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Profissionais do Ceará mostram o que fazer para ter um negócio sustentável

Compartilhe:     |  23 de junho de 2021

Você já parou para pensar que você e a sua empresa podem fazer a diferença na vida das atuais e futuras gerações e que para isso você precisa de ajuda especializada? Esta matéria, com foco no Estado do Ceará, faz parte de uma série fruto de um trabalho colaborativo entre três mídias digitais da área de Sustentabilidade com atuação no Nordeste: Eco Nordeste (CE), A Nossa Pegada (PE) e Notícia Sustentável (BA).

No Brasil existem cerca de 309 mil empresas do setor industrial de acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018. Só em janeiro de 2021, no Ceará, foi registrado um aumento de 25% no quadro de empreendimentos em setores variados. Essa porcentagem representa 11.239 novas empresas em apenas um mês.

Tendo em vista esse quadro de crescimento exponencial, mesmo durante uma pandemia, quantas empresas estão preocupadas com o aspecto da Sustentabilidade, entendida como socialmente justaecologicamente correta e economicamente viável? Passa da hora de rever práticas antigas e incorporar novos objetivos.

O fato é: as empresas buscam lucro. Nesta procura desenfreada por dinheiro e por poder, o equilíbrio é desbalanceado. Para nos alimentarmos, vestirmos, morarmos, nos transportarmos, em todas as atividades humanas há impacto. Não há dúvidas. A questão é como minimizá-los.

De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema), as indústrias transformadoras localizadas no Estado descartam uma grande quantidade de resíduos sólidos. Nesses levantamentos, em duas regiões do Ceará, é possível ver qual é o tipo de material que essa indústria produz, seus dejetos, o impacto ambiental e a sua destinação:

 

Esses foram apenas dois exemplos dos danos causados aos sistemas naturais no Ceará. Os resíduos podem ser descartados nas ruas, rios, mares, lixões, aterros sanitários ou simplesmente podem deixar de ser gerados, se levarmos em conta toda a cadeia, desde a extração da matéria-prima, transformação, uso e descarte. Prestadores de serviços podem auxiliar as empresas para reduzir impactos no setor produtivo. São os profissionais da Sustentabilidade.

Profissionais da Sustentabilidade

Para concretizar ações globais que respeitem e busquem recuperar o que foi explorado é necessário um conjunto de atitudes individuais. Seja de modificar atitudes do dia-a-dia pessoal ou criar toda uma política de sustentabilidade de uma empresa, qualquer atitude neste sentido representa uma importante mudança no cenário.

Tendo em vista também que essas preocupação estão cada vez mais afloradas nos consumidores, algumas empresas estão adotando medidas sustentáveis para reduzir seu impacto no Planeta.

Magda Maya é fundadora da empresa de consultoria ambiental Geoanalysis e da Escola de Sustentabilidade | Foto: Karenina Nobre

“Não é mais um opcional, mas a garantia da sobrevivência em um mercado extremamente competitivo. Uma empresa que cuida de questões como essa está zelando pela sustentabilidade do próprio negócio. O que antes era só um diferencial competitivo, coisa de sair na frente, agora não é mais opcional”, contextualiza Magda Maya, fundadora da empresa de consultoria ambiental Geoanalysis e da Escola de Sustentabilidade.

A remodelagem dos negócios para atingir um patamar de diferenciação começa com a contratação de profissionais qualificados para sugerir ações efetivas dentro de uma proposta socioambiental. Para fazer a implementação de medidas que abracem a realidade de cada empresa é necessária uma análise aprofundada do todo que representa a organização.

Existem iniciativas simples que podem ajudar o seu investimento a ser sustentável. A coordenadora do MBA em Planejamento Sustentabilidade Industrial da Universidade de Fortaleza (Unifor), Suellen Galvão, explica que o primeiro passo é se familiarizar com o que trata a Sustentabilidade, conhecendo as premissas, os acordos vigentes, como por exemplo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Em seguida, conseguimos identificar, dentro do negócio, os aspectos mais evidentes e que podem ser reajustados, alterados e/ou impulsionados em direção ao objetivo sustentável que pretende ser alcançado”, explica.

Os ODS foram estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2015, 193 Estados membros da ONU participaram da criação de 17 objetivos e 169 metas que devem ser atingidas até 2030. Confira detalhes sobre a Agenda 2030.

Para conquistar a adequação ambiental necessária, algumas empresas precisam adquirir licenças na prefeitura de cada cidade e, segundo Magda Maya, essa é uma grande dificuldade no processo. “Existe uma ineficiência das instituições públicas e excesso de burocracia. O sistema não é inteligente. Quando precisa renovar, tem que entregar toda documentação outra vez”, revela. A espera para uma resposta a respeito da documentação também é motivo de desconforto para os especialistas ambientais.

Além de ter que enfrentar burocracias nas prefeituras, uma outra dificuldade é a inovação de ações no setor. “Às vezes, as empresas têm uma equipe para fazer a Gestão Ambiental, mas não existe criatividade para propor ações diferenciadas que envolvam arte e uma comunicação diferenciada”, comenta Magda Maya.

Suellen Galvão é coordenadora do MBA em Planejamento Sustentabilidade Industrial da Universidade de Fortaleza (Unifor) | Foto: Rodrigo Franklin

Greenwashing

Um dos primeiros passos para seguir na adequação ambiental é procurar um especialista na área. Não adianta pedir para o primo do sócio, que não tem formação profissional alguma para criar estratégias sustentáveis para o seu negócio. É preciso profissionalizar e levar a sério. Não adianta a sua empresa incorporar a lógica do greenwashing, que em tradução literal significa “lavagem verde”, ou seja, uma espécie de maquiagem sobre a má reputação de uma empresa.

Essa prática cria uma ilusão eco friendly, tenta mostrar que determinada empresa tem uma política de Sustentabilidade, quando, na verdade, ela não preenche nenhum requisito neste sentido. Muitas empresas usam esse artifício para ludibriar o consumidor e investidores que buscam aplicar o seu dinheiro em iniciativas que não sejam agressivas ao equilíbrio ambiental.

Para ajudar a compreender melhor o que seria essa prática, é só pensar na embalagem. No pacote, podem existir informações que mostram que aquele produto foi envolvido com um material 100% natural e reciclável. Mas será que aquela embalagem é necessária ou só um artifício de venda e desperdício de matéria prima?

Rebeca Wermon é diretora de Marketing e Projetos da Yby Soluções Sustentáveis

O processo de tornar o empreendimento sustentável é constituído de ações isoladas que buscam se encaixar nessa lógica ambiental de forma concisa, e não precisa necessariamente ser instantânea. “Esse processo não precisa e nem deve ocorrer com pressa, assumindo várias frentes. É um processo e ponto. A partir do momento em que a empresa decide que buscará a Sustentabilidade, os esforços que serão empreendidos, acontecerão naturalmente a cada conquista alcançada. Um degrau de cada vez e essa escada em busca da Sustentabilidade não tem fim”, salienta a professora Suellen Galvão.Muitas empresas não fazem ideia de como isso é prejudicial justamente por falta de informação. “O greenwashing já me deixou muito mais chateada, muito mais revoltada. Mas, depois de um tempo, eu passei a compreender que as empresas não têm dimensão da Sustentabilidade nos seus negócios e, por isso, elas acabam se entregando a essa prática”, ressalta Rebeca Wermont, diretora de Marketing e Projetos da Yby Soluções Sustentáveis.

A escolha do profissional que vai cuidar de ações sustentáveis é uma parte importante do processo, pois ela vai definir o caminho que a empresa deve seguir. Para esta seleção, Suellen Galvao lista algumas características: formação na área, soft skills (habilidades e competências do século XXI), senso de gestão, liderança, criatividade, inovação, capacidade de comunicação entre as diversas áreas, além de uma boa bagagem de competências técnicas que são adquiridas com especializações e capacitações.

Ela também cita que o aprendizado adquirido não se limita apenas ao que foi estudado no passado, as produções se atualizam e o profissional também deve seguir nessa mesma linha de raciocínio. “É preciso internalizar o conceito de lifelong learning (formação contínua)”, afirma.

A criatividade é parte necessária para esse processo, não basta criar ações que mostrem mais do mesmo. A inovação e a abordagem diferenciada fazem parte de uma assessoria ambiental perspicaz e diferenciada. “Eu sou muito procurada nesse sentido, eles querem algo diferente, criativo e com capacidade de impactar, tanto o público interno quanto o público externo, com a Sustentabilidade”, comenta Magda Maya.

Destaque no mercado

Além dos benefícios de ter um negócio que preza pela Sustentabilidade, Suellen Galvão comenta que existem ainda mais vantagens. “O cerne da Sustentabilidade abriga os três principais pilares de qualquer instituição lucrativa”:

Para muitos, sustentabilidade nas empresas é sinônimo de gasto exacerbado, coisa que só os grandes negócios podem alcançar, mas isso não é verdade. “É bem importante que se entenda essa diferença entre gasto e investimento. Eu penso Sustentabilidade como algo estratégico, em que necessariamente é preciso investir”, aponta Magda Maya.

Gasto seria o empresário perder tempo com ações superficiais e se igualar à concorrência no sentido de ter iniciativas pouco criativas e estratégicas. Com o investimento certo e a ajuda de profissionais competentes os resultados podem ser grandiosos, segundo a consultora em Sustentabilidade. Ela cita o caso da empresa BLD Urbanismo.

Em um condomínio de residências, no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), a BLD Urbanismo aplicou todo o conceito de Sustentabilidade que foi proposto | Foto: Maristela Crispim

“Em um condomínio de residências, no Eusébio (município da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), eles aplicaram absolutamente todo o conceito de Sustentabilidade que foi proposto. Foram além e aceitaram aplicar uma metodologia reconhecida internacionalmente que é a Valorização de Serviços Ecossistêmicos. Ou seja, será um condomínio completamente sustentável e isso rendeu para eles uma premiação no Master Imobiliário Nacional. Esse reconhecimento foi tanto pelas questões urbanísticas, como pelas ações de Sustentabilidade”, destaca Magda.

Além de ter a certeza de que o trabalho foi bem executado, a equipe responsável pelas orientações foi agraciada com uma réplica do troféu como forma de agradecimento. “É um exemplo que eu particularmente gosto muito de mencionar. Me sinto muito orgulhosa por ter participado disso”, afirma.

Vestuário sustentável

Além de usar matéria-prima reciclada em seu principal produto, a Vida BR ainda colabora com projetos de cunho social

Não é possível dizer que há muitas empresas sustentáveis no Ceará. A verdade é que pode ser um desafio tornar-se 100% sustentável, mas há empreendimentos que estão no caminho para esse objetivo. “Uma empresa que admiro é genuinamente cearense: a Vida BR. Além de usar matéria-prima reciclada em seu principal produto, ainda colabora com projetos de cunho social”, comenta Suellen Galvão.

A Vida BR, fundada em 2012, nasceu com uma iniciativa para ajudar os sertanejos do Ceará a passar pela pior seca dos últimos 50 anos. Foi criada uma campanha que destinava o dinheiro da venda de peças de roupas para comprar água e alimento. “Em menos de um mês, nós vendemos 500 peças. O valor arrecadado foi revertido em 16 mil litros de água e três toneladas de alimentos”, conta o CEO da empresa, Rafael Studart.

Todo esse engajamento resultou em compartilhamentos, likes e 500 mil seguidores em 2012, o que mostra que ações assim também são convertidas em engajamento nas redes sociais, e benefícios para os negócios.

“O que eu vejo nesse tempo, de oito anos para cá, é que mudou muita coisa. Há pouco tempo, a pessoa não dava 1 real a mais em um produto desse (material reciclado). Podia  achar legal, interessante, mas não pagava a mais. Hoje já tem uma outra concepção”, comenta.

Além de produtos feitos com garrafas PET, a Vida BR ainda recicla papel, com a ajuda do Projeto Resgate e faz uma transformação nesse material para abrigar sementes. Ou seja, no lugar de ser descartado esse produto é reinventado e transformado em etiqueta para as peças de roupas e que depois podem ser plantadas. “Desde o começo da Vida BR nós trabalhamos dessa forma, na linha da Economia Circular”, afirma Rafael Studart.

Rafael Studart é o CEO da Vida BR


Sustentabilidade deriva da expressão
Desenvolvimento Sustentável, que, na década de 1990 foi estabelecido como só possível se considerados os três pilares: econômicosocial e ambiental, ou seja, só é possível se for economicamente viávelsocialmente justo e ecologicamente correto.Sustentabilidade

A necessidade de tornar-se sustentável veio do reconhecimento que os recursos naturais são finitos. A Sustentabilidade visa a manutenção do equilíbrio ecossistêmico ao mesmo tempo em que as empresas lucram e oferecem condições dignas aos trabalhadores e às comunidades com as quais convive, de forma a manter o planeta habitável para futuras gerações. A pandemia serve também para alertar sobre a interferência dos seres humanos neste equilíbrio.

Economia Circular

O modelo econômico mais seguido ainda hoje é o linear. Ele consiste, basicamente, em recursos, produção, consumo e resíduos. Neste cenário não é levado em conta o impacto ambiental sobre as ações e o destino dos resíduos.

A extração de matérias-primas da natureza é feita de forma desordenada, sem ter a preocupação em esgotar recursos. Este modelo econômico não tem uma sobrevida de longo prazo porque tende a extinguir os próprios recursos. Além disso, também não é interessante para os consumidores, pois a volatilidade dos preços é maior, quanto menor a disponibilidade, maior vai ser o preço do produto.

Dessa forma é possível perceber que a Economia Linear, do ponto de vista da Sustentabilidade do Planeta e da própria empresa, não é um caminho interessante a seguir. A Economia Circular, por sua vez, aposenta a visão centralizada no consumo exacerbado e propõe solução para a garantia da sobrevivência do Planeta, das pessoas e dos negócios.

Ela gira em torno de extrair, consumir, reutilizar e reciclar. Propõe que os produtos não precisam necessariamente poluir de forma tão agressiva. O uso inteligente dos recursos é o princípio da Economia Circular, que visa diminuir o impacto ambiental da extração de recursos e descarte de resíduos.

A Yby Soluções Sustentáveis capacita profissionais das próprias empresas assessoradas para a função de composteiros

Essa visão sustentável não só é necessária para a sobrevivência como é interessante do ponto de vista do lucro empresarial. Um material pode ter mais de uma finalidade, além da original. Ele pode ser reaproveitado para criar novos produtos e, dessa forma, voltar para as prateleiras de venda. A Economia Circular faz uma união entre o pensamento e as ações sustentáveis com a realidade de crescimento empresarial do mundo globalizado.“Eu acredito que a Economia circular é a nossa luz no fim do túnel. É a nossa ferramenta de transição para evolução. Não é uma evolução do sistema, mas sim uma evolução de mentalidade social porque ela permite que a gente consiga ter perspectiva do futuro. Ainda vivendo para se relacionar, produzir e consumir, mas conseguindo conectar isso num ciclo que propõe recuperar materiais que podem ser utilizados em novos processos produtivos”, afirma Rebeca Wermont.

Esta foi a segunda matéria da série Sustentabilidade Empresarial no Nordeste. Na próxima semana (28) será a vez de conhecermos o que empresas de Pernambuco têm feito nessa área tão importante para a sociedade. Até breve!

Quais são as iniciativas sustentáveis que a sua empresa está implementando? Conta para a Agência Eco Nordeste pelo e-mail: agenciaeconordeste@gmail.com ou comenta nas nossas redes sociais.



Fonte: Eco Nordeste - por ISABELLI FERNANDES



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