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Pesquisador explica qual a importância do toque e dá dicas para quem vem sofrendo com a falta dele

Compartilhe:     |  8 de dezembro de 2020

Quando nos abraçamos, uma sensação de calor toma conta do nosso corpo.  Ocupamos mais espaço no ambiente, e os limites interindividuais desaparecem − mesmo que apenas por alguns segundos. Um abraço nos dá a sensação de confiança, carinho, segurança e conforto. Também toques físicos como um aperto de mãos, uma carícia ou mesmo beijinhos aos nos cumprimentarmos são essenciais para os seres humanos.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, as medidas restritivas para conter a doença fizeram com que tivéssemos que abir mão de grande parte desses contatos físicos. E muitos só se conscientizaram da importância dessas interações depois que deixaram de acontecer.

Por que precisamos de contato físico?

“Nossa espécie, Homo sapiens, pertence à classe dos mamíferos que precisam de ninhos”, explica Martin Grunwald, professor de Psicologia e chefe do Laboratório de Háptica da Universidade de Leipzig.

“Os primeiros estágios da vida de nossa espécie só são bons para nós se houver contato físico suficiente, ou seja, bastante estímulo corporal. Nenhuma criança pode se desenvolver bem se não for também suficientemente estimulada fisicamente. Os estímulos de toque levam ao crescimento neural e físico.”

A importância dos contatos sociais e dos estímulos de contato para o crescimento também é demonstrada por um estudo sobre órfãos romenos publicado em 6 de janeiro de 2020 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Nessas crianças, os cérebros eram menores do que nos grupos usados como comparação, devido a grave negligência e falta de estímulo mental.

Bebê com a mãe Contato físico é fundamental para o desenvolvimento de crianças

De acordo com Grunwald, os estímulos de toque também são “muito importantes para a regulação do estresse”. Outro “efeito colateral” da interação corporal é a “garantia de que não estamos sozinhos neste mundo”. Nesse sentido, o toque tem uma função social central. “Este nível físico de nossa comunicação também serve para desenvolver, construir e manter relações boas e estáveis, longe de qualquer atividade sexual e longe de qualquer motivação sexual.

Mas o professor Grunwald salienta que para um contato físico ter um efeito positivo sobre nós, muitas condições devem ser satisfeitas. “Ele deve ser feito na hora certa pela pessoa certa com a força certa na parte certa do corpo.”

Toque físico produz relaxamento

E o que acontece em nosso cérebro quando uma pessoa próxima nos toca de forma certa e adequada? “No nível perceptual, tais estímulos de toque são transformados em emoções positivas”, diz Grunwald.

Nosso cérebro reage a esses contatos ativando várias de suas áreas. Assim, o corpo libera certos neurotransmissores e também hormônios que, entre outras coisas, levam o corpo inteiro a um novo estado.

“No nível neuropsicológico, neurobiológico, nosso cérebro transforma os estímulos de toque em estímulos de relaxamento, ou seja, em uma reação de relaxamento”, explica o especialista.

Renúncia consciente causa estresse

Para reduzir o risco de contrair covid-19, estamos agora evitando ao máximo o contato físico, e isso tem suas consequências. Mas as proibições de contato, também conhecidas como “distanciamento social”, são percebidas de forma diferente por cada um.

O quanto isso nos atinge depende de quão forte é nossa necessidade de interação física. Há pessoas que precisam muito de contato físico, e há as que preferem viver sozinhas. Afinal, há gente que prefere não ser tocada.

Martin GrunwaldPara os jovens, abster-se é mais difícil, diz Martin Grunwald

“Se você tem uma forte necessidade de interação física − ou está acostumado a ela em sua vida cotidiana − e agora tem que passar sem ela, isso naturalmente leva a um aumento das reações de estresse pois você tem que se controlar”, diz o pesquisador.

“Qualquer forma de controle consciente e renúncia significa, naturalmente, que reagimos aumentando as emoções de estresse. Os medos também são gerados porque o efeito calmante da interação corporal familiar está faltando na vida cotidiana”, diz Grunwald.

Segundo o especialista, isso deve ser levado a sério: “Dependendo da necessidade, a renúncia à comunicação física também pode produzir sintomas clinicamente relevantes.”

Abraço de alguém ou auto-abraço?

E se nós mesmos nos abraçarmos, o efeito será o mesmo? “Claramente não”, responde o psicólogo. “Se nós próprios pudéssemos produzir os mesmos efeitos  através do contato físico, não seríamos seres sociais.”

Cortina do abraço permite reencontros em asilo em São Paulo

A interação corporal é uma parte da comunicação interpessoal. Grunwald enfatiza: “O auto-abraço não leva a esta reação de relaxamento. E a sensação de proximidade, como experimentamos na interação corporal com outras pessoas, não é a mesma.”

Está em nosso DNA social

Na pandemia, nos acostumamos a evitar o contato físico com conhecidos e amigos, fazer compras, sorrir e cumprimentar as pessoas atrás da máscara e manter distanciamento físico.

Embora o ser humano seja uma criatura de hábitos, não chegaremos ao ponto de nos acostumarmos permanentemente a esse comportamento de emergência. E também não esqueceremos que somos seres sociais assim que o perigo tiver passado.

“A interação corporal com o próximo é parte de nossa forma de vida como Homo sapiens e isto está, por assim dizer, em nosso DNA biológico ou em nosso DNA social. Ele é moldado por nossas experiências como crianças, já como bebês. Encontraremos nosso caminho de volta a estas formas básicas de comunicação”, diz Grundwald.

A geração mais jovem, em particular, fará progressos. “Eles se recuperarão e conquistarão seu espaço de comunicação corporal porque ainda têm a vida inteira pela frente”, acredita o psicólogo.

“A opção pelo parceiro ainda não aconteceu, assim como a escolha da profissão, toda a personalidade ainda tem que amadurecer, e isto inclui uma comunicação intensiva com os outros seres sociais.” E nada disso poderia ser feito através de encontros online ou videoconferências, aponta.

Os jovens não sabem se abster

Nem todas as faixas etárias são igualmente afetadas pela falta de contato físico. Adolescentes e adultos jovens são particularmente afetados pelas restrições impostas durante a pandemia.

“Este grupo em especial gosta de se comunicar, conhecer outras pessoas, explorar novos ambientes, e isto inclui o contato com outras pessoas”, enfatiza Grundwald. “Claro que é difícil banir este grupo agora para trás dos monitores e notebooks.”

Quanto mais nova a pessoa, mais difícil é para ela abster-se de algo. “Os idosos conhecem bem isso. Mas os jovens ainda não tiveram essa experiência de renúncia. O [estresse mental] causado pelo novo coronavírus é, portanto, muito maior entre as pessoas jovens do que entre as mais velhas.”

Substituto para a falta de contato

Mas como compensar a falta de contato durante a pandemia? Ajudaria abraçar árvores, como recomenda o Serviço Florestal da Islândia? O cientista sugere: “Talvez seja melhor para quem vive sozinho e sofre com a falta de contato social cuidar dos bichinhos de um abrigo de animais.”

Tato: a pele como ferramenta para perceber o mundo

“Pesquisas mostram claramente que, quando nossa espécie interage com outros mamíferos, ambos os lados se beneficiam”, diz Grunwald, que escreveu suas descobertas no livro Homo Hapticus. Outra dica dele é buscar massagens fisioterapêuticas com profissionais da área.

Ele tem certeza de que a humanidade sobreviverá também desta vez: “Ela já superou muito, seja a peste, a cólera, as guerras mundiais. Nem o Muro de Berlim durou para sempre, e nós também sobrevivemos a Donald Trump. Portanto, também haverá um período pós-covid-19.”

Duas mãos dadas, sendo uma negra e a outra, branca

A IMPORTÂNCIA DO CONTATO FÍSICO

O contato com a pele

Nossa pele sente tudo: pesquisadores descobriram que as pessoas podem reconhecer certas emoções como amor, raiva, gratidão e repugnância apenas pelo toque. Assim, o mero contato físico revela sentimentos. O contato físico praticado com regularidade e de forma agradável também constrói laços emocionais nos relacionamentos. Desta forma, ajuda a manter os laços sociais.

Jogadores de uniforme azul se abraçando

Melhor pelo contato

A comunicação pelo toque pode ajudar a construir confiança e melhorar o trabalho em equipe. Um estudo descobriu que jogadores profissionais de basquete e equipes que interagiam mais fisicamente no início da temporada, por exemplo, através de abraços em grupo, alcançaram melhores resultados em jogos posteriores.

Dois homens se abraçando felizes

O abraço dá força

Abraços sinalizam “eu te apoio” e assim ajudam a reduzir o estresse. Pesquisas mostraram que o humor das pessoas abraçadas em um dia cheio de conflitos ficou significativamente melhor. Este tipo de apoio também ajuda as pessoas com baixa autoestima a reduzirem sua insegurança. O abraço pode até mesmo evitar um resfriado, com seu efeito redutor de estresse.

Homem em parque levantando uma mulher num abraço

Toque em mim!

Pares que se tocam amorosamente fazem muito bem à saúde um do outro. Mãos dadas e abraços não só os tornam mais resistentes ao estresse, como contribuem significativamente para a saúde cardiovascular: o ritmo cardíaco diminui, a pressão sanguínea cai e a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, diminui. Casais podem até sincronizar os batimentos cardíacos e ondas cerebrais através do toque!

Duas mãos massageando as costas de alguém

Massagem, mais que relaxamento

Um toque físico não só é agradável, como também pode servir de analgésico. Pesquisadores do Centro Médico da Universidade Duke descobriram que as massagens de corpo inteiro aliviam a dor e aumentam a mobilidade em pacientes com artrite. A propósito, não são apenas os massageados que se beneficiam! O tratamento também tem um efeito positivo sobre o massagista.

Bebê prematuro segurando o dedo de um adulto

Estímulo para bebês

As massagens podem ajudar os bebês prematuros a ganhar peso. Ao estimular o sistema nervoso, são liberados hormônios que melhoram a absorção dos alimentos. O efeito analgésico do contato com a pele ajuda os bebês a processar procedimentos médicos. O contato não apenas reduz a liberação do hormônio do estresse cortisol, mas também libera o hormônio de ligação oxitocina.

Duas mãos femininas sobre uma toalha dobrada

Faça você mesmo!

Pena que nem sempre há alguém por perto para massagear ou acariciar. Mas uma automassagem tem um efeito positivo semelhante. Toques mais firmes são mais eficazes do que os leves. Ioga ou levantamento de peso, nos quais há bastante contato com o chão ou a pressão sobre certas partes do corpo é particularmente alta, também têm um efeito aliviador do estresse.

Mão natural dada com mão mecânica

Tecnologia que toca

A fim de garantir que as pessoas com amputações não fiquem sem esses contatos tão importantes, há próteses monitoradas por sensores. Existem também pesquisas para desenvolver uma tecnologia de pele eletrônica, capaz de distinguir entre diferentes superfícies e até mesmo “sentir” calor ou frio.

Autoria: Sam Baker



Fonte: DW - Azin Heidarinejad



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