Entrevista

Progresso ou atentado ambiental? Filme debate inundação de Sete Quedas para construção de Itaipu

Compartilhe:     |  9 de junho de 2018

Primeiro longa-metragem da cineasta Heloisa Passos, “Construindo Pontes” explora sua relação com seu pai, engenheiro, e suas opiniões sobre a inundação de Sete Quedas para construir Itaipu; confira entrevista exclusiva

Antes de Itaipu se tornar a maior usina hidrelétrica já construída no mundo, a região que abriga uma das sete maravilhas naturais do mundo contava com outra pérola da natureza, que foi inundada durante a construção do projeto. As Sete Quedas, que se localizavam na cidade de Guaíra (PR), eram as maiores cachoeiras do mundo em volume de água. Em 1966, a Ata de Itaipu decretou sua inundação, para criar o lago da usina hidrelétrica.

Esse foi o mote da cineasta Heloisa Passos para seu primeiro longa-metragem, Construindo Pontes. O documentário explora em seu roteiro o relacionamento de Passos com seu pai, que trabalhou como engenheiro durante a época da ditadura militar, justamente na construção de pontes, tendo como pano de fundo a construção da usina. O filme, que estreou em 19 de abril, ficou seis semanas em cartaz em Curitiba. Nesta semana, ela vem à capital para debater o longa em universidades em sessões abertas ao público.

A HAUS conversou com a diretora para entender por que a construção de Itaipu foi o ponto de partida para seu filme, e quais são suas visões sobre a perda de patrimônios naturais como Sete Quedas em detrimento da construção de usinas. Além de cineasta, Heloisa Passos já foi diretora de fotografia de mais de 20 filmes, tendo recebido inúmeros prêmios nacionais e internacionais.

No filme, você ganha um pacote de filmes com vídeos das Sete Quedas. Foi isso que te levou a fazer o documentário? Como isso te motivou?

Meu primeiro passo realmente foi ter ganhado imagens das Sete Quedas em Super-8. Eu sou de uma geração que ouvia que Sete Quedas ia ser inundado. Eu queria ter ido para lá, mas não fiz essa viagem. Meu tio-avô foi pra lá meses antes da inundação e trouxe dois postais que eu guardo até hoje — uma memória afetiva com o lugar que desapareceu.

E o que me projeta isso é um questionamento: o que precisa se destruir do antigo para criar o novo? Construir para destruir está em todo lugar na sociedade. O mundo não se questiona se as questões sociais e ambientais vão gerar impacto. Nesse pensamento mais conversador, desenvolvimentista, que é o ponto de vista do meu pai, ele diz que nada pode parar o progresso. Eu pergunto: e onde fica a gente, seres humanos?

Como você vê os impactos ambientais que a construção da usina trouxeram para a região?

A sustentabilidade é um conceito muito novo. No Brasil, isso só vai ser realmente pensado na ECO92, no Rio de Janeiro. É bom lembrar também que nos anos 1980 não tínhamos movimentos que defendem o meio ambiente — o Greenpeace chegou ao Brasil em 1992.

Salto de Sete Quedas, antes da inundação. Foto: Mario Cesar Mendonça Gomes/Flickr

Itaipu é a maior usina hidrelétrica em produção de energia até hoje. O Brasil é um dos países que mais utiliza energia hidráulica, uma energia renovável. A gente pensar em fazer usinas hidrelétricas desse tamanho é inviável em um mundo sustentável. As perdas são muito grandes.

“Nada pode parar o progresso”: nos anos 1970 não existia um diálogo e não se falava de desenvolvimento sustentável. Houve perdas na quantidade de pessoas que morava em Guaíra, houve um impacto social muito grande na cidade. O Rio Paraná virou lago, ficou completamente navegável, com uma fronteira de difícil controle.

Como essa temática é explorada durante o filme através da sua relação com seu pai?

O coração do filme é a relação entre pai e filha, duas pessoas que pensam diferente mas se aceitam, e a possibilidade que existe de conviver junto mesmo pensando diferente. O mais importante não é o conflito, mas a aceitação. Mesmo pensando um Brasil de pontos de vista diferentes a gente consegue conviver.

A polarização que a gente vive hoje é muito forte, as pessoas não conseguem entrar em acordo. O Construindo Pontes é realmente uma ponte afetiva que a gente consegue construir, independente dessas divergências. Existe dicotomia mas existe relacionamento.

A profissão do seu pai impactou de alguma forma o relacionamento de vocês?

Teve influência no momento onde eu estava em formação, no meu primeiro vestibular. Com 16 anos eu quis fazer engenharia agronômica, fiz dois anos e descobri que meus desejos mais humanos ligados à defesa da natureza não estariam se enquadravam nos anos 1980, no curso de agronomia. Então eu tranquei e fui estudar ciências sociais.

Mesmo com a chegada de movimentos ambientais no Brasil, como o Greenpeace, como você citou, nós vimos um novo debate sobre essa temática acontecer nos últimos anos: a construção de Belo Monte na cidade de Altamira, no Pará. Você acha que houve evolução no debate ambiental ou ele ainda não trouxe efeitos práticos para o país?

Belo Monte é de uma agressividade tamanha, e também foi assinado na época da ditadura. Eu tenho muita crítica a isso. Não é ser contra energia hidráulica, que é renovável, mas no século 21 não podemos fazer projetos em que não se pense em questões sociais e ambientais.

Lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu, após a inundação das Sete Quedas. Foto: divulgação/Construindo Pontes

Essas questões estão em todos os meios, estão no próprio projeto da sua casa: precisa incluir coleta de água de chuva, de janela que aproveite o sol. Tem tudo a ver com a arquitetura, em que se pensa na questão socioambiental da moradia, do urbanismo.

A gente vem brigando os donos do Brasil, que fazem com que projetos monumentais sejam construídos ainda sem essa base. O problema é muito político, o grande embate é o projeto político do país, que faz obras irracionais. Sete Quedas era um patrimônio da natureza que desapareceu em nome do progresso. A necessidade dessa energia elétrica existe, só o que deveria estar na mesa é construir usinas hidráulicas pequenas.



Fonte: Gazeta do Povo



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Lei que proíbe piercings e tatuagens em animais é sancionada no Distrito Federal

Leia Mais