amazônicas, desde a Ilha de Marajó até a Cordilheira dos Andes. Uma diferença sutil na plumagem entre as aves encontradas no leste e oeste da região levou os cientistas a registrarem a existência de duas subespécies. Agora, análises genéticas estão jogando uma nova luz sobre o porquê da diferenciação.

Durante o mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a bióloga Roberta Canton analisou genes e amostras do periquito-estrela, coletadas em campo e em coleções. De acordo com ela, os estudos comprovaram que as duas populações pertencem mesmo a uma única espécie. Além disso, surgiram informações curiosas sobre o que acontece na área onde elas se encontram.

A mancha amarela atrás do olhos era uma característica que diferenciava a população oriental (B. sanctithomae takatsuksae). Graças às coletas feitas em campo, Roberta Canton descobriu outra diferença visível: as aves da Amazônia Ocidental (B. sanctithomae sanctithomae) possuem olhos claros, diferente do marrom encotrado nas íris das parentes orientais. “Quando é depositada em museus, nas coleções, só dá para ver a plumagem, mas quando a gente viu em campo, notou a diferença”, conta a bióloga.

Roberta Canton identificou também a presença de híbridos que se espalham desde a região metropolitana de Manaus até Parintins, quase na divisa com o Pará. A plumagem híbrida pode ser vista ao longo de toda essa região, com indivíduos de manchas menores ou presentes em apenas um lado. Já periquitos com cores de íris intermediárias foram encontrados em uma região restrita, a partir das imediações de Manaus até Itacoatiara. . “A distância genética não é explicada pela distância geográfica e não é gradual, mas súbita”, conta a bióloga. Há uma barreira nítida entre as duas populações, na região de Novo Remanso, município de Itacoatiara (AM)

Foto: Anselmo D’Affonseca

Detalhes mínimos

Esse fenômeno não é explicado por diferenças na vegetação. Além disso, as diferenças entre os periquitos também não parecem representar qualquer vantagem adaptativa. Então,  por que duas populações que podem se reproduzir entre si continuam a manter diferenças evidentes e a ocupar áreas distintas? Para a bióloga, a resposta está nas preferências sexuais dos periquitos-estrela. Eles preferem parceiros com características parecidas, fazendo com que os periquitos ocidentais rejeitem os orientais e vice-versa. “Entre eles, as variações na face são importantes na escolha de parceiros”, diz Canton.

As preferências sexuais dos periquitos ainda não foram suficientes para diferenciá-los em duas espécies. Os estudos indicaram que os genes normalmente usados para identificar espécies diferentes estão distribuídos entre as duas populações, levando à conclusão que as duas populações são da mesma espécie. E isto pode significar duas coisas. Talvez ainda não tenha havido tempo suficiente para as duas populações se transformarem em espécies diferentes ou simplesmente que entre elas existe um fluxo de genes não relacionados com as diferenças visíveis.

“A especiação é um processo e pode acontecer de o pegarmos em ação”, afirma o biólogo Mário Cohn-Haft, curador da Coleção de Aves do Inpa e orientador da pesquisadora. “O que era uma espécie pode se transformar em duas ou pode acontecer o contrário, duas espécies se juntarem e formarem uma só. Não sabemos se elas vão se diferenciar, se juntar ou mesmo permanecer estáveis”.

Nem sempre é fácil explicar como bichos tão parecidos podem ser considerados ou não espécies diferentes. “Não importa o nome que se dá, o que a gente quer conservar é a diversidade”, afirma Cohn-Haft. “duas populações distintas é o que interessa, porque o que se quer proteger são as diferenças”.



Fonte: ((o))eco - Vandré Fonseca



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