Notícias

Por que precisamos de uma Semana de Apoio à Amamentação Negra

Compartilhe:     |  1 de setembro de 2020

Terminou nesta segunda-feira (31) a primeira Semana de Apoio à Amamentação Negra no Brasil. O movimento nasceu nos Estados Unidos, há 8 anos, em uma campanha que se dedica a promover a visibilidade das mulheres negras ou homens trans negros que amamentam, e debate o racismo estrutural – e, claro, seus impactos sobre o aleitamento.

Mas por que é tão importante ter uma semana exclusiva para tratar da amamentação negra durante o agosto dourado?

“O objetivo principal de particularizar a questão da negritude é o racismo. É o racismo que torna determinadas mulheres invisíveis nos discursos, sejam ele de saúde ou de qualquer outra coisa que teoricamente parte de um universal, mas um universal que é sempre branco”, explica Fe Lopes, psicóloga, psicanalista, consultora de amamentação e uma das idealizadoras do projeto Igbaya – Apoio a Amamentação Negra.

Fernanda cita como exemplos práticos da falta de representatividade negra neste cenário a escassez de fotos de negras amamentando nas ações do agosto dourado, a falta de profissionais negros na assistência e a pouca visibilidade que esses raros profissionais têm.

A pediatra Tiacuã Fazendeiro, também à frente do projeto Igbaya, sente isso na pele. “Percebo muito a falta de profissionais negros na área. De 110 alunos na minha turma de faculdade, éramos três pessoas negras só. E, hoje, como preceptora da residência da Santa Casa da pediatria, percebo que tem muito poucos também. Isso é um reflexo da sociedade. Os negros têm muita dificuldade de chegar ao ensino superior, ainda mais quando se trata de um curso tão elitista quanto medicina. É um curso de período integral, em que é difícil você trabalhar durante a faculdade, e há um custo alto de livros, materiais, equipamentos… Outra questão também é se manter na profissão, porque os pacientes procuram menos os profissionais negros”, conta a médica assistente da Santa Casa de São Paulo.

Outro impasse no Brasil é a falta de pesquisa científica que leva em consideração a cor da pele para traçar cenários e, portanto, soluções. “Nos Estados Unidos, os dados apontam que bebês negros são menos amamentados, e que a mortalidade de bebês negros é duas vezes maior do que de bebês brancos. No Brasil, estamos muitos passos atrás, porque nem esses dados nós temos. Essa não é uma pergunta que faz parte da anamnese”, explica Fernanda.

Semana de Apoio à Amamentação Negra surgiu há 8 anos nos Estados Unidos (Foto: Janaina Santina)

Semana de Apoio à Amamentação Negra surgiu há 8 anos nos Estados Unidos (Foto: Janaina Santina)

Mitos propagados pelo racismo

Aqui no Brasil, alguns mitos são atravessados pelo racismo estrutural. Um deles – a ideia de que mulheres negras são mais fortes, portanto não sentem tanta dor – pode afetar diretamente a amamentação. “Considera-se menos essa informação quando as mulheres estão na consulta falando que o peito dói, por exemplo. A gente sabe que a dor é o fator principal de desmame precoce – e elas têm uma assistência pior”, destaca Fernanda.

A ativista, mãe e pesquisadora da saúde da mulher negra Janaína Santina vê na prática os efeitos da não assistência à mulher negra. “A maioria das mulheres negras que eu acompanho no pós-parto simplesmente não recebem assistência. Desde o pré-natal, o atendimento dos hospitais públicos é muito deficitário. Pressupõem-se que elas sabem parir, sabem amamentar, e não é preciso ajudá-las, o que não é real”, diz.

Outro mito que se propaga é que o peito da mulher preta, por ter mais pigmentação, seria mais resistente às fissuras. “Isso também não é verdade. A gente está, portanto, sempre falando de uma população que está marginalizada no discurso”, diz Fernanda.

Como violência que é, o racismo impacta cada mulher e cada família de modo muito particular, mas o fato é que ao afetar a assistência, esses são fatores que têm grande chance de comprometer o desfecho da amamentação da mulher negra. As mulheres negras, em geral, têm mais filhos, não têm rede de apoio, têm trabalhos informais, e sem licença-maternidade. “Há questões sociais que limitam a amamentação dessas mulheres. A gente muitas vezes não tem tempo de cuidar dos nossos próprios filhos, enquanto cuidamos dos filhos dos outros”, avalia Janaina.

Há ainda aqui a destacar a objetificação do corpo negro, herança dos tempos de escravidão. “A mulher negra foi ama de leite para alimentar os filhos dos senhores, sempre esteve nesse lugar da objetificação. Eu mesma sentia esse olhar quando amamentava meu filho, esse desconforto, a mulher negra que amamenta fica em um lugar de objeto para contemplação, e essa é uma questão social”, afirma a pesquisadora.



Fonte: Revista Crescer



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

“Comida de humanos” pode até matar os pets! Veja os riscos dessa prática

Leia Mais