Notícias

Produtos químicos que usamos no cotidiano podem estar nos levando à extinção

Compartilhe:     |  29 de março de 2021

Os plásticos e pesticidas por toda parte podem estar colocando o futuro de nossa espécie em risco.

Se você curtiu os cenários distópicos das séries e filmes “The Handmaid’s Tale”(O Conto da Ama – onde a infertilidade é desencadeada em parte por poluentes ambientais) ou “Children of Men” (Filhos da Esperança – onde a humanidade está à beira da extinção) — e acreditava que essas histórias estavam firmemente enraizadas na fantasia — o livro “Count Down” (Contagem Regressiva) de Shanna Swan servirá como um alerta.

“Count Down”, que Swan escreveu com a jornalista de saúde e ciência Stacey Colino, narra o aumento da infertilidade humana e alerta para consequências terríveis para nossa espécie se essa tendência não reduzir. Swan explica que a razão talvez seja a exposição crescente a “produtos químicos endócrinos” que são encontrados em tudo, desde plásticos, desaceleradores de chamas, eletrônicos, embalagens de alimentos e pesticidas até produtos de cuidados pessoais e cosméticos.

Ela descreve o perigo. Essas substâncias interferem com o funcionamento normal dos hormônios, incluindo testosterona e estrogênio. Mesmo que presentes em pequenas doses, eles representam um perigo especial para fetos e crianças pequenas que estão em fase de crescimento acelerado. Esses produtos químicos com capacidade de interferência hormonal, que podem entrar até mesmo na placenta, têm a capacidade de alterar o desenvolvimento anatômico de meninas e meninos, mudar a função cerebral e prejudicar o sistema imunológico.

Swan é uma conhecida epidemiologista ambiental e reprodutiva que estudou esse assunto por mais de duas décadas. Seu trabalho sobre a queda da contagem de espermatozoides ganhou atenção mundial em 2017. A cobertura da mídia se concentrou em sua descoberta central: de 1973 a 2011, a contagem total de espermatozoides de homens nos países ocidentais caiu 59%. A qualidade também sofreu uma queda vertiginosa, com mais espermatozoides deformados e menos nadadores fortes capazes de fertilizar um óvulo. Talvez o mais importante, o DNA que eles carregam também se tornou mais danificado.

Um estudo que Swan cita em “Count Down” descobriu que pouco mais de um quarto dos homens com disfunção erétil têm menos de 40 anos. Isso pode ser, em parte, porque os níveis de testosterona vêm caindo 1% ao ano desde 1982. A perspectiva para as mulheres também não é boa. A taxa de aborto aumentou 1% ao ano nas últimas duas décadas. Se essas trajetórias continuarem, a fertilização in vitro e outras tecnologias reprodutivas artificiais podem se tornar uma ferramenta amplamente necessária para conceber filhos.

Swan destila informações colhidas de centenas de estudos publicados e, embora alguns soem familiares, a conclusão que ela chega é muito impactante. Esses produtos químicos estão limitando a capacidade das gerações atuais e futuras de ter filhos. Eles poderiam, em última análise, apagar espécie humana completamente.

É por isso que Swan se sentiu obrigada a escrever este livro, que tem implicações apocalípticas. Apesar da publicidade, essas descobertas alarmantes não provocaram mudanças nas políticas ambientais, regulamentos ou demanda pública por substitutos seguros aos produtos nocivos.

O foco do trabalho da cientista na infertilidade masculina marca um ponto de inflexão tardio, com a aceitação da comunidade médica de que a saúde de ambos os sexos é igualmente importante. Quando um casal não pode conceber ou uma mulher aborta, ela geralmente leva a culpa. Swan dissipa os mitos em torno do fracasso reprodutivo. Sim, à medida que as mulheres envelhecem, sua habilidade de engravidar cai, mas Swan nos lembra que o relógio reprodutivo de um homem também está correndo à medida que ele envelhece. Espermatozoides defeituosos, cada vez mais comuns em homens com mais de 40 anos, também podem causar abortos.

Mexer com os mecanismos por trás da queda das taxas de fertilidade é complicado. Embora os produtos químicos artificiais certamente desempenhem um papel relevante, Swan enfatiza que o tempo também é um fator importante, com diferentes impactos para aqueles que foram expostos às substâncias desde o útero, ou quando eram recém-nascidos, adolescentes ou adultos. Ela orienta o leitor sobre os problemas reprodutivos que resultam do contato com desaceleradores de chamas, pesticidas e o que ela chama de “uma sopa de letrinhas” de produtos químicos.

Para os homens, os ftalatos, encontrados em muitos produtos desde plásticos a shampoos, são os maiores vilões, derrubando os níveis de testosterona e a contagem de espermatozoides — e fazendo com que o esperma basicamente cometa suicídio. Nas mulheres, esses produtos químicos podem causar menopausa precoce ou cistos nos ovários, ou podem interromper os ciclos menstruais.

Bisfenol A, um químico onipresente usado em plásticos duros, eletrônicos e milhões de outros itens, afeta ambos os sexos, mas é particularmente preocupante para as mulheres. Interfere na concepção e causa abortos no início da gravidez.

Swan amplia seu argumento documentando como esses produtos químicos estão colocando em risco a sobrevivência de muitas outras criaturas. Deformações genitais estão causando grandes preocupação: pênis distintamente menores em jacarés, panteras e furões, bem como peixes, sapos, tartarugas e aves que parecem ter simultaneamente gônadas de machos e fêmeas e dificuldades de acasalamento em muitas espécies causadas pelo comportamento alterado.

Swan destaca outro nível de risco. A exposição dos pais a esses produtos químicos pode afetar o desenvolvimento sexual de seus filhos. Se uma mulher fuma quando está grávida, a contagem de espermatozoides de seu filho pode cair 40% — e se ele for exposto mais tarde a disruptores endócrinos, sua produção de esperma pode cair a níveis tão baixos que ele se torna infértil. Swan descreve os danos colaterais causados por uma combinação de fatores ligados ao estilo de vida – como estresse ou uma dieta ruim – e a exposição diária a produtos químicos tóxicos. Os efeitos podem se perpetuar por várias gerações.

Embora a maioria das análises de Swan se concentre em países ocidentais, ela descobriu tendências semelhantes na América do Sul, Ásia e África.

No entanto, Swan oferece algum conforto no encerramento da obra, fornecendo conselhos práticos sobre as medidas que os indivíduos podem tomar para proteger sua saúde. Ela vai além das recomendações de estilo de vida, delineando uma tarefa muito mais difícil: expurgar produtos químicos nocivos de nossas casas lendo os ingredientes em itens de banheiro e de limpeza. Escolher produtos de cuidados pessoais que sejam livres de ftalato e livres de parabenos. Abandonando o purificador de ar e produtos perfumados. Não aquecendo no micro-ondas alimentos em embalagens plásticas, certificando-se de filtrar água potável e jogando fora recipientes plásticos de armazenamento de alimentos e panelas antiaderente. As sugestões vão além destas.

Swan perde, contudo, a oportunidade de dar mais atenção às histórias da vida real. Quando ela menciona os indivíduos, seus problemas reprodutivos são descritos sem a história ou contexto que fortaleceria uma narrativa. Há momentos em que uma história pessoal memorável poderia ter suplantado uma descrição anatômica e química bastante detalhada. Há passagens que sofrem do que a própria Swan se refere como “sobrecarga de estatísticas” ou dezenas de nomes de químicos que soam como outro idioma.

No geral, sua conclusão é bem embasada: a necessidade de regulamentação, especificamente políticas federais dos Estados Unidos que exijam que as empresas provem que os produtos químicos são seguros antes de disponibilizá-los no mercado. Os europeus são a favor deste princípio de precaução e estão atualmente eliminando ou proibindo os produtos químicos mais perigosos. Swan ressalta como isso contrasta com a abordagem americana de “inocente até que se prove o contrário”, o que então exige estudos governamentais financiados pelo contribuinte para investigar os efeitos destas sustâncias na saúde.

“Count Down” é um livro importante para quem se preocupa com o meio ambiente, poluição, reproduçãi bem-sucedida ou com o declínio da saúde da espécie humana. Exceto pelos diversos nomes de produtos químicos, ele é escrito em um estilo casual e acessível e será de relevância prática para casais e jovens adultos que estão considerando ter uma família.

A fertilidade já é um problema para alguns que têm filhos mais tarde na vida, quando os efeitos desses produtos químicos podem ser mais pronunciados. Recomendações um pouco revigorantes para mulheres que optam por adiar a gravidez: Congele seus óvulos aos 20 anos como uma apólice de seguro. Para os homens, investigar sua contagem de espermatozoides precocemente pode revelar tendências de infertilidade quando ainda são mais fáceis de corrigir. De forma mais ampla, este livro fornece um alerta que aumenta a compreensão sobre a fertilidade, seus desafios e o reconhecimento de que ambos os parceiros desempenham um papel.

Mas, em última análise, sua conclusão é um apelo por ações nacionais e globais que proíbam o uso desses produtos químicos nocivos e mitiguem os efeitos daqueles que estão afetando a saúde e até mesmo a própria vida em todo o mundo. Swan deixa claro que o futuro de muitas espécies, incluindo a nossa, depende disso.



Fonte: Anda - Shanna H. Swan e Stacey Colino | Traduzido por Luna Mayra Fraga Cury Freitas



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Dente-de-leão: uma planta benéfica também para saúde dos cães

Leia Mais