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Pessoas com obesidade deveriam ser prioridade na vacinação da Covid-19

Compartilhe:     |  24 de dezembro de 2020

A obesidade não é uma escolha pessoal. Ela se desenvolve em quem manifesta uma suscetibilidade genética a ganhar peso com facilidade. Ao mesmo tempo, pessoas com excesso de gordura corporal são biologicamente suscetíveis a infecções virais mais graves. E com o coronavírus não é exceção. Daí porque eu digo: a obesidade deveria ser incluída entre as condições que garantem prioridade no acesso a vacinas para a Covid-19.

Na epidemia de influenza A subtipo H1N1 em 2009, foi documentado um aumento do risco de infecções graves em pacientes com obesidade. Para ter ideia, na Califórnia, 67% dos casos mais críticos apresentavam obesidade importante (com um IMC, ou índice de massa corpórea, maior do que 40 kg/m²).

Eis que, em março deste ano, a UK Intensive Care National Audit and Research Centre, no Reino Unido, anunciou que 72% dos indivíduos que desenvolveram complicações sérias ou fatais da Covid-19 tinham excesso de peso.

Isso claramente contrasta com os dados oficiais do Brasil. Em certo momento, o nosso Ministério da Saúde revelou que cerca de 6% dos pacientes internados apresentavam obesidade. Qual a explicação para essa discrepância? Muito simples: a subnotificação do diagnóstico de obesidade nos prontuários, nos resumos de alta e nos atestados de óbito. O médico elege as condições que julga mais relevantes: diabetes, problemas de coração, pressão alta etc. Obesidade só entra nas estatísticas em casos extremos.

Num estudo que envolveu 14 estados norte-americanos com milhares de participantes, 59% dos pacientes mais jovens internados apresentavam obesidade. Em outro levantamento, esse da Universidade de Nova Iorque, o risco de internação em uma UTI foi de 2 a 3,6 vezes maior em pacientes com obesidade.

O Hospital Universitário de Lille, na França, comparou a massa corporal dos pacientes internados em UTI por Covid-19 em 2020 com as internações por doenças respiratórias em 2019. O resultado mostrou que, em 2020, cerca de 80% dos indivíduos apresentavam excesso de peso e a necessidade de intubação e ventilação mecânica foi maior.

E por quê? São muitos motivos.

As pessoas com obesidade apresentam volumes pulmonares reduzidos. Muitas sofrem com apneia do sono, que reduz a oxigenação durante a noite enquanto dormem. O risco de tromboses, incluindo tromboembolismo pulmonar, é maior nesses indivíduos. E há mais doenças associadas que favorecem o agravamento do coronavírus (diabetes e hipertensão entre elas).

Além disso, o vírus precisa de um receptor presente na membrana das células para invadi-las. O tecido gorduroso tem esse receptor (chamado de ACE-2) em abundância (mais presente do que no próprio pulmão). Pressupõe-se que o tecido adiposo seria um importante reservatório de vírus.

Mais: existe uma inflamação crônica nas pessoas com obesidade. Ora, a gordura corporal produz substâncias, chamadas de citocinas, que podem promover inflamação e aumento da coagulação. Isso, somado à Covid-19, favorece o fenômeno de coagulação intravascular disseminada, ou “tempestade de citocinas”.

Nas pessoas com obesidade, uma substância produzida na gordura, a leptina, não funciona bem. E a leptina é importante para a imunidade. Os poucos que indivíduos que (por causas genéticas) não produzem leptina apresentam infecções repetidas, muitas de origem pulmonar.

Finalmente, estudos com influenza A subtipo H1N1 mostraram que pessoas com obesidade apresentam maior carga viral e uma depuração atrasada do vírus, o que significa que podem transmitir mais (e por mais tempo).

Existe um pensamento comum de que, para melhorar a imunidade, é importante comer bem. E, por vezes, isso é confundido com “comer muito”. Só que é o oposto: pessoas que apresentam obesidade e adotam uma alimentação menos calórica, provocando perda de peso, vêm benefícios na imunidade.

Neste momento de pandemia, não é hora de relaxar cuidados. Não se deve interromper tratamentos para o excesso de peso. E é por tudo isso que eu repito: pessoas com obesidade devem estar na lista prioritária de vacinação da Covid-19.

*Marcio Mancini é endocrinologista, vice presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), chefe da Unidade de Obesidade do Hospital das Clínicas da FMUSP e autor-coordenador do Tratado de Obesidade (Editora GEN, 3.ª edição, 2021)



Fonte: Saúde - Por Marcio Mancini, endocrinologista*



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