Geografia Ambiental

Planta que deu origem ao papiro do Egito é abundante no sertão baiano

Compartilhe:     |  4 de abril de 2015

Um pantanal entre montanhas, no coração da Bahia. Mas o que é que ele tem? Do alto se vê melhor: um campo alagado vasto, cheio de vida. E o mais surpreendente: em pleno sertão, a terra encharcada abriga criaturas da floresta.

Poucas pessoas conhecem o pantanal como Dona Valdelice. Ela nasceu na região e mora há quase meio século no casarão que a família herdou de um Coronel do diamante.

“Há 49 anos. Eu sou muito feliz aqui, muito e muito. Muito feliz mesmo”, afirma Dona Valdelice.

A natureza é tão exuberante que Dona Valdelice e os outros nativos que vivem no entorno nunca pensam em ficar longe do pântano.

“Os animais que estão aqui. Eles são mais típicos do pantanal mato-grossense”, conta o biólogo Cézar Gonçalves.

Pantanal é uma espécie de joia para o sertão

O pantanal mato-grossense é o berçário e o reino da fauna que todo mundo conhece, mas este outro pantanal é quase secreto, escondido bem na Chapada Diamantina. Chega a parecer miragem, mas é um sonho real – um oásis no sertão.

“É uma área onde você tem uma diversidade de animais e de plantas que não existem em outras regiões próximas. Ele é um encrave de um ambiente úmido no meio de uma área seca”, explica o biólogo Cézar Gonçalves.

Graças ao Marimbus, a seca nesta parte da Bahia não é tão rigorosa. Marimbus é uma palavra indígena que significa áreas alagadas. Mas, naquela região, representa, na verdade o pantanal da Bahia. Ela funciona como uma caixa d’água inesgotável.

“Ele ajuda a regular o clima da região. Estas áreas de floresta elas são beneficiadas pela umidade que sai daqui”, diz o biólogo.

E das lagoas sai a comida que alimenta muitas famílias. Os pescadores nunca se queixam da quantidade de peixe. Naquele dia eles pescaram o apanhari, peixe da Amazônia trazido para o nordeste pelas mãos do homem. Gosta muito de água parada, por isso se deu bem no pantanal baiano.

Não é de hoje que aquelas águas multiplicam os peixes, as plantas. A planta que deu origem ao papiro no Egito brotou em abundância no Marimbus.

Globo Repórter: Este é o mesmo papiro do rio Nilo? Se precisasse fazer papel dele, daria também?
Cézar Gonçalves, biólogo: Dá. Basta cortar os talos e secá-los, depois picá-los e processá-los. Dá para fazer.

Mas no pantanal, o papiro tem outro papel fundamental.

“As raízes dele ajudam a fixar o solo pra que não haja erosão, e ajudam também a purificar a água”, explica o biólogo. Mais do que isso: a raiz do papiro é fibrosa, parecida com o palmito, e serve de comida para os peixes e capivaras.

Ednilson, conhecido como “Nil”, é o guia mais experiente do Marimbus. Sabe todos os segredos deste paraíso.

Globo Repórter: Nil, você já percorreu este pantanal todo?
Ednilson José Alves, guia: Todo!
Globo Repórter: Em quanto tempo mais ou menos?
Ednilson: Três dias, a remo.
Globo Repórter: É grande, então? A gente pensa que é pequeno.

De uma ponta a outra, são 30 quilômetros de extensão. De largura, dá bem menos: pouco mais de três quilômetros. Barco a motor lá, nem pensar. Navegar naquelas águas, só com a força dos braços.

O maior peixe daquela região é o tucunaré. Ele pode chegar a um metro de comprimento e pesar mais de dez quilos. Também prefere as lagoas tranquilas. É muito arisco, esperto. Até conhece as armadilhas dos pescadores, diz seu Ednilson.

Globo Repórter: Peixe aqui não falta não?
Edilson Alves, pescador: Não, peixe tem muito!
Globo Repórter: Quando o senhor sai para uma pescaria, o senhor volta com quantos quilos de peixe, mais ou menos?
Edilson Alves: À base de voltar é dez quilos, 12 quilos, 15 quilos, 20 quilos, até 30 quilos.

“Este aqui é o lugar mais rico que nós temos”, diz Edilson.

Pantanal de Marimbus também é patrimônio ecológico

Dona Valdelice se diz encantada pelos pássaros. Um dos mais barulhentos é o cafezinho, também conhecido como jaçanã, ave muito comum no pantanal do Mato Grosso. Vive feliz nos brejos e margens de rio porque tem os pés enormes, capazes de caminhar e correr em cima das plantas aquáticas e até nas folhinhas que ficam boiando no pantanal.

Os moradores da parte norte do pantanal estão sendo cadastrados por técnicos que cuidam da preservação. Dona Valdelice – que vive da agricultura, foi uma das primeiras entrevistadas.

Por fazer parte do Parque da Chapada Diamantina, o Marimbus é também patrimônio ecológico.

Globo Repórter: Quantas famílias vivem dentro do parque?
Cristiane Freitas, bióloga e botânica: São 32 famílias, cerca de 80 pessoas. As que vão ser consideradas tradicionais, elas vão ter seus direitos reconhecidos.
Globo Repórter: O que que caracteriza uma comunidade nativa, tradicional?
Cristiane Freitas: É a relação dela com o lugar onde ela vive. Com a natureza, os animais. Como ela usa as plantas, qual o uso que ela dá pra elas.

Seu Zézé conta que pesca no local desde criança. Hoje ele tem 62 anos. Conhece os caminhos e os atalhos do Marimbus – e se orgulha da relação de intimidade que tem com o pantanal do sertão.

Globo Repórter: O senhor já viu muita coisa aqui neste Marimbus, seu Zezé?
Zezé, pescador: Ah, alguma coisa já vi.
Globo Repórter: O senhor já se assustou com algum bicho aqui?
Zezé: Eu não assusto com nada não.

Quantas surpresas e quantos segredos da natureza estão guardados no pantanal da Chapada? Tudo é uma surpresa no pantanal. E o espetáculo das borboletas surpreende a equipe do Globo Repórter. Todas ficam no cascalho úmido para se refrescar no calor.

Fonte: Globo Repórter



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