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Possibilidades para uma indústria pesada de baixo carbono na Europa

Compartilhe:     |  4 de maio de 2019

As indústrias intensivas em energia têm condições de alcançar emissões líquidas zero até 2050 e, se forem apoiadas por políticas públicas adequadas, podem contribuir para que as emissões de toda a União Europeia (UE) também sejam zeradas em meados deste século. Esta é a principal conclusão de um estudo publicado nesta quinta-feira (25/4) em Bruxelas, realizado pela consultoria Material Economics e encomendado pela European Climate Foundation (ECF).

A indústria pesada europeia vem apresentando uma estagnação recente na redução de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) e do uso de combustíveis fósseis. Hoje, setores industriais como a siderurgia, cimento e química representam cerca de 14% das emissões anuais da Europa. Se trajetória das emissões não mudar, a indústria pode prejudicar a viabilidade das metas de redução de emissões definidas pela UE no âmbito do Acordo de Paris e afetar negativamente os demais setores econômicos que vêm se esforçando para diminuir o uso de combustíveis fósseis.

O relatório Industrial Transformation 2050 – Pathways to Net-Zero Emissons from EU Heavy Industry analisa o potencial de redução de emissões da indústria pesada na UE e aponta para soluções políticas específicas a serem consideradas pelos formuladores de políticas públicas em sua estratégia industrial.

“Indústrias intensivas em energia são a espinha dorsal da economia europeia e estão bem posicionadas para fornecer insumos fundamentais para a transição de baixo carbono. Para que a Europa possa chegar à neutralidade líquida das emissões do bloco, precisamos avançar em ação climática e na transição da indústria para o baixo carbono”, afirma Laurence Tubiana, CEO da EFC.

Segundo o estudo, a neutralidade climática não é mais uma pretensão distante para a indústria pesada, mas sim algo bastante plausível, com diferentes caminhos para ser viabilizada. Uma economia mais circular oferece respostas importantes, como uma maior eficiência no uso de materiais através da cadeia de valor, que tem o potencial de reduzir as emissões entre 60 e 175 mega toneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO2e) até 2050. Além da economia de material, o reuso também pode ajudar a reduzir emissões da indústria pesada.

Inovação em processos produtivos e aumento significativo da produção de energia renovável também podem ajudar a viabilizar mais cortes de emissões ao longo do tempo. De acordo com o estudo, entre 110 e 200 MtCO2e poderiam ser eliminados até 2050 com a implementação de novos processos industriais. No entanto, essas soluções precisam ser rapidamente desenvolvidas e implementadas para que possam contribuir significativamente até o final da primeira metade do século XXI.

Outro caminho é o avanço na captura e armazenamento de carbono da atmosfera, isso porque nem todas as emissões podem ser diminuídas através de economia circular e eletrificação. Tecnologias para captura e armazenamento de carbono podem ser exigidas para eliminar entre 45 e 220 MtCO2e até 2050. No entanto, o estudo destaca que essas medidas não são soluções plug-and-play, de aplicação imediata, e exigiriam acesso a infraestrutura adequada de transporte e armazenagem.

A descarbonização completa da indústria pesada pode criar oportunidades para a Europa se destacar no esforço para descarbonização da economia mundial. Isso pode se refletir em um aumento de competitividade da indústria europeia, com o desenvolvimento de soluções sustentáveis que serão demandadas em outras partes do planeta. Além disso, trocar a importação de grandes quantidades de combustíveis fósseis e matéria-prima por recursos domésticos pode reduzir de maneira significativa a dependência da indústria europeia de importações energéticas e melhorar a balança comercial do bloco. Os setores de aço, cimento e produtos químicos juntos consomem 6,1 Exajoules (EJ) de petróleo, gás e carvão majoritariamente importados. Uma economia mais circular poderia reduzir essa demanda entre 09 e 3,1 EJ por ano até 2050.

E o custo total da descarbonização da indústria europeia seria muito baixo. Os preços de produtos como automóveis, casas e bens cresceriam menos de 1% para financiar matérias-primas mais caras. No total, os custos para a economia europeia como um todo ficariam em torno de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) projetado para a UE até 2050. No entanto, o impacto negócio-a-negócio pode ser um complicador e deve ser gerenciado de maneira cuidadosa. Por isso, políticas públicas consistentes devem ser implementadas para garantir que as empresas continuem rentáveis durante a transição.

Para que tudo isso aconteça, a ação precisa ser imediata. Um segundo estudo lançado junto com este relatório, Towards an Industrial Strategy for a Climate Neutral Europe, desenvolvido pelo Institute for European Studies com a Vrije Universiteit Brussel, indica caminhos para que a transição energética seja inserida dentro da estratégia corporativa das empresas europeias.

Uma questão-chave é o tempo. Mudanças nas cadeias de valor e nos modelos de negócio deverão levar décadas para serem implementadas e qualquer atraso nesse processo pode complicar tremendamente a transição da indústria europeia para a neutralidade climática. Por isso, os formuladores de políticas públicas na UE precisam desenvolver urgentemente uma estratégia integrada de ações para indústria e clima que garantam que as empresas continuem rentáveis durante essa transição

“A indústria europeia tem um grande desafio pela frente”, aponta Per Klevnäs, sócio da consultoria Material Economics. “Zerar as emissões líquidas até 2050 é possível, mas apenas com esforço incansável para colocar a transição energética no centro da estratégia corporativa das empresas. Muitas organizações já entendem que o status quo é insustentável e que precisamos avançar em torno da descarbonização da economia. Os tomadores de decisão nos governos precisam se atualizar e garantir que o investimento e o comprometimento com uma produção de baixo carbono se tornem a escolha mais lucrativa”.



Fonte: Neo Mondo



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