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PL que proíbe termos ‘carne’, ‘bife’ e ‘frango’ em produtos de origem vegetal é aprovado no Texas

Compartilhe:     |  17 de maio de 2021

A solução para os pecuaristas é esconder que determinado alimento tem o objetivo de ser uma alternativa a um produto de origem animal justamente para que o consumidor não faça essa substituição

Os parlamentares do Texas, nos Estados Unidos, aprovaram nesta semana um projeto de lei denominado “Bill 316” que proíbe o uso dos termos “carne”, “bife” e “frango” em produtos de origem vegetal.

A censura, que também contempla as iniciativas de carne cultivada, foi comemorada por associações ligadas ao agronegócio.

Ao comentar o projeto de lei, o deputado republicano Brad Buckley disse ao portal The Hill que a proposta visa garantir “que o consumidor não tenha dúvidas sobre o que está comprando”.

A falácia usada pelo norte-americano para defender a censura aos produtos de origem vegetal é semelhante às alegações feitas por parlamentares brasileiros que tentam aprovar propostas semelhantes no Brasil.

Uma dessas propostas é o Projeto de Lei (PL) 10556/2018, de autoria da atual ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, que era deputada federal quando apresentou o PL que visa impedir que diversos termos usados em produtos de origem animal, como “leite” e “queijo”, sejam utilizados para nomear produtos à base de vegetais.

De acordo com o projeto de lei, termos como “queijo”, “manteiga”, “leite condensado”, “requeijão”, “creme de leite”, “doce de leite”, “leites fermentados”, “iogurte” e “cream cheese” devem ser “exclusivamente reservados aos produtos lácteos”.

O argumento sem embasamento da ministra é de que sua proposta “tem por escopo evitar a grande confusão que permeia o mercado no que se refere à palavra ‘leite’, que vem sendo utilizada não apenas quando se trata do líquido branco alimentício que é segregado pelas mamas de fêmeas de mamíferos, mas em qualquer suco vegetal branco ou esbranquiçado”. Acontece que essa alegação não condiz com a realidade, já que pessoas que consumiam leite de origem animal e decidiram optar pelo vegetal não o fizeram por confusão diante da prateleira do supermercado, mas por terem se conscientizado, seja através de informações acerca da destruição ambiental causada pela pecuária ou sobre a realidade cruel imposta aos animais explorados pela indústria. Ou ainda porque adquiriram conhecimento sobre os malefícios dos produtos de origem animal e quiseram consumir alimentos vegetais por serem mais saudáveis.

A questão é que a identificação dos produtos vegetais com os nomes “leite”, “iogurte”, “queijo” e etc, guia a população. Ao invés de gerar confusão, como alega a ministra, esses termos impedem que o consumidor se confunda ao buscar ou conhecer produtos à base de vegetais que têm o objetivo de imitar, na medida do possível, os de origem animal. E é justamente essa a preocupação dos ruralistas, que temem que o consumidor opte por um “leite vegetal” ao perceber que o produto é saboroso, nutritivo e mais saudável do que o de origem animal, além de ser mais sustentável e não submeter vacas e bezerros à crueldade.

A solução para os pecuaristas é esconder que determinado alimento tem o objetivo de ser uma alternativa a um produto de origem animal justamente para que o consumidor não faça essa substituição. Tapar os olhos dos clientes é a tática da agropecuária, que esconde seus matadouros, não revela a forma como explora, tortura e mata os animais, e joga para debaixo do tapete a destruição que causa nas florestas através do desmatamento e de tantas outras práticas insustentáveis, tudo para que o consumidor não veja razão para deixar de consumir produtos de origem animal.

Uma prova de que é exatamente essa a realidade dos pecuaristas pode ser encontrada no próprio projeto de lei de Tereza Cristina. Isso porque, numa tentativa de desqualificar os produtos vegetarianos, a ministra apela para mentiras. No texto da proposta, Tereza afirma que crianças que consomem leite vegetal podem sofrer de desnutrição, desordens metabólicas e ter problemas com seu desenvolvimento.

As falácias da ministra são facilmente combatidas por pessoas que estudaram o assunto e podem falar com propriedade. É o caso da nutricionista especialista em nutrição vegetariana e materno-infantil, Ana Ceregatti, que concedeu uma entrevista exclusiva à ANDA por meio da qual explicou que uma pessoa pode ser vegana, e se manter saudável, em qualquer período da vida, inclusive durante a infância e a gestação.

“Bebês e crianças podem ser veganos tranquilamente, sem nenhum prejuízo de crescimento. Eu atendo muito bebê vegano no consultório. A mãe vegana pariu, amamentou, seis meses de idade na fase de introdução alimentar, ela vem no consultório para fazer a introdução alimentar vegana e as curvas de crescimento dessas crianças são equiparadas. Então não tem prejuízo qualquer. Óbvio, se qualquer profissional vacilar na alimentação de um bebê onívoro ou vegano, ele terá prejuízos. Não é o fato de ele não consumir carne, ovos e laticínios que fará com que ele tenha prejuízos, qualquer bebê terá prejuízos se houver negligência ou dificuldades na alimentação dessa criança”, explicou.

“Quando um bebê é vegano, vou garantir o aporte de proteína, a necessidade de proteína dele, oferecendo alimentos do grupo das leguminosas. Então tem que estar ali o grupo das leguminosas e tem que estar equilibrado em termos de energia. Se a criança receber a quantidade de energia vinda de boas fontes – cereais, tuberculosos, leguminosas, frutas, verduras e legumes -, essa criança não vai ter carência de proteína”, completou.

A prova viva dos argumentos da nutricionista são crianças veganas como Eva. Com apenas quatro anos, a filha da advogada Melina Valério, de Piracicaba (SP), nunca se alimentou de produtos de origem animal. Vegana desde a gestação, a menina já entende que animais não foram feitos para consumo humano e sim para “amar, cuidar e respeitar”, como ela mesma diz. Em entrevista exclusiva à ANDA, Melina contou um pouco sobre a criação da filha dentro do veganismo.

A advogada teve uma gestação vegana e isso não comprometeu em nada o desenvolvimento do feto – muito pelo contrário. “Ela nasceu com 3,995kg (o que é bastante para uma menina) e 51,5cm, ou seja, bem grandinha e forte”, contou.

A menina faz acompanhamento com nutricionista e tem crescido de maneira saudável. “Eu sempre dei muito valor aos nutricionistas. Sempre acreditei que se déssemos mais valor a esse profissional, talvez nossa sociedade não fosse tão doente e não precisasse tanto de médicos. Vou em nutricionistas há anos e faço questão de levar a Eva junto. Por isso, suplementar B12, tomar os devidos cuidados com o cozimento de leguminosas para aproveitar melhor o ferro delas, combinação de alimentos (como associar o consumo de feijões e folhas escuras a alguma fonte de vitamina C), por exemplo, sempre foram práticas habituais no meu dia a dia, e que naturalmente contribuíram para uma gestação saudável, e consequentemente para a criação de uma criança vegana e saudável”, disse Melina.

“Claro que eu também sempre fui muito curiosa e sempre leio muito sobre alimentação, mas jamais deixo o hábito de visitar minha nutricionista regularmente. Ainda mais que minha filha, por estar em fase de crescimento, tem necessidades diferentes das minhas”, completou.

Sendo assim, Eva e as tantas outras crianças veganas espalhadas pelo mundo não só provam que o discurso dos que tentam proibir, no Brasil e em outros países, o uso de termos como “leite”, “carne”, “queijo” e similares em produtos de origem vegetal não tem compromisso com a verdade, como também mostram que os opositores do veganismo e defensores da agropecuária escondem ainda mais do que parece. Isso porque atacam o vegetarianismo estrito (isso é, aquele praticado por quem não consome nenhum produto de origem animal) ao mesmo tempo em que não abordam os malefícios dos produtos comercializados pela agropecuária. Visando o lucro, esse grupo de pessoas convenientemente se esquece que carnes, queijos, ovos, leite e derivados causam problemas à saúde humana e estão relacionados ao câncer, a doenças cardíacas, a diabetes e a tantos outros males, além de serem nocivos ao meio ambiente e causarem extremo sofrimento aos animais.



Fonte: ANDA - Mariana Dandara



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