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Por um novo modelo de relações sustentáveis e sem fanatismos

Compartilhe:     |  14 de dezembro de 2014

Recentemente, vi um vídeo no qual o monge budista Thich Nhat Hanh, carinhosamente chamado Thay por seus discípulos, exemplificava a relação entre a mão direita e a esquerda. Ele disse: “Com minha mão direita escrevo poemas. Mas nunca ouvi minha mão direita dizer para a esquerda: você não serve para nada. A mão direita não possui complexo de superioridade em relação à mão esquerda e por isso é muito feliz. E minha mão esquerda não possui nenhum complexo de inferioridade. Portanto existe em minhas mãos um tipo de sabedoria conhecida como ‘não discriminação’.

Dias atrás, continuou o monge, ao martelar um prego, minha mão direita não estava muito firme e martelei um dedo. A mão direita largou o martelo e segurou com muito carinho o dedo da outra mão, como se estivesse cuidando de si mesma. E ela não disse para a mão esquerda: eu cuidei de você, você tem que se lembrar disto. E deve me devolver o favor no futuro. Elas não pensam assim. E não dizem: Mão direita, você me machucou. Me dê o martelo, eu quero justiça! Porque as duas mãos sabem que estão unidas e são iguais, finalizou o mestre Thay.”

Robert Baden-Powell
Robert Baden-Powell

Em algum momento de minha vida, ouvi que deveria deixar o mundo, melhor que o encontrei. Hoje, sei que embora nunca tenha sido um escoteiro, simpatizei com esta mensagem de Robert Baden-Powell e a adotei como uma constante em muitos momentos de minha vida.

Em 88, assumi na Alemanha, por seis meses, a produção de brotinhos, destinados a abastecer as cidades de Munique e Berlim. O casal, dono do negócio, foi passar esse período na Itália.

Ao colocar as sementes de molho para germinar, percebi que a água mudava de cor. Sementes carregam os nutrientes necessários para que o broto recém germinado, ao lançar suas raízes para fora da casca, tenham à sua disposição, algum tipo de alimento. É uma parte do processo que faz com que as plantinhas cresçam com vigor e rapidez. É o que chamo de ‘líquido frutificador’.

Sempre gostei muito de samambaias. Comprei algumas para decorar o escritório do prédio onde os brotos eram produzidos e uma amiga gostou tanto de uma delas que resolvi presenteá-la com o belo vaso. Uns dois meses depois ela voltou com o que restava da samambaia. Ela havia viajado e a planta secou. Os poucos talos que sobraram também estavam secos. Mas ao retirar um pouco da terra, percebi que a planta ainda tinha vida.

Resolvi usar o tal ‘líquido frutificador’ na samambaia semimorta e o resultado foi surpreendente. A planta voltou a crescer, e em poucas semanas suas folhas ficaram até mais compridas que as das outras samambaias que sempre receberam água e adubo químico.

Após 20 anos de permanência na Alemanha, voltei ao Brasil em 2005 e resolvi me dedicar ao meio ambiente. Associei-me a uma ONG ambiental, comecei a escrever e a divulgar notícias e conhecimento sobre o meio ambiente; a elaborar projetos de compensação de impactos ambientais e a exercer outras atividades afins. Em algum momento lembrei-me de que acontecera com a samambaia e resolvi fazer algumas experiências com a água que as sementes ‘sujam’ ao germinarem. Encontrei, aqui em Goiânia, um produtor de brotinhos e pedi a ele que separasse para mim, toda semana, dois galões daquela água escura que geralmente ele jogava fora todos os dias, ao lavar os brotos para que não apodrecessem durante o processo de germinação. Usei aquela espécie de adubo para regar minhas plantas e até mesmo uma árvore que plantei diante da casa onde morava. A árvore se desenvolveu com uma rapidez incomum, com folhas lustrosas e caule frondoso, especialmente se comparada a outra de mesma espécie que já havia sido plantada meses antes na mesma rua.

Conversei com alguns pesquisadores, fui a universidades e a outras empresas envolvidas com pesquisas, mas eles sempre me perguntavam se já havia ‘literatura científica’ a respeito do que eu estava falando e não se interessavam em fazer a pesquisa com o líquido frutificador. E até hoje não existe. Mas existirá em breve, pois encontrei uma estudante de biologia e até mesmo um professor que prometeram comparecer à palestra para a qual este texto deveria servir de base no TEDxGoiânia. Mas não compareceram, apesar de inscritos e aceitos pelos curadores do evento.

Ao perceber que não estavam presentes, resolvi adequar a palestra à “rasteira” que me haviam dado e deixei-me cair ao subir ao palco do Cine Ouro, onde o 3º TEDx goianiense ocorreu, para demonstrar de forma teatral o ocorrido. Felizmente, sou daqueles que se me derem um limão, faço dele uma limonada, ou duas… rsrs

Um sapo foi se consultar uma cartomante e assim que ela distribuiu as cartas sobre a mesa, profetizou: – Vejo uma loira, muito bonita e inteligente, querendo saber tudo sobre você…
– Oba! respondeu o sapo! Quando e onde eu vou conhecer essa gatinha?
– Semestre que vem, na aula de biologia, respondeu a cartomante.

Vilmar Berna
Vilmar Berna

“Sustentabilidade é só um nome grande e feio que criaram para pintar de verde o velho consumismo de sempre.”, como diz meu amigo Vilmar Berna jornalista brasileiro premiado pela ONU com o Prêmio Global 500 em 1999.

Voltei da Alemanha, cheio de energia e muita vontade de poder ajudar nosso país a desenvolver ações sustentáveis. Mas, assim como muitos que se dedicam a ampliar a consciência em torno do meio ambiente no Brasil, decepcionei-me enormemente com a destruição do Código Florestal Brasileiro e também com o fato de nossos legisladores federais terem ampliado para 2018 a regulamentação dos lixões pela incapacidade de gestão da maioria dos prefeitos brasileiros. Portanto tive uma verdadeira crise existencial ao ser convidado para falar sobre um tema que só existe no papel. Mas a oportunidade deveria ser aproveitada, e consegui com muita dificuldade encontrar uma forma de contribuir um pouco com algo ‘sustentável’.

A humanidade, possui um conceito extremamente danoso a respeito de si mesma, aliada e regida pelo capitalismo, que faz com o que o ego se sinta o verdadeiro ‘Rei da Criação’. Entendo que estamos aqui como parceiros da natureza e não como exploradores do planeta.

Mas na verdade, o que interessa mesmo é o que acontece entre e com as pessoas. É a emoção de ser bem recebido por um amigo que te convidou para aquela comemoração, seja onde mora ou em outro local.

É a alegria de poder salvar uma planta que poderia ter sido jogada no lixo. É a satisfação de ver renascer as folhas da samambaia que estava praticamente morta, “ressuscitada” por um tipo de insumo que ainda não foi considerado pela ciência como uma possibilidade.

A natureza não faz nada inútil ou desnecessário. E o interessante é que todas as vezes que conversei a respeito com pesquisadores, agrônomos e até mesmo agricultores, eles me olhavam com um certo ar de incredulidade. O fato de não existir nenhuma literatura a respeito da utilização dos excedentes de uma semente que germina, parece bloquear a capacidade de percepção e até mesmo do ‘espírito científico’ de acadêmicos ou de quem planta.

Hoje, vivemos isolados, muitas vezes acreditamos que os únicos amigos são aqueles que aparecem nas telas de nossos smartphones ou computadores. Quantas vezes nos esquecemos de dizer um ‘bom dia’ ou de sorrirmos para uma pessoa que está ao nosso lado no elevador e de nos alegrarmos quando a outra pessoa, surpresa, nos retribui?

Melhor parar por aqui, não é mesmo? Daqui a pouco alguém vai me rotular com adjetivos tipo ‘ecochato’, ‘eco-xiita’ ou ‘biodesagradável’… rsrs

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Umberto Eco

Umberto Eco, o renomado linguista, autor de ‘O Nome da Rosa’, disse: “Fundamentalistas dão um toque de arrogante intolerância e rígida indiferença para com aqueles que não compartilham suas visões de mundo.” E infelizmente, muitos ambientalistas se enquadram nesta definição.

O melhor que podemos fazer é praticarmos atos ‘sustentáveis’, sem cobranças, sem fanatismo ‘insustentável’. Beeemm, nem sempre é possível ficar no modelito compreensivo e no papel de bonzinho. Eu mesmo já me peguei praticando exatamente o contrário do que acabei de afirmar.

Gro Harlem Brundtland
Gro Harlem Brundtland

As grandes corporações e os governos falharam em seus papéis de tornarem a proposta da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) presidida por Gro Harlem Brundtland há quase 30 anos atrás.

Tentaram fazer algo semelhante ao que o londrino Baden-Powell propôs quando eram comemorados 130 anos de seu nascimento, de deixarmos para trás, um planeta melhor que o que encontramos. Imaginaram “um desenvolvimento que satisfizesse as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” Só que ficou praticamente uma utopia.

Mas se nossos representantes, nas inúmeras conferências mundiais sobre o clima falharam e continuam falhando, o que é que podemos fazer para tornar sustentabilidade algo real? O que dermos conta. Sem a preocupação de que temos que convencer alguém de alguma coisa. Devemos ser o exemplo de alguém que pratica atos sustentáveis, mas sem a arrogância de querermos provar que estamos certos e os outros errados.

Então, o que fazer para que essa tal sustentabilidade faça sentido?

A definição de desenvolvimento sustentável, proposta em 1987, diz que “o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras”, é bom próxima do “deixar melhor que estava” do escoteiro-mor, não é mesmo?

Assim, faço votos que consigamos seguir o exemplo de nossas duas mãos, que apesar de serem simetricamente opostas, quando unidas pelo mesmo interesse cooperam uma com a outra, sem cobranças, sem acusações, ou sentimentos de vingança, mesmo quando o que uma faz chega a ferir os interesses da outra.

Meu desejo é que aprendamos a tolerar nossas diferenças para não nos tornarmos fundamentalistas fanáticos, como muitos ambientalistas já o são, e que consigamos estabelecer relações sustentáveis, vidas sustentáveis, um mundo sustentável… enfim, que a utopia chamada sustentabilidade se torne real.

Fonte: Revista Ecológica – Bosco Carvalho



Fonte: Revista Ecológica - Bosco Carvalho



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