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Pesquisa do Instituto Mamirauá investiga caça ilegal de peixe-boi-amazônico

Compartilhe:     |  14 de agosto de 2019

Dados são coletados desde 2017 em reservas de desenvolvimento sustentável da região do Médio Solimões, na Amazônia Central

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Levantamentos fazem parte de trabalho do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos, que monitora espécies nas reservas (Foto: Amanda Lelis)

O peixe-boi-amazônico (Trichechus inunguis) é uma espécie de mamífero aquático que ocorre apenas na bacia amazônica e pode pesar até 450 quilos. Caçada intensamente a partir dos anos de 1500, a espécie é considerada vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

A carne do peixe-boi de água doce é altamente apreciada e consumida tradicionalmente em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Por isso, mesmo com a proibição de sua caça desde 1967 no Brasil, o consumo do animal por humanos ainda acontece em regiões da Amazônia afastadas dos grandes centros urbanos.

Com o objetivo de traçar um panorama da ameaça à espécie na região do Médio Solimões, na Amazônia Central e para melhor desenvolvimento de ações de conservação na área, a pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos do Instituto Mamirauá, Hilda Chávez coleta dados de eventos de caça do peixe-boi na área desde 2017.

Os resultados levantados desde então foram divulgados em pesquisa apresentada no 16º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia (Simcon), em julho. O estudo apontou que de janeiro de 2017 a abril de 2019 ocorreram 95 eventos de caça nas reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã.

“O resultado não é um total bruto, pois é muito provável que existam eventos de morte não declarados”, atesta a pesquisa de coautoria da especialista em mamíferos aquáticos amazônicos Dra. Miriam Marmontel.

O número foi obtido a partir de conversas informais com os próprios pescadores e por relatos de Agentes Ambientais Voluntários (AAVs) que atuam nas duas unidades de conservação. As pesquisadoras também obtêm informações de como se dão os eventos de caça, os locais onde ocorrem com maior frequência, e se os produtos são comercializados ou não.

Educação ambiental para diminuição da caça

“A caça é ilegalizada, mas a realidade é outra. Ela existe e não podemos negar isso. Por isso reunimos esses dados”, explica Hilda, que também afirma que há formas de remoção mais perigosas à espécie.

“É comum, por exemplo, que os filhotes emalhados nas redes de pesca sejam utilizados para atrair a as fêmeas lactantes e quando os filhotes e fêmeas são retirados do ambiente, o ciclo reprodutivo da espécie é mais abalado e, consequentemente, o risco à espécie aumenta”, afirma a pesquisadora, que procura esclarecer os pescadores sobre essa e outras informações acerca da espécie para amenizar o impacto sobre o peixe-boi-amazônico.

A pesquisadora diz que foi identificada uma menor tendência de transferência das técnicas de caça do animal a gerações mais novas, o que é um bom indicativo. Ainda assim, atesta: “Existem pescadores que dominam essas técnicas, então o trabalho é grande para erradicar a caça. ”

Crescimento populacional

De acordo com Hilda, os relatos dos comunitários dos últimos dois anos podem indicar um crescimento populacional do peixe-boi-amazônico na área. “Em 2017 eles relatavam que era muito difícil encontrar, em 2018 já falavam que estava tendo mais peixe-boi e agora, em 2019, ainda mais”, diz.

A preocupação, explica a bióloga, é que a maior quantidade de espécimes nos rios e lagos possam eventualmente implicar em um aumento da caça. “Se há mais peixe-boi, é porque a caça diminuiu. Mas agora pode acontecer um efeito inverso. Os comunitários veem que tem muito, então podem acabar pensando que por isso podem caçar”, afirma.

Por isso, a importância da educação ambiental, esta muitas vezes realizada pelos próprios comunitários que também atuam como agentes ambientais voluntários.

Desafios da pesquisa

Para conseguir os relatos de eventos de caça, a bióloga passa por momentos desafiadores em suas expedições de pesquisa nas comunidades. “É preciso criar uma relação de vínculo e de confiança. Ainda assim, muitos têm medo de fiscalização e não fornecem as informações”, explica.

Além disso, a pesquisadora afirma que a falta de recursos para passar períodos mais longos na reserva também dificulta a coleta mais precisa dessas informações.



Fonte: Envolverde - Júlia de Freitas, para o Instituto Mamirauá



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