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Por que os bichos-preguiça se movem tão lentamente no alto dos galhos das florestas?

Compartilhe:     |  3 de setembro de 2019

Preguiças, como o próprio nome já diz, têm pouca necessidade de se apressar. Na maioria das vezes, elas vivem no alto dos galhos das florestas que se estendem pela América Central e Sul, descendo apenas para defecar. E a vida que levam é muito em câmera lenta.

O motivo pelo qual as preguiças se movem tão lentamente é devido a alguns truques evolutivos peculiares.

As preguiças modernas – a preguiça de três-dedos e a preguiça de dois-dedos – são versões muito menores das preguiças que habitavam o mundo pré-histórico. Preguiças gigantes, algumas até pesavam várias toneladas, caminharam no chão durante a última era glacial até cerca de 11.000 anos atrás, forrageando as árvores, levantando-se sobre as patas traseiras para alcançar a folhagem.

“O que mudou foi uma combinação de subir nas árvores, e ter uma dieta quase inteiramente baseada em folhas, ” diz Camila Mazzoni do Instituto Leibniz de Pesquisa em Zoológico e Vida Selvagem na Alemanha.

“A dieta das folhas é muito pobre em nutrientes e a ingestão de calorias é muito baixa. Por causa disso eles tem que ter uma taxa metabólica muito lenta para lidar com essa baixa ingestão calórica”.

E o porquê disso se dá pelo local onde vivem.

Preguiças passam a maior parte das suas vidas em árvores, longe de predadores da floresta tropical. (Crédito: Getty Images)

Todas as seis espécies de preguiças vivem em florestas tropicais. É um ambiente quente e úmido, o que significa que algumas vantagens normais de um sistema endotérmico não são realmente necessárias – o ambiente já está quente, então você não precisa gastar uma quantidade enorme de energia para manter os músculos e o sistema cardiovascular aquecidos. Então os bichos-preguiça não o fazem.

Ser um mamífero tem seus benefícios. Capazes de regular internamente a temperatura corporal, elas podem viver em climas mais frios – muito mais frios que répteis ou outros animais de sangue frio.

Mas esse truque evolutivo de animais de sangue quente também tem algumas desvantagens. A fim de alimentar esse sistema faminto-por-energia, os mamíferos precisam comer muito e com frequência para manter os músculos necessários para o movimento aquecidos. É por isso que os mamíferos ainda podem correr em um dia frio, enquanto os lagartos permanecem lentos – se eles se moverem é claro.

“A termorregulação que a maioria dos mamíferos precisa fazer exige muita energia”

Camila Mazzoni

Essa adaptação endotérmica permitiu que os mamíferos colonizassem a maior parte dos ambientes da Terra – incluindo as extensões frias de ambos os pólos.

Mas em outros lugares, alguns mamíferos abandonaram os traços endotérmicos que a evolução lhes deu. Ao fazer isso, eles adotaram um estilo de vida lento e economizador de energia, mais similar aos animais de sangue frio.

“A termorregulação que a maioria dos mamíferos precisa fazer exige muita energia”, diz Mazzoni. “Mas como as preguiças não a possuem, isso significa que elas requerem muito menos energia”.

“Mas isso significa que elas só podem viver nos trópicos, e não no alto das montanhas onde a temperatura fica bastante baixa. Dito isto, a preguiça de dois dedos é um pouco mais flexível e subirá um pouco mais as montanhas da Costa Rica.”

A dieta das folhas de uma preguiça é nutricionalmente pobre e com poucas calorias.
(Crédito: Getty Images)

O ciclo de vida baseado em árvores das preguiças significa que elas passam pouco tempo sob risco de predadores como a onça pintada. Essa é outra razão pela qual as reações extremamente rápidas – e a enorme quantidade de energia necessária para alimentá-las – simplesmente não são necessárias. “Elas têm esse relacionamento íntimo com as árvores”, diz Mazzoni. “Elas dependem delas.”

Ela diz que as preguiças costumam “subir ao topo do dossel pela manhã para obter energia do sol e quando fica muito quente, elas voltam para a sombra das árvores”. Esse comportamento é muito mais típico de animais de sangue frio – lagartos e outros répteis – do que de outros mamíferos.

Becky Cliffe, zoóloga britânica que trabalha na Fundação de Conservação da Preguiça da Costa Rica, diz que é somente quando você vê preguiças na natureza que você realmente aprecia o quão lento elas são. “Você sabe que elas se movem devagar, mas então você olha para toda e qualquer parte do corpo deles – quando eles viram a cabeça ou mesmo quando piscam – tudo é feito muito devagar. Você tem que gastar um tempão em campo para ver uma.”

¨Entre as outras características da vida dos mamíferos que as preguiças dispensam está na quantidade de leite que as mães produzem para seus filhotes.”

Olhe atentamente para uma preguiça e verá que seu pelo frequentemente estará com uma tonalidade verde. Pode ser tentador supor que os animais se tornaram tão sedentários que se tornaram o lar de musgos e algas das árvores ao seu redor. Mas isso omite algo muito mais fascinante, diz Mazzoni.

“Seus pelos são modificados e possuem esse tipo de abertura na qual as algas e fungos podem crescer”, diz ela. “Não é porque eles são lentos. Sabemos que há algum tipo de relacionamento simbiótico acontecendo lá.”

Para que servem essas algas? Muitos cientistas estão tentando descobrir isso. “Pode ser que seja bom para a camuflagem das preguiças”, acrescenta Mazzoni. As algas verdes e os fungos podem ajudar as preguiças a se misturarem com o fundo do dossel da floresta.

“Também pode ser uma maneira das preguiças obterem proteína extra”, diz ela, observando que às vezes se vê lambidas de preguiças nas algas que crescem em seus pelos. O crescimento de fungos também pode ajudar a reduzir o número de parasitas. “O pelo deles é quase completamente resistente à água e impede muitos parasitas. Preguiças têm menos parasitas que outros mamíferos de tamanho semelhante. ”

As preguiças bebês precisam mamar constantemente por que a mãe produz pequenas quantidades de leite por vez. (Crédito: Getty Images)

Entre as outras características da vida dos mamíferos que as preguiças dispensam está a quantidade de leite que as mães produzem para seus filhotes.

“As mães preguiças não armazenam grandes quantidades de leite, então é produzido gota a gota”, diz Cliffe. Os filhotes se prendem perto do mamilo e depois se alimentam quando o leite escorre.

“Contudo, o estilo de vida devagar-e-sempre dos bichos-preguiça não pode ser tomado erroneamente como preguiça propriamente”

Os anos de Cliffe assistindo preguiças na selva da Costa Rica deram-lhe muitas informações sobre seu comportamento. “Elas não pulam e não correm. Mas elas têm braços incrivelmente fortes. Se um humano e uma preguiça tivessem uma luta de braços, a preguiça definitivamente venceria.” Mas as pernas da preguiça – que não são necessárias para uma velocidade vertiginosa ou mesmo para suportar todo o seu peso na maior parte do tempo – não têm a mesma massa muscular.

“Contudo, o estilo de vida devagar-e-sempre dos bichos-preguiça não pode ser tomado erroneamente como preguiça propriamente”, diz Cliffe. “Eles não são preguiçosos. Os macacos bugios que vivem nas florestas dormem por até 18 horas por dia, e as preguiças dormem por cerca de 10. ”

Se as preguiças não tivessem terminado vivendo em um ambiente quente e úmido, coberto de árvores, elas poderiam ter sido mais felizes, vivendo em um ritmo mais rápido. Mas, ao longo de inúmeras gerações, elas chegaram a um ritmo de vida perfeitamente adequado ao seu ambiente.

“Elas mostram que você não precisa correr o tempo todo tentando encontrar comida”, diz Cliffe. “Elas liberaram toda a tensão”.

Fonte: BBC Future / Stephen Dowling
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
http://www.bbc.com/future/story/20190828-why-do-sloths-move-so-slowly



Fonte: Ambiente Brasil



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