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Cientista publica livro sobre plantas esquecidas, lendas e receitas curiosas

Compartilhe:     |  18 de novembro de 2019

Tudo começa com uma sopa de letras e dois marmeleiros. A primeira consigna: encontrar 15 nomes de plantas. É o desafio que Aina S. Erice (Palma de Mallorca, 34 anos), autora de El Libro de las plantas olvidadas (O livro das plantas esquecidas, lançado em 2019 na Espanha pela Editora Ariel, Grupo Planeta), propõe a seus leitores assim que eles abrem as primeiras páginas de sua obra. O livro grosso e rígido parece um dicionário, um catálogo ilustrado de todas as plantas escondidas que já não fazem parte do dia a dia do ser humano, que permanecem aprisionadas nos trilhos de um trem e na escuridão do asfalto. A bióloga e divulgadora quis devolver a luz a essas plantas escondidas quando morreram dois marmeleiros de seu pequeno pomar favorito e ao ver várias crianças do ensino primário confundirem um cipreste com um pinheiro.

O maior problema destacado pela cientista é a “cegueira verde” em que a humanidade se afunda. Em uma fotografia e em uma floresta, a vegetação é informação de fundo na qual o espectador não presta atenção. Ele se interessará antes pelo tigre e até pela pequena aranha em cima da folha. A planta, como não se movimenta, não é notada. “A cultura da natureza está desaparecendo. Hoje nos interessa mais saber como o Instagram funciona do que a história de um marmeleiro”, diz Erice com uma gargalhada. Sua obra, entretanto, demonstra que as plantas têm sua ação. Muitas delas têm efeitos sobre o ser humano, dotes dignos de fada madrinha e uma história recém-saída de um conto.

Algumas receitas metafóricas

 

Para a autora, uma das plantas mais curiosas é o feno-grego. Seu talo não mede mais de 60 centímetros e tem flores pálidas e amareladas. Como boa leguminosa é utilizado para dar textura a guisados e pode ser adicionado na massa para panificar. Uma de suas propriedades mais estudadas é sua capacidade para regular os níveis de glicose no sangue para pessoas com diabetes. Mas sua magia não acaba aqui. De acordo com a pesquisadora, as mulheres trancadas nos haréns comiam sementes da planta para aumentar o tamanho de seus seios. Erice diz que existem relatos sobre seus supostos efeitos, mas nenhuma prova científica que os comprovam.

A relação entra a humanidade e as plantas é o que fascina a cientista e uma das razões pelas quais dedicou sua carreira à vegetação. “Percebi que, sem a natureza, não existiria história e poesia. O reino vegetal é uma maravilhosa inspiração e fonte de preciosas metáforas”, afirma. Os marmeleiros também demonstraram ter um dom curioso e uma estreita relação com o ser humano. Além de combater a diarreia, dar brilho e textura aos tecidos e ser um gel fixador para o cabelo, são o símbolo do amor, do vínculo conjugal e de fertilidade. No século I, Plutarco contava que Sólon, poeta e legislador ateniense, pedia que, antes de receber seu esposo na noite de núpcias, as mulheres mordiscassem um marmelo para perfumar seu hálito e suas palavras. Outra planta a qual é atribuída indemonstráveis crenças populares é a urtiga, a planta conhecida por produzir forte ardor somente com um leve roçar. Em Jaén se aconselhava a esfregar os genitais masculinos com a planta e comer suas sementes para abrir os apetites sexuais.

Uma avenida de ciprestes em Mérida (Extremadura).
Uma avenida de ciprestes em Mérida (Extremadura).

Curiosidades úteis e comestíveis

A pastinaca, junto com a grama, o lúpulo e outras plantas, é boa candidata para elaborar bebidas fermentadas, de cervejas de raiz (na Irlanda) a vinhos (no Reino Unido e América). Os níveis de açúcar do vegetal aumentam com a exposição da raiz ao frio, na horta e na despensa. Em oposição a esse aspecto tão tangível, na Inglaterra existia a crença de que “as pastinacas velhas causavam delírio e até loucura” e que as gramas eram símbolo de imortalidade.

O suco de caqui serviu durante séculos para impermeabilizar bolsas, chapéus, leques, guarda-chuvas e sombrinhas. Além de ser comestível, é um agente contra rugas e branqueia a pele. “No Japão se diz que, se você planta uma árvore de caqui em seu jardim, ficará rico e, se você tem um leque de papel tratado com esse suco, será capaz de afugentar o deus da pobreza”, conta a obra, entre outras histórias mágicas.

As silenes não são somente um vegetal qualquer no jardim, e sim também um “manjar de delicioso sabor”. É uma planta de 80 centímetros de altura de tonalidade azulada considerada “erva daninha”. Erice propõe várias receitas a base de silenes. A cientista afirma que podem ser consumidas em saladas, cozidos, sopas, omeletes, bolinhos e mexidos. Ao final de sua ficha, escolhe detalhar uma receita curiosa: o macarrão de silene.

Uma colheita ética

Caquis no pomar de um povoado de Valldemossa (Mallorca, Ilhas Baleares)
Caquis no pomar de um povoado de Valldemossa (Mallorca, Ilhas Baleares)

É preciso determinar com clareza o uso que se faz das plantas e a relação que se mantém com elas. Para Erice é preciso maximizar os benefícios mútuos e estabelecer uma relação de colaboração. “Devemos nos preocupar por ela e nos assegurar de que possa se regenerar para que não continue desaparecendo de nossa vista”. A cientista afirma que é importante o ritmo utilizado para manejar a natureza e, principalmente, qual parte se utiliza. “É preciso fazer uma colheita ética”, diz. Definitivamente, a obra é um convite para que as pessoas saibam o que as cerca, quais plantas há na esquina de seu bairro e como recuperar o esquecido.

A autora Aina S. Erice.
A autora Aina S. Erice.


Fonte: EL PAÍS - AGATHE CORTES



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