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Políticas ineficazes ampliam poluição das águas, emissão de gases e corte de área verde

Compartilhe:     |  14 de maio de 2016

A população urbana terá um aumento de pelo menos 3,1 bilhões de pessoas até 2050, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse novo contingente provoca uma necessidade de revisão das políticas públicas de gestão de recursos naturais, infraestrutura e clima. Apesar disso, a realidade mostra que a maioria dos municípios caminha justamente no caminho contrário, especialmente no Brasil, colocando em xeque a proposta de um desenvolvimento mais sustentável.

Estudos do Núcleo Latino-americano da Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas, que em outubro de 2015 ganhou uma filial brasileira sediada na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontam que as cidades são responsáveis por 70% das emissões de gases do efeito estufa, poluição que eleva a temperatura da Terra. No entanto, pouco tem sido feito para adotar um crescimento com respeito à natureza. As obras para as Olimpíadas no Rio de Janeiro são exemplo disso.

Na capital fluminense, novas edificações suprimem áreas naturais, somadas à ausência de projetos para preservar e potencializar áreas verdes. Em 2012, o Autódromo Nelson Piquet, em Jacarepaguá, foi demolido para dar lugar ao Parque Olímpico. O novo autódromo será construído em Deodoro, na Zona Oeste da cidade, ocupando área de mata, segundo denuncia o documento da Fiocruz. Por falta de licenciamento e verbas, as obras estão paradas.

Exemplos como esse corroboram para uma triste previsão: segundo o estudo, no Rio de Janeiro a previsão é que a temperatura suba 3,4 Cº até 2080, com aumento de 82 centímetros do nível do mar e 6% no volume de chuvas. Em São Paulo, as chuvas podem subir 13,9% e a temperatura ser elevada em 3,9% – dentro da média prevista para as demais cidades do planeta, que terão entre 1º C e 4º C de aumento.

Nas cidades, as mudanças do clima, além de descontrolar a temperatura, provocam problemas de saúde e doenças. Tempestades e inundações são responsáveis por ferimentos, infecções, casos de hepatite, leptospirose e diarreia, por exemplo, constatou o relatório do núcleo.

Os problemas citados afligem tanto a cultura humana como a fauna e flora. Nesse aspecto, já há o entendimento que não se deve usurpar os recursos naturais sem o respeito aos outros habitantes do planeta. “Por encurralar a natureza nos domínios axiológicos da família humana, cria-se situações de desprezo à espontaneidade da vida, seleciona-se os ‘escolhidos’ que poderão desfrutar dessa genuína amizade. Quando os fenômenos naturais são controlados, programados, desenhados e legislados em favor de poucos, o que resta, senão sobrevida e miséria para todos? Triste fim para natureza, triste fim para aqueles que devem sua existência”, critica o professor Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino, doutor em Ciência Jurídica, que amplia o debate nesse artigo.

Ex-Cidade Jardim

Mesmo cidades planejadas acabaram por fazer escolhas erradas que prejudicam a natureza. É o caso de Belo Horizonte. Escolhida para ser a nova capital mineira por causa da beleza da Serra do Curral, pelo clima ameno e pela ampla rede de mananciais de água, a cidade fundada em 1897 acabou indo para o extremo oposto. Segundo o geógrafo Alessandro Borsagli, autor do livro ‘Rios invisíveis da metrópole mineira’ e do site Curral del Rey, o plano de convívio entre a cidade e a natureza acabou por se esfacelar onde os rios urbanos, inicialmente integrados à paisagem da capital mineira, foram dando lugar ao asfalto e ao transporte individual.

“Toda essa inversão de valores tem uma origem, a aplicação de técnicas que, vendidas como solução para os problemas gerados a partir de uma ocupação não harmoniosa com o meio, nos quais os traçados dos cursos d’água não foram respeitados pela cidade, acabaram por potencializar as enchentes e os problemas sanitários”, explica Borsagli.

Ao longo da história, os diversos governos municipais optaram pelo corte de árvores e canalização de rios. E os cursos d’água e áreas verdes que ainda resistem, agora padecem de poluição e especulação imobiliária, respectivamente. “E entre vetos de reabilitação de cursos d’água e a preservação de importantes remanescentes vergéis, seguimos alienados sem entender o que perdemos e sem perspectiva do que o futuro nos reserva, navegando sobre rodas e sobre concreto”, denuncia o geógrafo, que detalha mais do assunto nesse texto.

Caminhos para o futuro

Com uma previsão cada vez mais nebulosa ante o esgotamento dos recursos que coloca em risco a natureza e a própria civilização humana, quais são as alternativas para o desenvolvimento urbano? Doutor em Gestão do Conhecimento e mestre em Gestão Ambiental, o advogado e consultor jurídico Rafael Burlani aponta três desafios para a sustentabilidade  nesse artigo. Na opinião do pesquisador, novas tecnologias e normas jurídicas eficazes podem colaborar com o futuro.

“O equilíbrio entre o ambiente natural e o ambiente artificial transita na pegada cultural, no arranjo de uma estratégia sustentável, incluída a normativa e a política, bem como uma sistematizada gestão capaz de oferecer soluções inovadoras e portadoras de novas tecnologias que venham em defesa da natureza.  Diminuir a pressão sobre o ambiente natural nas grandes cidades é problemática emergente e urgente”, aponta.

Organismos locais e internacionais também se movimentam para propor mudanças necessárias. Em setembro de 2015, a ONU aprovou um conjunto de metas que vinham sendo elaboradas desde o Rio+20: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável-ODS (Agenda 2030). São 17 objetivos globais e 169 metas para promover a inclusão social, o desenvolvimento sustentável e a governança democrática em todo o mundo entre 2016 e 2030.

Além das metas, a ONU também inclui uma série de indicadores para governos, sociedade civil e empresas revejam ações para criar um novo modelo de desenvolvimento com mais respeito à natureza. Neste recorte, a entidade recomenda até 2030 a criação de sistemas de transporte e habitação mais seguros, acessíveis e sustentáveis, preservando o patrimônio cultural e natural do mundo.

No Brasil, foi criado o Programa Cidades Sustentáveis (PCS),  gerenciado pelos movimentos Rede Nossa São Paulo, Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis e do Instituto Ethos, com objetivo de contribuir no desenvolvimento sustentável nos municípios.  Entre as atividades, há a análise dos problemas e elaboração de planos de ação, sendo solicitado o compromisso de candidatos ao executivo nas diversas esferas em prol das mudanças necessárias.

Os municípios brasileiros também poderiam ampliar a sustentabilidade, seguindo exemplos feitos na Europa e em Seul, na Coreia do Sul, que revitalizou um rio, criando parques e áreas de convivência. “O melhor caminho é a adoção de um novo modelo desenvolvimentista para a integração entre a cidade e o meio, não cimentando a cidade, um organismo vivo, mas promovendo um desenvolvimento urbano sustentável, onde os elementos naturais seriam elementos reabilitadores do espaço, tão degradado a partir de intervenções que visam apenas o automóvel e a (re)acumulação de capital”, afirma Alessandro Borsagli .

Em Belo Horizonte, o geógrafo aponta algumas alternativas, que passam pela conscientização dos moradores. “É necessário o pleno tratamento dos esgotos e a criação de parques ao longo dos cursos d’água e corredores verdes integrando as diversas regiões da cidade. Tudo isso com a participação da população, promovendo não só o convívio com os elementos, mas também a conscientizando da necessidade da preservação do meio para a melhoria da qualidade de vida”, sugere.(Com Agência Brasil).

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Fonte: Redação DomTotal



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