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Preservação de ave contribui com recuperação de outras 26 espécies

Compartilhe:     |  13 de julho de 2020

Nos últimos 10 anos, mais de 1.500 periquitos cara-suja voaram de alguma das caixas-ninhos, equipamentos que simulam o ambiente natural, instaladas na Serra de Baturité, no Ceará. Isso só foi possível graças ao Projeto Periquito Cara-suja, da ONG Aquasis, que atua na preservação da ave desde 2006.

Em 2010, quando a primeira caixa-ninho foi colocada, estimava-se que a população do animal era de menos de 100 indivíduos. Hoje, a Serra de Baturité abriga 80% dos mais de 800 periquitos na natureza. O salto permitiu que a ave deixasse o status de “criticamente ameaçado” para “em perigo”, um passo importante na preservação da espécie.

Para ter ideia, as duas únicas espécies de aves em perigo de extinção que estão apresentando aumento populacional, atualmente, em todo o país, são o cara-suja e a arara-azul-de-lear, na Bahia, segundo o biólogo Fábio Nunes, coordenador do Projeto da Aquasis: “As outras estão com tendência estável ou de declínio populacional”.

As informações estão no relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), autoridade global na questão ambiental. Para o biólogo, os resultados obtidos com o cara-suja ajudam a criar estratégias para preservar outras espécies ameaçadas no Ceará.

Serra de Baturité

Mais de 1,5 mil piriquitos-da-cara-suja foram soltos na natureza no Ceará nos últimos anos — Foto: Fábio Nunes

Mais de 1,5 mil piriquitos-da-cara-suja foram soltos na natureza no Ceará nos últimos anos — Foto: Fábio Nunes

Segundo o último censo da Aquasis, 657 (79,9%) dos 822 periquitos soltos na natureza estão na Serra de Baturité, considerada a pátria dos periquitos. “É onde tem a maior população e onde existe maior ambiente para essa espécie se perpetuar”, avalia Nunes.

“A gente usa essa ave para preservação, também, desse ambiente”. O Maciço do Baturité (ou Serra), que abrange 13 municípios cearenses, abriga 26 espécies ameaçadas de extinção no Ceará. São 12 aves, 8 mamíferos; 3 plantas; 2 répteis e 1 anfíbio.

Um dos símbolos de resistência na região é o Refúgio da Vida Silvestre Periquito Cara-Suja, Área de Proteção Integral de 39,12 ha, localizada em Guaramiranga. “É um espaço importante, onde temos outras espécies de aves ameaçados de extinção. Foi criada em 2018 e, na época, não tinha nenhum periquito cara-suja. Em 2019, já passaram a se reproduzir lá também e hoje já temos mais de 30 periquitos no local”, ressalta Nunes. Para ter ideia dessa importância, pelo menos cinco espécies só existem, hoje, na Serra – algumas ameaçadas de extinção.

  • Adenophaedra cearensis (Planta);
  • Phyllanthus carmenluciae (Planta); e
  • Vriesea baturitensis (Planta).
  • Rhinella casconi (Anfíbio); e
  • Selenidera gouldii baturitensis (Subespécie de ave).

“Recentemente, o Refúgio foi reconhecido pelo Comitê Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica como posto avançado, o que significa reconhecimento em níveis nacional e internacional”, acrescenta Patrícia Jacaúna, gestora da Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra de Baturité.

“O trabalho desenvolvido em parceria com o Batalhão da Polícia do Meio Ambiente (BPMA) muito tem contribuído com as ações de proteção. Numa região em que há grandes atrativos turísticos e forte especulação imobiliária, tem sido um desafio garantir o objetivo fundamental da Unidade de Conservação, que é proteger dos grandes impactos.”

Segundo Jacaúna, o reconhecimento pelo Comitê gera “facilidades na aquisição de recursos e acesso a programas e projetos da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA)”, por exemplo.

Conforme a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) do Ceará, o Estado possui 91 Unidades de Conservação (UC), sendo 38 particulares, 28 estaduais, 13 municipais e 12 federais – 70 são de uso sustentável e 21 de proteção integral. As Áreas de Proteção Ambiental (APAs) são a categoria com maior concentração no Estado (45,3%).

“É uma das piores categorias porque é quase integralmente composta por propriedades privadas. As pessoas querem construir e isso gera uma especulação imobiliária”, avalia o biólogo Fábio Nunes. Uma solução muito boa se dá pelas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), que são mais restritivas que as APAs e protegem ambientes bem específicos”.

A visão é compartilhada pelo secretário do Meio Ambiente, Arthur Bruno. “Temos estimulado a criação de RPPNs e ajudado os proprietários que têm criado. Um grande estímulo é que o proprietário não paga Imposto Territorial Rural. Em contrapartida, não podem haver atividades econômicas de alto impacto nestas áreas, como mineração ou atividade agropecuária”, ressalta.

O Ceará tem 38 RPPNs. O titular também destaca a importância de se criar um livro vermelho com espécies do Ceará ameaçadas de extinção. “Está na nossa meta criar o livro até o fim do mandato do governador Camilo Santana. A partir desse mapeamento, poderemos estabelecer políticas de preservação e de punição aos infratores”.

Periquito Cara-suja

Em 2010, a Aquasis passou a utilizar as caixas-ninho para facilitar a reprodução das aves, que vinham perdendo o principal ambiente para perpetuar a espécie: os ocos de árvores. “O que a gente fez foi adaptar às características do Cara-suja, com largura, profundidade, quantidade de entradas adequadas”, explica.

Atualmente, um total de 111 unidades estão distribuídas no Ceará e o periquito está presente em três áreas do Estado, além da Serra de Baturité. São elas a Serra Azul, em Ibaretama; Serra do Parafuso, em Canindé; e Serra do Mel, em Quixadá. Indivíduos também foram encontrados na Bahia, mas os estudos ainda estão em análise.

A ave, endêmica do Nordeste, encontra, então, um novo caminho de preservação a partir do empenho de moradores que abraçaram a ideia. Pio Rodrigues Neto, 67, vive há 40 anos na serra e é prova disso. Em sua propriedade, no sítio Sucupira, na cidade de Guaramiranga, existem nove caixas-ninho.

“Em 2017, quando soube que a Aquasis estava fazendo esse trabalho, mandei 50 caixas. Só das nove que tenho no sítio, voaram 63 filhotes neste ano”, conta. Faz parte da minha história de vida. Vou mandar mais uma remessa de caixas e já consegui incentivar várias pessoas a fazer o mesmo”.

Cada caixa custa, em média, R$ 100, e segue um parâmetro para garantir a preservação ambiental. “Ecologicamente não traz nenhum dano”, explica Pio.

O Projeto espera, agora, poder repovoar regiões onde a ave já esteve presente mas, por conta da degradação ambiental e caça, deixou de existir. “O Cara-suja teve seu direito de existir negado em muitos espaços. A gente mandou bichos apreendidos para o Parque das Aves (Paraná) e esses filhotes podem voltar às áreas onde a espécie já existiu. Já temos autorização para reprodução em cativeiro. Com o amadurecimento do Projeto, ainda nesta década, com certeza, isso vai acontecer”. As serras da Aratanha e da Ibiapaba têm potencial para um programa de reintrodução.

Aves ameaçadas de extinção na Serra de Baturité (MMA, 2014):

  • Tucaninho (Selenidera gouldii baturitensis)
  • Chupa-dente-do-nordeste (Conopophaga cearae)
  • Uru (Odontophorus capueira plumbeicollis)
  • Saíra-militar (Tangara cyanocephala cearensis)
  • Arapaçu-de-lafresnaye (Xiphorhynchus guttatoides gracilirostris)
  • Choca-da-mata (Thamnophilus caerulescens cearensis)
  • Vira-folha-cearense (Sclerurus cearensis)
  • Maria-do-nordeste (Hemitriccus mirandae)
  • Jacu-verdadeiro (Penelope jacucaca)
  • Pintassilgo-do-nordeste (Spinus yarrelli)
  • Arapaçu-rajado-do-nordeste (Xhiphorhynchus atlanticus)
  • Periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus)

Além disso, a Serra possui registro de oito espécies de mamíferos ameaçados de extinção:

  • Cachorro-vinagre (Speothos venaticus)
  • Gato-pintado (Leopardus wiedii)
  • Gato-do-mato (Leopardus tigrinus)
  • Onça-parda (Puma concolor)
  • Panthera onça (extinta localmente)
  • Gato-maracajá (Puma yagouaroundi)
  • Mocó (Kerodon rupestres)
  • Rato-da-árvore (Rhipidomys cariri)

Três espécies da flora:

  • Guzmania monostachia
  • Guzmania sanguínea
  • Adenophaedra cearensis

Dois répteis:

  • Cobra-da-terra-dos-brejos (Atractus ronnie)
  • Lagarto-de-baturité (Leposoma baturitensis)

Um anfíbio:

  • Adelophryne baturitensis


Fonte: G1 - Rodrigo Rodrigues



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