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Produção de óleo de coco é mais nociva para o meio ambiente do que a de óleo de palma

Compartilhe:     |  18 de julho de 2020

Plantações de coco afetam 20 espécies ameaçadas por milhão de litro de óleo produzido

Um novo estudo revelou que a produção de óleo de coco, segundo algumas estimativas, é mais prejudicial ao meio ambiente do que a produção do óleo de palma. Plantações de coco afetam 20 espécies ameaçadas por milhão de litro de óleo produzido, enquanto o óleo de palma afeta 3,8 espécies por milhão de litro. 

Globalmente, fazendas de coco ocupam 12,3 milhões de hectares de território, cerca de dois terços da área ocupada pelas plantações de palma, com suas fazendas localizadas, em sua maioria, na Indonésia e nas Filipinas.

Ao invés de posicionar o óleo de coco como um produto a ser evitado, o estudo foca em demonstrar que a produção da maioria dos óleos comestíveis – como o de oliva, soja e canola -, tem impacto negativo no meio ambiente; apesar de tais impactos não serem bem conhecidos ou divulgados.

Para consumidores conscientes, o óleo de palma é o pária das culturas tropicais. Isso por que é amplamente divulgado que as plantações de palma são altamente nocivas à biodiversidade, deslocando espécies em grande risco de extinção, como os orangotangos.

Esse óleo não é o único cuja produção causa danos ao meio ambiente, de acordo com um novo estudo. O documento relata que o público é extremamente desinformado ou enganado em relação à pegada ambiental da maioria dessas plantações. Para ilustrar esse fato, os autores destacam a popular semente coberta por casca de interior carnudo e leitoso: o coco.

De acordo com a essa nova tese, publicada na revista científica inglesa “Current Biology”, a produção de óleo de coco impacta 20 espécies ameaçadas por milhão de litro de óleo produzido. Segundo esses números, o óleo de coco é mais destrutivo do que o óleo de palma, que afeta apenas 3,8 espécies por milhão de litro. Ou até do óleo de soja, que impacta 1,3 espécies. “No entanto, poucas pessoas sabem disso”, diz Erik Meijaard, autor principal do estudo.

“Existe uma discrepância entre o que as pessoas pensam – que é baseado em suas crenças culturais e falta de conhecimento sobre o assunto – e o que a realidade mostra”, diz Meijaard. “Se você não tem acesso ao cenário completo – que, no caso, é a problemática que as plantações de coco trazem para a biodiversidade -, então ninguém vai falar sobre o assunto e não resolveremos o problema”.

Meijaard, que é diretor da “Borneo Futures”, uma consultoria científica baseada em Brunei, na Ásia, e que trabalha com conservação tropical há 28 anos, diz que sempre refletiu sobre o porquê dos conservacionistas e consumidores odiarem palmeiras oleaginosas, mas não as de coco. “Ambas são plantas tropicais que ocupam áreas enormes, previamente ocupadas por florestas naturais”, ele disse. “Por que uma delas foi transformada em vilão e a outra definida como maravilhosa?”

Somente quando Meijaard e seus colegas iniciaram a pesquisa para o estudo que ele começou a entender os reais impactos na biodiversidade causados pela produção de óleo de coco, bem como da cultura de outras oleaginosas. As análises realizadas se basearam em informações da Red List da IUCN, que é uma lista que indica o status de conservação de animais e plantas pelo mundo. A IUCN (International Union for Conservation of Nature) é uma instituição formada por governos e membros da sociedade civil do mundo todo, responsável por rastrear e monitorar o status dos recursos naturais do planeta e atuar em esforços de preservação e conservação. Segundo Meijaard, “os resultados do estudo foram uma surpresa”.

Cocos são cultivados em muitas partes do mundo, mas sua produção está concentrada em fazendas de pequenos produtores nas ilhas da Indonésia e das Filipinas, regiões cuja riqueza de biodiversidade supera as nações do continente por um fator de 9,5 e 8,1 para plantas e animais vertebrados, segundo o estudo. Em escala global, as fazendas de coco ocupam menos espaço do que outras culturas oleaginosas: 12,3 milhões de hectares de coqueirais comparado com 18,9 milhões de hectares de palmeiras. No entanto, o estudo aponta que plantações de coco afetam 66 espécies listadas na Red List da IUCN, incluindo 29 animais vertebrados, 7 artrópodes, 2 moluscos e 28 plantas.

Por exemplo, considera-se que fazendas de coco foram responsáveis pela extinção do Marianne White-eye (Zosterops semiflavus) – pequeno pássaro oriundo das ilhas Seychelles – e pelo desaparecimento da raposa voadora Ontong Java (Pteropus howensis) nas ilhas Salomão, que não é encontrada há 42 anos e acredita-se estar extinta. Outras espécies ameaçadas pelo cultivo do coco são o Sangihe tarsier (Tarsius sangirensis) – pequeno primata endêmico da ilha indonésia de Sangihe -, e o Balabac mouse-deer (Tragulus nigricans) – animal encontrado nas três ilhas das Filipinas.

Meijaard diz que o óleo de coco não deve ser demonizado, mas que consumidores devem se munir de mais informações em relação a ele. “Queremos ser muito cuidadosos aqui para não afirmar que o óleo de coco é um problema muito maior que o óleo de palma”, diz Meijaard. “O que realmente estamos tentando dizer e fazer o público entender, é que todas as comodities agrícolas apresentam questões em relação a biodiversidade”.

Enquanto o estudo em questão foca no coco, também aponta que outras culturas oleaginosas, como a oliva, a soja e a canola apresentam sérios problemas ambientais. Ele cita, por exemplo, um artigo da “Nature” que afirma que máquinas enormes utilizadas na colheita das azeitonas matam 2,6 milhões de pássaros todo ano na região da Andaluzia.

Meijaard e seus co-autores escreveram no estudo que “a produção de azeite, no entanto, raramente preocupa consumidores e ambientalistas. Há inúmeras percepções e a indústria do azeite se vale da crença estabelecida de que é uma prática sustentável, milenar, de tradição que gera um produto cheio de benefícios para a saúde. Assim, a conservação parece ser prejudicada pela miopia e por vieses, frequentemente oriundos de agendas de campanha ambientais”.

“Consumidores precisam entender que todas as commodities agrícolas _e não somente culturas tropicais_, tem impactos ambientais negativos”, declarou Douglas Sheil, co-autor do estudo publicado na “Current Biology” e professor na Universidade de Ciências da Vida da Noruega.

Meijaard espera que o estudo impulsione mais pesquisas sobre o impacto ambiental do cultivo de oleaginosas, para que o público se torne mais bem informado sobre o que consome.

“No momento não temos esse alto nível de informação, disse o estudioso. Ainda há uma falha de conhecimento sobre o impacto gerado em qualquer uma dessas culturas. Então é uma chamada para todos os cientistas, políticos e o público para demandar mais e melhores informações envolvendo a produção e cultivo de commodities.”

Citações:



Fonte: Anda - Elizabeth Claire Alberts (Mongabay) | Tradução de Carolina Felicissimo



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