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Produtores sofrem com água contaminada a 300 km de Brumadinho, onde barragem da Vale se rompeu

Compartilhe:     |  4 de junho de 2019

Quatro meses depois do rompimento da barragem que deixou 270 mortos e desaparecidos, em Brumadinho, em Minas Gerais, o visual da área afetada agora é outro: parte da lama foi encoberta pelo mato. Mas as pessoas continuam sofrendo as consequências da tragédia a quilômetros de distância do local, a começar pela contaminação da água.

A estrutura entrou em colapso no dia 25 de janeiro e espalhou rejeitos de mineração que atingiram parte das comunidades rurais de Córrego do Feijão e Parque da Cachoeira. O córrego Ferro-Carvão teve seu curso desviado e virou quase um fio de lama, que corre até uma ponte recém construída.

A área virou um canteiro de obras. Perto dali, a empresa instalou uma estação para tratar a água antes que ela chegue ao rio Paraopeba, mas o sistema ainda está em teste.

Os efeitos do rompimento da barragem não ficaram restritos a Brumadinho. Junto com os rejeitos, os prejuízos seguiram o curso do rio, afetando vários municípios.

Em uma expedição pelo rio, a ONG SOS Mata Atlântica analisou amostras da água e concluiu que os rejeitos tinham atingido o Rio São Francisco.

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) chegou a outro resultado. Os técnicos monitoram 18 pontos do rio, passando pela usina de Retiro Baixo, no município de Pompéu, até a hidrelétrica de Três Marias, já no São Francisco.

“Há algum tempo os dados da água já demonstram que [o rejeito] não passou de Retiro Baixo. E em hipótese de passar, não traria alteração na represa de Três Marias. Com nossos dados, a gente acha muito difícil a chegada no Rio São Francisco”, diz Marília Melo, diretora do instituto.

Ela explica que, como o rejeito tem uma densidade grande, ele se depositou no fundo do rio. Quando chove, é revolvido e a qualidade da água volta a piorar.

“A água está contaminada. A gente sabe que houve alteração da qualidade.”

“Em um primeiro momento, isso foi mais fácil, claro. Principalmente nos 40 primeiros quilômetros do ponto onde a barragem está. A gente teve ocorrência de metais pesados, como chumbo, mercúrio, e foi isso que motivou o governo de Minas a suspender os usos”, diz.

Em vários pontos do rio, a Vale vem construindo cercas para impedir o acesso ao rio.

Até a entrada do reservatório da usina de Retiro Baixo, os rejeitos já percorreram mais ou menos 300 quilômetros. A operação da hidrelétrica não foi afetada. No imenso reservatório, o dano foi diluído, mas os vizinhos produtores rurais da região já contam o prejuízo.

É o caso de Crisipo Valadares Jr., que bombeava água do rio para todas as atividades de seu sítio. “O [pessoal do] ‘Meio Ambiente’ veio mandando tirar tudo: bomba, barco, tudo lá do rio.”

Ele conta que parte dos peixes que criava morreu por falta de oxigênio até chegarem os primeiros caminhões-pipa. “Até resolver esse problema da água não vale a pena [insistir na criação de peixe]. Tem dia que não vem, eles começam a morrer de novo, é prejuízo, né?”, diz.

Com medo de a água não sobrar para a irrigação, a roça de quiabo ficou menor. “Na área toda colhia 100, 120 caixas por panha. Agora estou colhendo umas 30.”

A família de Crisipo vendeu três animais para segurar as contas, porque ajuda em dinheiro não chegou. A Vale prometeu pagar uma compensação a todos os afetados durante um ano ano: um salário mínimo por adulto, meio por adolescente e ¼ por criança.

“Disseram que ia chegar. Até hoje não chegou aqui, não”, afirma.

Lucano Heleno da Silva é outro produtor da região que não recebeu. Ele viu seu acesso à água ser fechado e o poço teve a bomba retirada.

“Tem dia que a água chega, tem dia que não. E com isso o gado sentiu. Tirava 800 e estou tirando 280 com o mesmo tanto de vaca leiteira.”

Além da água, o pasto também ficou limitado. “Daqui a uns 30 dias, essa cerca está uns 100 metros retirada da água. A terra é úmida, sobe um capim, enverdece e o gado passa a seca toda com essa extensão da beira do rio.”

O capim secando e a água sem previsão de ser liberada deixam o produtor aflito.

“Como o leite quebrou, eu já estou devendo na cooperativa. Não sei como vou pagar. Não tenho mais condição de comprar porque já estou devendo muito. E não tenho nem um pingo de ração no galpão”.
Segundo ele, cada caminhão-pipa chega com 5 mil litros de água, que só dão para um dia.

Hábitos alterados
Em uma aldeia, em São Joaquim de Bicas, a água vem da companhia de saneamento, mas também há problema. Uma caixa de 5 mil litros foi instalada para atender 220 pessoas.

“A gente já estava acostumado com o rio e não tinha limitação de quantos litros de água gastar. Nossa irrigação da horta foi reduzida e, com o rio sem peixe, a alimentação mudou muito”, afirma Ãngohó, índia Pataxó Hãhãhãe.

Ela conta que a Vale fez um acordo e manda cesta básica e carne para a aldeia. “Muitos não se adaptaram [à alimentação], outros se sentem mal. A gente não tinha o acúmulo de lixo, de enlatado.”

Na beira do rio, os índios lamentam a perda do alimento.

“A gente tirava 30 quilos de peixe para o consumo da comunidade, mais 40 para vender para fora”, diz Ãngohó.

E os pequenos sentem falta da diversão que era nadar nas águas. “Agora não tem mais como, porque está cheio de minério”, diz Patioba.



Fonte: Globo Rural



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