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Produção orgânica enfrenta questionamentos sobre uma realidade onde nem tudo é perfeito

Compartilhe:     |  5 de junho de 2014

Os alimentos orgânicos são vistos por muita gente como tábua de salvação para a saúde humana, em contraponto aos produtos “envenenados” gerados em larga escala pela monocultura e o agronegócio. A complexidade da produção orgânica, no entanto, traz com ela questionamentos que mostram uma realidade onde nem tudo é perfeito. Persistem problemas como a falta de um controle mais efetivo do uso ou da contaminação por defensivos agrícolas na agricultura familiar de um modo geral, os altos custos de produção e os altos preços ao consumidor e até mesmo o pouco conhecimento a respeito de intoxicações que podem ser causadas por fungos ou bactérias presentes nesses produtos.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), embora afirme que o controle do uso de agrotóxicos pelos agricultores familiares não é responsabilidade sua, e sim da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), adota a política de orientar os produtores a optarem por práticas mais saudáveis: “Todas as iniciativas do MDA promovem ou estimulam a conversão para o manejo sustentável, a agroecologia e o orgânico. Por exemplo, duas Chamadas Públicas para a Sustentabilidade hoje vigentes nas regiões Noroeste e Serrana do Rio de Janeiro têm foco na conversão ao agroecológico e ao orgânico”, diz Sérgio Coelho, delegado substituto do ministério no estado.

Dependência

“Hoje, 70% dos fertilizantes usados na agricultura do Brasil são importados e, se sua importação fosse suspensa, a quase totalidade dos agricultores familiares brasileiros não saberia produzir um quilo de nada”

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, no entanto, reconhece dificuldades: “Mesmo na agricultura familiar, a cultura do uso de produtos químicos não é uma coisa fácil de ser debelada. Tem que haver um processo de conscientização de nossos agricultores familiares. Para tanto, vamos enfrentar o lobby poderoso das indústrias químicas, composto por grupos multinacionais extremamente poderosos do ponto de vista econômico e que não têm nenhum interesse em perder como cliente nem o agronegócio nem os agricultores familiares”, diz José Otávio Fernandes, delegado titular do ministério no Rio.

“Entre veneno e remédio, só muda a dosagem”, brinca Enio Queijada, que é gerente de Agronegócios do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf). Ele lembra que no Brasil “consumimos indiretamente seis litros de agroquímicos por ano e por habitante”, mas admite que “se a gente parasse de aplicar defensivos agrícolas nas plantas, em 16 dias o estoque de alimentos do país acabava”.

A mesma linha de raciocínio é adotada pelo coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Rogério Dias: “Hoje, 70% dos fertilizantes usados na agricultura do Brasil são importados e, se sua importação fosse suspensa, a quase totalidade dos agricultores familiares brasileiros não saberia produzir um quilo de nada”, diz. Por outro lado, mesmo reconhecendo a falta de uma estrutura ideal de fiscalização, os representantes de MDA, Mapa e Condraf dizem confiar no processo de reconhecimento e certificação de produtos orgânicos efetuado pelo governo por intermédio do Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica (SisOrg).

Há quem afirme também que os alimentos orgânicos não são necessariamente mais saudáveis do que os convencionais. Uma pesquisa acadêmica publicada em 2009 na Inglaterra pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, por exemplo, afirma que uma “diferença mínima” de nutrientes foi encontrada entre os dois tipos de produto. Os céticos alegam também que a falta de um controle mais rígido com remédios ou defensivos agrícolas pode acarretar contaminações e intoxicações de grande gravidade nos produtos agropecuários, e lembram casos como a contaminação de sacos de espinafre orgânico por uma bactéria do tipo E.coli, ocorrido em 2006 nos Estados Unidos e que causou uma morte e cerca de 50 internações.

Preço alto

Outro problema ainda sem solução é o elevado preço dos produtos orgânicos, que bate no bolso do consumidor nas grandes cidades brasileiras. Por enquanto, tanto as grandes redes de varejo quanto as lojas especializadas parecem apostar na alimentação orgânica como um nicho de mercado para consumidores de alta renda ou ideologicamente comprometidos. A tática parece dar certo: “As lojas e restaurantes estão cheios. Não é o produto orgânico que é caro, é sua saúde que é valiosa. A agregação de valor aumenta o preço, mas também a qualidade demandada pelo consumidor”, diz Queijada, para quem “o trabalho de algumas cadeias de lojas e supermercados está ajudando mais o setor de orgânicos do que muito chapa-branca”.

Pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que nos dois últimos anos participou de um amplo estudo sobre o mercado brasileiro de orgânicos, André Funcke afirma que o problema do preço alto é particularmente crítico no estado: “O alimento orgânico com preço alto não é a regra geral no Brasil nem no mundo. Em termos mundiais, o sobrepreço varia entre 10% e 30%. No Rio de Janeiro, os orgânicos custam de 200% a 300% a mais que o produto convencional quando vendido nas grandes redes de supermercado”, afirma.

De um modo geral, diz Funcke, a maior causa da elevação do preço final dos orgânicos é a falta de organização coletiva dos produtores, o que tem grande impacto na eficiência da logística da oferta: “Os produtos orgânicos, por exemplo, não podem viajar nos mesmos caminhões que os produtos convencionais”, diz.

“O melhor nivelador de preço é o mercado”, diz Maria Beatriz Martins Costa, diretora do Planeta Orgânico e organizadora do Green Rio. Ela acredita que o setor atingira a maturidade quando oferecer um preço mias razoável: “A partir do momento em que as feiras de orgânicos estão crescendo e oferecendo produtos por um preço mais acessível, necessariamente os supermercados terão que se alinhar porque quem manda é o consumidor. Por isso, é importante a informação, para o consumidor saber onde estão as feiras, etc. Estão crescendo também as entregas em domicílio, e a merenda escolar está dando às camadas mais pobres da população a possibilidade de acesso a alimentos de altíssima qualidade. Acredito que, em médio prazo, os preços cairão na medida em que essas alternativas vão crescendo”.



Fonte: ((o))eco - Maurício Thuswohl



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