Geografia Ambiental

Planalto da Ibiapaba: uma exceção memorável no Semiárido nordestino

Compartilhe:     |  30 de janeiro de 2021
Uma das encostas da Ibiapaba vista por mirante do Parque Nacional de Ubajara | Foto: Maristela Crispim
Professora Vanda Claudino-Sales

Por Vanda Claudino-Sales
Geógrafa
Professora associada aposentada da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Professora visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA)
vcs@ufc.br

Por volta de 420 milhões de anos atrás, os terrenos antigos situados entre o oeste do Ceará e o oeste do Maranhão passaram por processo de afundamento. Fossas profundas (rifts) foram criados nesse espaço, em função da divisão de um megacontinente (possivelmente o megacontinente Panotia), gerando uma ampla depressão de centenas e centenas de quilômetros quadrados, a qual ficou mais baixa do que o nível do mar. Dessa forma, o mar invadiu essas terras, criando depósitos de rochas sedimentares marinhas que depois se misturaram com depósitos continentais variados, gerando assim uma ampla bacia sedimentar, denominada pelos geólogos de “Bacia do Parnaíba”, ou “Bacia do Piauí-Maranhão”.

Esses pacotes sedimentares depositados sobre rochas cristalinas antigas ficaram em repouso por certa de 300 milhões de anos, quando, por volta de 120 milhões de anos atrás, nova divisão continental aconteceu, agora associada com a fragmentação do megacontinente Pangea. Essa divisão criou rifts (fossas profundas) em alguns setores, e soergueu os terrenos em outras áreas: no Ceará, uma parcela dos terrenos soerguidos corresponde à borda da Bacia do Parnaíba.

A evolução das formas de relevo na área não parou aí, ela continuou pelas centenas de milhares de anos que se seguiram até os dias atuais. Com efeito, nesse intervalo de tempo ocorreu calmaria tectônica (isto é, as rochas pararam de se locomover), e os materiais componentes da bacia sedimentar começaram a ser destruídos pelo clima e erodidos pela ação dos rios, chuvas, deslizamentos, desmoronamentos, transporte de sedimentos realizado pelo escoamento da água da chuva na superfície da Terra, pelo vento, pela força da gravidade. As rochas mais frágeis foram destruídas com mais intensidade e foram rebaixadas, e as rochas mais resistentes ficaram como um ressalto na paisagem.

Na área do oeste do Ceará, as rochas que mais resistiram foram as rochas sedimentares. As rochas cristalinas antigas sobre a qual as rochas sedimentares estavam depositadas, por outro lado, foram bastante destruídas, ficando rebaixadas na paisagem. Essa evolução se apresenta ilustrada na figura 1.

Figura 1. Esquema do processo evolutivo do Planalto da Ibiapaba nos últimos cem milhões de anos, no qual as rochas sedimentares compactadas resistiram mais do que as rochas cristalinas fragilizadas por processos geológicos anteriores, produzindo uma inversão de relevo.

Esse tipo de geoforma, no qual a encosta inclinada é sustentada parcialmente por rochas cristalinas e parcialmente por rochas sedimentares, resultante de uma erosão diferencial atacando mais fortemente as rochas mais frágeis, é chamada cientificamente de “glint”. O Planalto da Ibiapaba, assim, não caracteriza nem uma chapada nem uma cuesta, mas sim um glint espetacular, que chama a atenção pela sua imponência e majestade (Figura 2).

Figura 2. Planalto da Ibiapaba visto da cidade de Viçosa do Ceará, a norte, com encostas festonadas (dissecadas) por ação de rios de primeira ordem.

O fato de a Bacia do Parnaíba ter sido soerguida e alçada a cerca de 1000 m de altura, em relação ao nível do mar, permitindo na sequência a formação do Glint da Ibiapaba, cria condições para que a área seja um ambiente úmido no seio do Nordeste Semiárido, sobretudo nos segmentos mais próximos do mar. Assim como outras áreas elevadas da região nordestina, o glint conta com pluviometria elevada (superior a 1000 mm anuais), temperaturas mais amenas (médias inferiores a 29 graus centígrados), solos relativamente bem desenvolvidos (sobretudo latossolos) e vegetação exuberante, do tipo Mata Atlântica com vestígios de Floresta Amazônica em alguns setores.

O Planalto da Ibiapaba se estende de norte a sul por mais de 600 km na divisa entre o Ceará e o Piauí, representando uma megaforma de relevo, de dimensão regional (Figura 3). Tem feições de topo bem definidas, criando uma linha de rocha resistente que chama a atenção à distância, conhecida como cornija (Figura 4). Apresenta uma série de formas de menor dimensão nas encostas e no sopé, como vales fluviais sequenciados (festões) e grutas. Dentre as geoformas do Planalto da Ibiapaba, quatro chamam particularmente a atenção, são elas a Gruta de Ubajara e a Bica do Ipu, no Estado do Ceará; e o Cânion do Poty e o Morro do Gritador, no Estado do Piauí.

Figura 3. Localização da Serra da Ibiapaba (cor marrom situada no segmento ocidental do Estado do Ceará, larga a norte e estreita a sul). Fonte: Mapa Geológico do Estado do Ceará, CPRM, 2003.

A Gruta de Ubajara se situa no front norte do Glint da Ibiapaba, onde as condições de maior umidade há dezenas de milhares de anos dissolveram os calcários cristalinos que existem na encosta e sopé do relevo, criando feições de elevada beleza cênica, como galerias subterrâneas pontilhadas de formas internas como cortinas, estalactitesestalagmites, colunas, etc, as quais são passíveis de visitação a partir do Parque Nacional de Ubajara (Figura 6).

Figura 4. Camada de rocha resistente no topo do relevo representando o que se convenciona chamar de “cornija”, no segmento centro-sul do Planalto da Ibiapaba, localmente denominado de “Serra Grande”. Foto: Vanda Claudino-Sales
Figura 5. Feições subterrâneas de dissolução de rochas calcárias nas grutas existentes na vertente do segmento norte do Glint da Ibiapaba. Foto: Leandro Almeida

A Bica do Ipu se situa no segmento central do Glint da Ibiapaba, na área da cidade homônima, local onde existem duas cornijas. O Riacho Ipuçaba aproveita um desnível topográfico, e escoa da cornija mais alta em direção à cornija mais baixa, onde produz uma queda d’água de beleza ímpar, que se abre como um véu de noiva durante a estação chuvosa, que ocorre no primeiro semestre do ano. Uma Área de Preservação Ambiental (APA) estadual protege o ambiente que garante a existência da cascata, apesar dos problemas ambientais que ali se verificam, e está aberta à visitação pública (Figura 6).

Figura 6. Bica do Ipu, formada pelo rio anaclinal (isto é, que escoa contra o mergulho das camadas sedimentares, que se dá em direção ao Estado do Piauí), o Riacho Ipuçaba, criando uma queda d’água de cerca de 130 m de altura. Foto: Maristela Crispim

A terceira feição imponente diz respeito ao Cânion do Rio Poty, situado no segmento centro sul do Glint da Ibiapaba, na área regionalmente denominada de Serra Grande. O Rio Poty drena de sul para norte no Estado do Ceará a partir da cidade de Quiterianópolis e encontra uma falha geológica no segmento relativo à cidade de Crateús, fazendo a partir daí uma inflexão para oeste. A oeste, erodiu do alto a baixo as camadas sedimentares da Bacia do Parnaíba, que resistiram à ação fluvial e permitiram apenas a formação de uma garganta relativamente estreita (e não um vale largo e aberto), onde o rio drena em direção a bacia fluvial do Rio Parnaíba, no Piauí (Figuras 7 e 8). O Cânion do Poty é ainda de difícil acesso, mas representa uma feição com importante potencial para o geoturismo.

Figura 7. Superimposição fluvial de rio cataclinal (que corre de acordo com o mergulho das rochas), o denominado Rio Poty, resultando na modelagem do Cânion do Rio Poty na divisa entre o Ceará (Crateús) e o Piauí (Castelo do Piauí).
Figura 8. Evolução do Cânion do Rio Poti: o rio escava com mais facilidade o cristalino fragilizado, enquanto iguala o nível de base no sedimentar através da abertura de uma garganta. Esse processo erosivo vem se instalando sobretudo ao longo do últimos 100 milhões de anos.

O Morro do Gritador, por sua vez, representa uma meseta, ou relevo tabuliforme elevado (altitude da ordem de 800 m) de pequena dimensão, formado em segmento do Planalto da Ibiapaba onde as camadas se mostram horizontalizadas, e não inclinadas (Figura 9). Localizado no município de Pedro II, no Piauí, a área conta com temperaturas amenas, o que vem permitindo a denominação regional de “Suécia do Piauí”, ocorrendo na localidade a realização de festivais de inverno anuais, que atraem muitos turistas. A região é também conhecida pela extração de opalas, as mais puras do território brasileiro.

Figura 9. Morro do Gritador, com cornija bem pronunciada e vertentes íngremes, representando um relevo do tipo “meseta” no seio do Planalto da Ibiapaba, no Estado do Piauí. Foto: Maristela Crispim.

O Glint da Ibiapaba representa uma feição pouco conhecida na sua totalidade. O segmento sul é praticamente ausente das pesquisas científicas e dos roteiros geoturísticos, sendo o segmento norte, onde ocorrem as cidades mais desenvolvidas (Viçosa do Ceará, Ubajara, Tianguá, todas no Estado do Ceará) o mais visitado e discutido. Existe muita coisa ainda para ser desvendada nessa geoforma extraordinária, e os próximos anos devem ser produtivos nesse sentido, haja vista o interesse mais recente que o conjunto regional vem apresentando. Esses são nossos votos!

Bibliografia consultada:

Claudino-Sales, V. A longa história natural do Cânion do Rio Poti, entre o Ceará e o Piauí. Agência de Conteúdo Eco Nordeste, 2020. https://agenciaeconordeste.com.br/a-longa-historia-natural-do-canion-do-rio-poti-entre-o-ceara-e-o-piaui/

Claudino-Sales, V.; Lima, E.C.; Diniz, S.F.; Cunha, F.S.S. Megageomorfologia do Planalto da Ibiapaba: uma introdução. William Morris Davis Revista de Geomorfologia, vol. 1, n. 1, p. 187-209, 2020

Fundação Cultural do Piauí. www.infopatrimonio.org. Acesso em 28 de janeiro de 2021.

Lopes, F. L. S. Geoambiente e Geodiversidade na Área de Proteção Ambiental da Bica do Ipu, Ceará: desafios para a sustentabilidade. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2018.

CPRM (Serviço Geológico do Brasil). Mapa Geológico do Estado do Ceará. Fortaleza: CPRM, 2003.

Santos, F.L.A.; Nascimento, F.R. Compartimentação geoambiental do Planalto da Ibiapaba: subsídios ao manejo dos recursos naturais nos municípios de Tianguá e Ubajara – Ceará. In: Perez Filho, A.; Amorim, R.R. (org.). Os desafios da Geografia Física na fronteira do conhecimento. Campinas: Instituto de Geociências Unicamp, 2018.



Fonte: Eco Nordeste - por MARISTELA CRISPIM



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