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Pode haver vida no cometa que recebeu a missão Rosetta

Compartilhe:     |  7 de julho de 2015

O cometa que recebeu a missão da sonda espacial Rosetta poderia abrigar vida, sugerem análises de computador feitas por uma dupla de astronômos. Segundo Max Wallis e Chandra Wickramasinghe, cientistas especializados na busca de vida fora da Terra, da Universidade Cardiff, no País de Gales, algumas particularidades do 67P/Churyumov-Gerasimenko, como sua crosta negra e rica em materiais orgânicos e lagos gelados, provavelmente podem ser explicadas pela presença de micro-organismos sob a superfície congelada. A missão também parece ter encontrado aglomerados de material orgânico semelhantes a organismos de atividade viral.

Os astrobiólogos apresentarão as conclusões do estudo nesta segunda-feira (6), no encontro da Royal Astronomical Society, no País de Gales. Pelos dados, não é possível afirmar com certeza que há seres vivos no local. Só que os indícios fortificam ainda mais os cálculos de astrofísicos que apontam para a quase certa probabilidade de haver vida extraterrestre.

A missão da sonda Rosetta, que permitiu o pouso histórico do robô Philae no 67P, em novembro do ano passado, não tem equipamentos específicos para a busca de vida extraterrestre. Quando a missão foi concebida, há 15 anos, a vida em outros planetas parecia uma possibilidade muito distante. Mas, com o envio de missões como a Kepler, há cinco anos, e o avanço de telescópios capazes de visualizar e enxergar partes longínquas do cosmo, os cientistas perceberam que a vida microbiana pode ser ou ter sido uma realidade em outros corpos celestes. Nesse período, o campo da astrobiologia, área da astronomia que estuda a vida extraterrestre, se fortaleceu e os pesquisadores aprenderam a identificar e reconhecer marcas e pistas deixadas pela vida microbiana no Universo.

Descobrir algum vestígio, por mínimo que seja, desse tipo de rastro no 67P é importante, porque os cometas são considerados “restos” da formação do Sistema Solar que continuam vagando pelo espaço. De acordo com algumas teorias, eles podem ter sido os responsáveis por trazer a água, ou até mesmo vida, à Terra. Seu impacto na superfície, no princípio da formação do nosso planeta, poderia ter dado início à vida microscópica, que evoluiu para os tipos de seres vivos que conhecemos hoje.

De acordo com as análises dos astrônomos de Cardiff, os micro-organismos poderiam habitar os espaços gelados do 67P, mesmo em temperaturas menores que 40 graus negativos. Eles estariam envolvidos na formação das estruturas geladas e da matéria orgânica vista na superfície.

Os cientistas acreditam que a vida que existiria no 67P pode ser semelhante à dos extremófilos terrestres, organismos que conseguem sobreviver em regiões inóspitas, extremamente quentes ou frias. No entanto, é importante notar que a matéria orgânica encontrada no planeta pode ser o resultado de processos químicos que não envolvem, necessariamente, a presença de organismos vivos. O que daria origem às moléculas orgânicas e outras características do cometa ainda devem ser estudados em profundidade pela equipe da missão.

“Rosetta já mostrou que o cometa 67P não pode ser visto como um objeto congelado e inativo, mas abriga processos geológicos e poderia ser mais propício à vida microbiana que nossas regiões polares”, afirma Wallis em um comunicado.

Missão Rosetta – Em meados de junho, a sonda Philae, que estava em hibernação desde o ano passado, deu sinais de nova atividade. A equipe internacional responsável pela missão decidiu estender as atividades de Rosetta, que estava prevista para terminar em dezembro deste ano, até setembro de 2016. O objetivo é recolher mais dados e ampliar as análises sobre o 67P/Churyumov-Gerasimenko.

Entenda a missão Rosetta

Quando começou a missão Rosetta?

Quando começou a missão Rosetta?

Em 1993, a Missão Internacional Rosetta foi aprovada pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), com o objetivo de programar a expedição a um cometa, considerado um vestígio dos primórdios do Sistema Solar que continua vagando pelo espaço. Ela custou 1 bilhão de euros.

Por que a missão é tão importante?

Por que a missão é tão importante?

Rosetta é a primeira missão a pousar na superfície de um cometa. Acredita-se que os sistemas planetários se formam a partir de uma estrela, que são nuvens de gás e poeira que colapsam sob a gravidade. Em torno delas, com o tempo, as partículas de poeira vão se unindo e gerando areia, pedras e rochas que, ao adquirirem massa suficiente, se tornam asteroides, cometas e planetas. De acordo com algumas teorias, os cometas podem ter sido os responsáveis por trazer a água, ou até mesmo a vida, para o planeta. “Acredita-se que [os cometas] tenham surgido no início do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, e que se mantenham quase idênticos ao que eram em seu nascimento”, afirma Nicolas Altobelli, um dos cientistas da ESA que participam da missão. Por isso, decifrar um cometa é também decifrar o princípio da formação do Sistema Solar.

Por que Rosetta?

Por que Rosetta?

A sonda foi batizada em homenagem à Pedra de Roseta, uma rocha vulcânica descoberta por soldados franceses em 1799, no Egito. Ela ajudou a desvendar o Egito Antigo para os exploradores, por possuir escritos em hieróglifos – linguagem egípcia escrita, que até então era desconhecida – e sua tradução em grego, que já era conhecido. A comparação entre os escritos permitiu que os pesquisadores decifrassem os códigos da civilização egípcia – assim como os cientistas esperam que a sonda Rosetta desvende as peças mais antigas do Sistema Solar, os cometas.

O que é Rosetta? O que é Philae?

O que é Rosetta? O que é Philae?

Rosetta é uma larga caixa de alumínio que pesa 3 toneladas com dimensões de 2,8 metros por 2,1 metros por 2 metros, que carrega o robô Philae em sua lateral. Ela é equipada com diversos instrumentos científicos para as medições e transmissões de imagens, além de antenas de comunicação e seus 24 propulsores. Ela também possui duas grandes “asas”, compostas, cada uma, por cinco painéis solares (em um total de 32 metros quadrados). O módulo Philae, que pousou no cometa, é feito de fibra de carbono, tem 100 quilos e o tamanho aproximado de uma máquina de lavar roupas. É equipado com três pernas que podem girar, inclinar ou se levantar, e dois arpões que devem fixá-lo ao cometa. Uma antena transmite seus dados à Terra, via Rosetta. Ele carrega instrumentos para nove experimentos científicos, que pesam 21 quilos, e um sistema para extrair amostras da superfície do cometa.

Por que foi escolhido um cometa tão afastado da Terra se há outros próximos ao nosso planeta?

Por que foi escolhido um cometa tão afastado da Terra se há outros próximos ao nosso planeta?

Para estudar a origem do Sistema Solar, o ideal é um cometa com órbita definida, que mantenha as mesmas características de quando foi formado. Quando chegam próximo à Terra, em geral, os cometas são apenas fragmentos e já sofreram a ação intensa dos raios solares, o que é um obstáculo para o propósito dos cientistas.

E por que esse cometa, em especial?

E por que esse cometa, em especial?

O 67P/Churyumov-Gerasimenko foi escolhido, dentre tantos outros, porque viveu bilhões de anos no espaço profundo até que uma passagem perto de Júpiter mudou radicalmente sua órbita, em 1959. Dessa forma, ele quase não sofreu com a ação dos raios solares. “Esta cápsula do tempo está fechada há 4,6 bilhões de anos. Chegou o momento de abrir a arca do tesouro”, explicou o astrofísico da ESA Mark McCaughrean. O 67P/Churyumov-Gerasimenko vai atingir seu ponto mais próximo ao Sol em agosto de 2015, enquanto Rosetta seguirá orbitando ao seu redor e colhendo dados. “Pela primeira vez seremos capazes de analisar um cometa durante um longo tempo, e isso nos dará uma visão interna de como ele trabalha, para nos ajudar a decifrar o papel que desempenha no Sistema Solar”, sintetiza Matt Taylor, cientista que atua na missão.

Quando a missão foi lançada?

Quando a missão foi lançada?

A sonda foi lançada em 2 de março de 2004, a bordo do foguete Ariane 5, do Centro Espacial Europeu de Kourou, na Guiana Francesa, pesando 3 toneladas. A previsão é que funcione até 31 de dezembro de 2015.

Ela foi diretamente para o cometa?

Ela foi diretamente para o cometa?

Até hoje, não há tecnologia capaz de impulsionar naves para acertar um alvo de 4 quilômetros de diâmetro — praticamente uma agulha em um palheiro diante dos 10 bilhões de quilômetros de diâmetro do sistema solar — a uma distância de 500 milhões de quilômetros. Por isso, os cientistas aproveitaram a força da gravidade para acelerar a sonda até a velocidade necessária, de cerca de 50.000 quilômetros por hora. Para ganhar impulso, Rosetta deu três volta ao redor da Terra (em 2005, 2007 e 2009) e uma ao redor de Marte, em fevereiro de 2007.

Qual a trajetória Rosetta percorreu até chegar ao cometa?

Qual a trajetória Rosetta percorreu até chegar ao cometa?

Assim que ganhou impulso, Rosetta seguiu em trajetória circular e, no caminho, passou por Júpiter e se tornou o primeiro objeto a se aproximar do planeta, usando seus painéis solares como principal fonte de energia. Em julho de 2010, a sonda sobrevoou o asteroide Lutetia, um denso resíduo do que os cientistas chamam de planetesimais, grandes blocos rochosos que vieram a formar os planetas do Sistema Solar. Ali, captou cerca de 400 imagens, mostrando várias crateras do asteroide situado a 450 milhões de quilômetros da Terra e descoberto em 1852. Em seguida, a sonda hibernou entre junho de 2011 e 20 de janeiro de 2014. Em agosto de 2014, ela entrou na órbita do cometa e começou a colher informações para escolher o local ideal para o pouso. Estava a 400 milhões de quilômetros da Terra e se posicionou a 100 quilômetros do cometa.

Por que ela hibernou?

Por que ela hibernou?

Ao se afastar ainda mais da Terra e do Sol, Rosetta foi colocada em um estado de “hibernação” em junho de 2011. A uma distância tão elevada, a luz solar era fraca demais para carregar os painéis da sonda, tornando necessária a pausa para economia de energia. Apenas um computador e alguns aquecedores ficaram ativos durante esse período, no qual a sonda se aproximava de seu cometa de destino. Nesse período, que terminou em 20 de janeiro de 2014, ela atingiu a marca de 800 milhões de quilômetros distante do Sol.

Onde está Rosetta agora?

Onde está Rosetta agora?

Em 12 de novembro de 2014, o módulo Philae pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Às 14h03 (horário de Brasília) chegou à Terra a confirmação de que a aterrisagem havia sido bem sucedida. Philae estava a 22,5 quilômetros do cometa (aviões comerciais voam a metade desta distância quando estão em altitude de cruzeiro) e caiu em queda livre. O cometa está a 509 milhões de quilômetros de distância da Terra, viajando a 64.800 quilômetros por hora.

Por que os cientistas estimavam que o pouso tinha 50% de possibilidade de dar errado?

Por que os cientistas estimavam que o pouso tinha 50% de possibilidade de dar errado?

Há 20 anos, quando a missão inciou, os astrônomos sabiam muito pouco sobre o 67P/Churyumov-Gerasimenko e a probabilidade da missão dar certo sempre foi de 75%. Com a observação de Rosetta, os cientistas descobriram que o cometa que tem 3 a 5 quilômetros de diâmetro e, em julho, os astrônomos chegaram a pensar que a missão estivesse perseguindo um cometa duplo. No entanto, as observações posteriores mostraram que o cometa tem formato semelhante a um pato de borracha e o solo muito irregular — mesmo nas melhores imagens da superfície captada por Rosetta não era possível ver rochas de alguns metros, o que seria um obstáculo para o pouso. Outro risco era de o módulo tocar o cometa e quicar de volta para o espaço, devido à baixa gravidade no local. Com esses agravantes, as possibilidades do sucesso da missão caíram a 50%.

Quais são os próximos passos da missão, a partir de agora?

Quais são os próximos passos da missão, a partir de agora?

Rosetta continua sua órbita ao redor do cometa, recolhendo informações, até seu ponto de aproximação máxima com o Sol, que deve ocorrer em agosto de 2015. Philae colheu informações do cometa e as enviou para a Terra, mas atualmente está em estado de hibernação, por falta de bateria. A missão está prevista para terminar em dezembro de 2015.



Fonte: Veja - Da redação



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