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Por que tanto descaso com as unidades de conservação no Brasil?

Compartilhe:     |  29 de setembro de 2014

 

Entre 2005 e 2008, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) autorizou diversos desmatamentos nas chapadas em torno do Parque Estadual Veredas do Peruaçu para plantios de eucalipto. As autorizações foram dadas sem estudos ambientais que identificassem possíveis impactos à unidade de conservação. Os proprietários dos plantios são conhecidos na região como “paulistas”.

Passados menos de 10 anos, as nascentes do Rio Peruaçu, completamente protegidas por densas e extensas florestas de buritis e pindaíbas, habitadas por bandos de araras e papagaios verdadeiros, estão secando. Em função de denúncias recebidas pela Amda, equipes técnicas da Semad e do Igam realizaram vistoria no local em abril deste ano. E os laudos apontam para uma relação direta entre o desmatamento, os plantios e a redução drástica dos lençóis freáticos que abastecem as nascentes.

As chapadas são áreas de recarga, ou seja, nelas as águas da chuva se infiltram e alimentam os lençóis, que, por sua vez, alimentam as nascentes do Rio Peruaçu. Os laudos recomendam que não sejam “liberadas novas áreas para usos alternativos do solo quando não precedidos de estudos e monitoramento de rebaixamento do nível dos lençóis freáticos”. De acordo com a equipe técnica responsável pela fiscalização, o consumo de água na parte baixa do rio também é muito significativo, pois existem centenas de poços tubulares que servem a comunidades da região.

O Peruaçu, último afluente mineiro à margem esquerda do Rio São Francisco, só não secou porque está sendo alimentado pelo Ribeirão Forquilhas. Além de fornecer água a diversas comunidades, ele atravessa o fantástico complexo de grutas do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, sendo vital para o equilíbrio do mesmo. Os dois parques abrigam espécies da fauna que praticamente desapareceram do território mineiro, como queixadas, onças pintadas, cervo-do-pantanal, cachorro-do-mato-vinagre e inúmeras outras também já bastante raras – sucuri, araras, águias, lobo-guará, onça-parda, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, anta e centenas de espécies de pássaros.

No entanto, há alguns outros aspectos em relação ao problema que vale mencionar. Primeiramente, os pontuais. Ou seja, os impactos e riscos que correm toda a riqueza biológica e paisagística da bacia do Rio Peruaçu. Os plantios de eucalipto e outras monoculturas não estão causando impactos somente nas águas, pois ameaçam a integridade das duas unidades de conservação, que não podem ser ilhadas.

O segundo aspecto é a concessão das autorizações dadas pelo IEF sem qualquer estudo, mesmo sendo ele o órgão responsável pela administração e proteção do Parque Estadual Veredas do Peruaçu. O ato revela incoerência, irresponsabilidade, incompetência e descaso com a proteção de uma área tão importante em termos ambientais, e soma-se a outros milhares de exemplos do que todos nós sabemos: Minas nunca teve um governo capaz de cuidar realmente dos poucos ambientes naturais que restaram em seu território; de tratar com seriedade a proteção da água.

E as perguntas são sempre as mesmas: como justificar a substituição da vegetação nativa por plantios de qualquer natureza, com tanta terra desmatada? Para que o governo pagou à Universidade Federal de Lavras (Ufla) para fazer o Zoneamento Econômico e Ecológico do estado se ele não é utilizado para proteger as áreas frágeis e importantes nele indicadas? Por que tanto descaso com as unidades de conservação?

A ampliação do Parque Estadual Veredas do Peruaçu, cercado por latifúndios, é uma das muitas promessas não cumpridas que ouvimos dos últimos governos. Vamos continuar tentando, é claro. Mas haja paciência, esperança e calma para aguentar tanta politicagem ambiental. 

 



Fonte: Revista Ecológico - Maria Dalce Ricas



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