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Pesquisadores explicam o aumento da presença de animais marinhos

Compartilhe:     |  16 de agosto de 2020

Era meados de julho quando surfistas avistaram um filhote de elefante-marinho nadando tranquilamente entre eles no Arpoador. Dez dias depois, um pinguim-de-magalhães passeava na Praia da Reserva, no Recreio – outro seria resgatado dois dias mais tarde nas areias da Barra.

Antes disso, em junho, três baleias foram flagradas na Praia do Pepê, bem próximas à costa. Sim, este vem sendo um inverno agitado. Calcula-se que o número de animais resgatados na costa do Sudeste neste ano seja trinta vezes superior ao de 2019. Os pesquisadores ainda estudam o que teria motivado tal aumento repentino, mas a questão geográfica ajuda a explicar por que tantos visitantes vêm dar as caras nestes mares. “Olhando para o mapa do Brasil, o Rio fica numa espécie de esquina, que é um ponto de referência na rota migratória das jubartes.

Como possui um litoral muito recortado, cheio de baías e enseadas, também vira refúgio para animais que saem de seus habitats em busca de alimento, acabam se desgarrando do grupo e procuram um local para descansar”, explica o oceanógrafo José Lailson, chefe do Maqua, o Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da Uerj.

Referência nacional no estudo de cetáceos e outros bichos marinhos, a entidade é avisada por bombeiros, companhias de limpeza urbana, prefeituras e pela comunidade em geral toda vez que um desses animais encalha por aqui. “É normal o número de aparições variar de um ano para o outro, mas 2020 está sendo fora da curva”, conta Lailson, que já chegou a uma casa para resgatar um pinguim-de-magalhães, o mais comum nestas bandas, e o encontrou dentro do freezer ó no inverno, a espécie deixa a Patagônia ou as Ilhas Malvinas atrás de comida e alguns se perdem. Não à toa, quando aportam do lado de cá, costumam estar fracos e desnutridos. “As pessoas associam o bicho ao gelo, mas essa espécie não é polar. Muitas vezes o que ele precisa é ser aquecido, pois pode estar com hipotermia”, alerta Lailson.

Acompanhar o resgate desses animais é apenas uma pequena fração do trabalho realizado pelo Maqua. Fundada em 1992 por estudantes da Uerj – Lailson era um deles -, a unidade monitora a biodiversidade de toda a região costeira do Rio, observando o comportamento de mamíferos aquáticos e outros, sejam eles visitantes ou moradores. Em 1998, os pesquisadores da instituição realizaram o primeiro levantamento da população de boto-cinza, o mais ilustre habitante das águas da Guanabara e o primeiro objeto de estudo do laboratório, até então quase desconhecido do carioca.

Naquela época, o grupo contava com 100 representantes; hoje são apenas trinta deles, que se refugiam na Área de Proteção de Guapimirim (na Baía de Sepetiba são ao todo 1 000). A contaminação química e biológica, a pesca e o barulho causado pelos navios nos arredores da Ponte Rio-Niterói são as principais causas do desaparecimento desses cetáceos.

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Toda semana, uma equipe munida de câmeras e drone sai a bordo de um bote ou barco para percorrer áreas como a Baía de Guanabara, a região oceânica de Niterói e a Ilha Grande. Os trabalhos costumam ser supervisionados pelo professor Alexandre de Freitas, que, em suas andanças no inverno passado, teve um momento de profunda alegria ao esbarrar com um grupo de 500 golfinhos.

No último dia 22, ele encontrou quatro jubartes no entorno da Ilha Rasa, a montanha de pedra que se vislumbra do Arpoador. “Quando avistamos esses animais, coletamos informações como profundidade, temperatura e turbidez da água para tentar entender o que eles estão fazendo ali”, esclarece Freitas.

Botos e golfinhos são identificados através de fotos das nadadeiras dorsais. Elas funcionam como uma impressão digital do animal, já que ao longo da vida vão adquirindo características únicas. Com esses dados, os cientistas conseguem estimar o tamanho das populações e obter informações como padrões de uso do habitat, fidelidade à área, intervalo entre filhotes e associação entre indivíduos.

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Freitas já constatou, por exemplo, que um mesmo cardume de golfinhos-de-dentes-rugosos frequenta essas águas pelo menos desde 2009. “Há duas semanas eles estavam no Flamengo”, diz. O trabalho de campo inclui ainda a bioacústica, que analisa a comunicação dos cetáceos com base nos sons que eles emitem. O laboratório da Uerj é precursor na pesquisa de como a poluição sonora subaquática afeta a vida dos animais ó um problema na área da Baía de Guanabara por causa dos barcos e navios que, mesmo atracados, ficam com os motores ligados.

Na volta do mar – as viagens começam logo nas primeiras horas do dia e vão até quando o tempo permitir -, muitas vezes encontram-se cadáveres de animais, cujas análises em laboratório permitem estudos avançados no campo da ecotoxicologia. Coordenado por José Lailson, esse trabalho já observou em certos golfinhos a presença altíssima de PCB, substância tóxica que era usada em transformadores para a alimentação de energia elétrica, banida desde a década de 80. Continua, porém, nas águas da Guanabara.

Referência no Brasil, o laboratório também presta consultoria para estados em todo o país, do Rio Grande do Sul a Rondônia, envolvendo alunos de pós-graduação e mestrado da Faculdade de Oceanografia da Uerj. Outra boa iniciativa nesse campo no Rio, o Projeto Ilhas do Rio, que atua no Monumento Natural das Ilhas Cagarras (MoNa), retomou as atividades com consultoria técnica da WWF Brasil.

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Ligada ao Instituto Mar Adentro, a entidade desenvolve pesquisas com tartarugas marinhas e mamíferos aquáticos e monitora o comportamento dos peixes que habitam os recifes do arquipélago. Na agenda inclui ainda a criação de programas de educação ambiental, com foco na poluição marinha.

“É parte de nosso objetivo sensibilizar a sociedade em relação ao impacto da poluição nos mares”, frisa o coordenador Clerio Aguiar. Quanto à presença dos ilustres visitantes que deram cara nova a este inverno carioca, os pesquisadores seguem firmes atrás de respostas. É o tempo da ciência.



Fonte: Veja Rio - Fábio Codeço



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