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Projeto incentiva 40 mil produtores a cultivar arroz agroecológico no oeste da Índia

Compartilhe:     |  13 de abril de 2020

Quarenta mil pequenos agricultores do estado de Chhatísgarh, oeste da Índia, aderiram ao plantio de arroz agroecológico nos últimos 17 anos. O Sistema de Intensificação de Arroz (SRI, na sigla em inglês) não utiliza venenos químicos, eleva a produtividade e evita o desperdício de água.

Nas áreas de cultivo, não há barulho de colheitadeira ou trator: só se ouvem as aves e os cachorros. Tudo é manual, desde a preparação do solo, com arado e enxada, até a colheita. E os agrotóxicos passam longe.

A popularização do SRI no estado é a concretização de um sonho para Jacob Nellithanam, ativista pelos direitos dos camponeses. O indiano explica por que o arroz é um cultivo estratégico para a disseminação das práticas agroecológicas no país. “O arroz é o principal cultivo na Índia. Quase dois terços dos indianos consomem arroz todos os dias, e mais da metade comem duas ou três vezes ao dia, no café da manhã, no almoço e na janta”, ressalta. “E o arroz pode ser cultivado durante a estação chuvosa, que chamamos de monções”.

O SRI foi desenvolvido na ilha de Madagascar, país próximo à costa sudeste da África. Na década de 1980, agricultores e pesquisadores descobriram uma forma de quadruplicar a produtividade plantando mudas de arroz ainda jovens.

Uma das principais diferenças é a distância entre as mudas no solo, visivelmente maior que nos cultivos convencionais. A ideia é que as raízes tenham espaço para crescer e todas as folhas fiquem expostas ao sol, estimulando a fotossíntese. O solo é mantido úmido, mas não continuamente irrigado ou alagado, o que reduz a necessidade de água em até 60%.

Quando conheceu a técnica aplicada na África, Jacob logo se deu conta da importância que ela poderia ter em Chhattísgarh, onde as chuvas são mal distribuídas ao longo do ano.

“A maioria das áreas em Chhattísgarh não são irrigadas, porque as chuvas só ocorrem durante três meses do ano – da metade de junho até a metade de setembro. Porém, existe um potencial produtivo se você aprender a manejar a água das chuvas”, observa.

O projeto foi acolhido pelo Grupo de Apoio à Saúde do Povo (JSS, na sigla em hindi, idioma local), organização sem fins lucrativos que oferece serviços de saúde a 1,5 milhão de pessoas vulneráveis.

As primeiras experiências, com 50 agricultores de cinco vilarejos diferentes, permitiram um aumento de até 50% na produtividade, superando as 5 toneladas de arroz por hectare.

O resultado positivo abriu as portas para uma parceria com o governo local. Hoje, Jacob coordena oficinas e ações para promover o SRI em Chhattísgarh, além de fornecer assistência técnica para produtores de 2 mil vilarejos que já aderiram à agroecologia.

O ativista, que também integra o JSS, considera necessário disputar as políticas agrícolas por dentro das instituições. Se houvesse uma distribuição mais justa dos subsídios estatais, por exemplo, a agroecologia poderia se tornar mais rentável que os cultivos tradicionais mesmo para os grandes produtores.

“Se você calcular o custo total, é quase o mesmo por área cultivada. Para os grandes latifundiários, porém, hoje pode ser mais caro, em termos de custo de produção”, pondera. “Mas, ao mesmo tempo, se você desconsidera os subsídios que eles recebem para fertilizantes e irrigação, por exemplo, [o SRI] já se tornaria mais vantajoso comparativamente”.

O SRI é adotado exclusivamente por pequenos agricultores em Chhatísgarh. Mais de 80% da produção é para consumo próprio. O problema não é falta de demanda, mas a ausência de políticas públicas de distribuição ou comercialização da produção orgânica.

Outro desafio é a popularização da agroecologia em outros cultivos, não apenas por sua rentabilidade, mas como um compromisso ético. “O SRI não se aplica só ao arroz. Agora, estamos implementando esses princípios no cultivo de trigo e outros tipos de leveduras. Basicamente, temos um conjunto de princípios de agricultura orgânica e ecológica, e as formas de aplicação variam conforme o cultivo”, explica.

Se até 1990 o SRI era criticado por não ter comprovação científica, hoje ele é reconhecido pelo Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz como uma iniciativa revolucionária. Com o passar dos anos, as técnicas foram aprimoradas e se espalharam pelos cinco continentes. Só na Índia, já são 300 mil produtores em 14 dos 29 estados. Em alguns casos, as mudas jovens são substituídas pela semeadura direta, mas os demais princípios do sistema são preservados.

A Índia tem mais pessoas passando fome ou desnutridas do que 40 países do continente africano juntos. Além disso, um a cada cinco seres humanos sem água no planeta são indianos. Superar a lógica do agronegócio, segundo Jacob, é o primeiro passo para superar essas mazelas.



Fonte: Brasil de Fato



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