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Projeto transforma cadáveres em adubo na Carolina do Norte, nos EUA

Compartilhe:     |  24 de abril de 2015

O corpo da senhorinha de 78 anos, com os cabelos grisalhos caindo sobre os ombros enrijecidos, foi trazido para um campo na Universidade de Western Carolina ainda vestido com o roupão azul do hospital e suas meias esverdeadas. Ela foi colocada no chão sobre uma cama de lascas de madeira e, logo em seguida, mais pedaços de madeira foram colocados sobre a mulher. Se tudo seguir conforme o planejado, seu corpo irá se transformar em adubo.

Esse é um novo passo para o movimento que propõe enterros naturais. Mesmo que um número crescente de pessoas opte por ser enterrada em caixões mais simples ou biodegradáveis, os cemitérios urbanos continuam cada vez mais superlotados. Para as pessoas com consciência ambiental, a cremação é uma escolha problemática, já que o processo libera gases do efeito estufa.

Armada com uma importante bolsa de estudos ambientais, Katrina Spade, uma arquiteta de 37 anos que vive em Seattle, propôs uma alternativa: um lugar onde possa ser feita a compostagem dos corpos humanos.

A ideia tem atraído a atenção de ambientalistas e cientistas. A mulher que foi colocada sobre a cama de lascas de madeira é o primeiro passo na tentativa de descobrir como isso pode ser feito.

“Quando falamos em compostagem, as pessoas pensam em cascas de banana e pó de café, mas nossos corpos também têm nutrientes. E se pudéssemos alimentar novas vidas depois que morrêssemos?”, disse Katrina.

Os cientistas concordam que os corpos humanos podem ser compostados. Inúmeras fazendas nos EUA, incluindo pelo menos um terço das fazendas leiteiras do estado de Washington, compostam os corpos do gado que morre. Em alguns estados, os departamentos de estradas e rodagem compostam os corpos de animais mortos nas vias.

“Tenho certeza absoluta de que isso pode funcionar”, afirmou Lynne Carpenter-Boggs, cientista de Solo na Universidade do Estado de Washington que faz parte do conselho do Projeto Morte Urbana, a ONG fundada por Katrina.

O processo é surpreendentemente simples: basta colocar materiais ricos em nitrogênio, tais como animais mortos, dentro de um monte de material rico em carbono, como madeira ou serragem, acrescentando umidade ou um pouco a mais de nitrogênio e fazendo outros ajustes conforme a necessidade. A atividade microbial vai cuidar do resto.

As bactérias liberam enzimas que quebram o tecido em componentes como aminoácidos e, por fim, as moléculas ricas em nitrogênio se unem às ricas em carbono, criando uma substância similar à terra.

As temperaturas chegam a passar dos 60 graus centígrados e o calor ajuda a matar patógenos comuns. Se o processo for feito corretamente, não há cheiro desagradável. Os ossos também são compostados, embora demorem mais que os tecidos moles.

Katrina criou um edifício para compostagem humana cujo objetivo é unir a eficiência desse processo biológico com o ritual e o simbolismo esperado pelos entes queridos. Cada espaço do “Projeto Morte Urbana” se concentra em torno de uma câmara funerária de três andares que ela chama de “o centro”. Os entes queridos podem levar o morto enrolado em um tecido através de uma rampa circular até o topo.

Ali, durante uma cerimônia de “descanso final”, os enlutados colocam o corpo dentro da câmara funerária, que pode conter até 30 corpos de cada vez. Ao longo das semanas seguintes, os corpos vão descendo pelo centro até que o primeiro estágio da compostagem chegue ao final. No segundo estágio, o material seria separado, junto com quaisquer ossos que tenham sobrado, e o composto seria curado.

Katrina estima que cada corpo, combinado com os materiais necessários, como cavacos de madeira e serragem, produziria cerca de um metro cúbico de composto.

Semanas ou meses mais tarde, os parentes poderiam coletar parte do composto para utilizar conforme desejem, talvez como adubo para o jardim ou para plantar uma árvore. Katrina prevê que o restante iria para parques e florestas da região. A compostagem de cada corpo custaria em torno de US$2.500, uma pequena parcela dos custos com enterros comuns, ela estima.

Ela espera poder construir o primeiro local de compostagem em Seattle, desenvolvendo um padrão para que outras comunidades possam projetar seus espaços. “Como bibliotecas”, afirmou.

Katrina, que é muito sorridente, está longe de ter um aspecto fúnebre; ela é uma pessoa cheia de energia e as vezes percebe que precisa falar mais devagar. Ela estudou Agricultura Sustentável antes de se formar em Arquitetura. A ideia da compostagem se baseou nos “troncos-enfermaria”, árvores caídas na floresta que ajudam na formação de novas formas de vida à medida que apodrecem.

Além dos benefícios ambientais da compostagem humana, ela acredita que também exista um benefício espiritual: conectar a morte ao ciclo da natureza ajuda as pessoas a encararem a própria mortalidade, trazendo conforto aos familiares e amigos.

Os enterros convencionais estão longe de ser naturais. Os cadáveres são embalsamados com líquidos que contêm formol, uma substância que pode causar câncer. Eles são enterrados em caixões feitos de madeira e metal e colocados em uma cripta feita de concreto.

Embora sejam comuns nos EUA, as tradições funerárias são relativamente novas e começaram durante a Guerra Civil, quando as famílias do norte queriam recuperar os corpos de seus parentes mortos no sul.

“O engenho norte-americano”, de acordo com Gary Laderman, professor da Universidade Emory especializado em História da Morte nos EUA, “fez o embalsamamento se tornar tradição”.

Os rituais de morte podem passar do repugnante ao normal em muito pouco tempo, de acordo com James Olson, diretor funerário em Wisconsin além de chefe do grupo de funerais ecológicos da Associação Nacional de Diretores Funerários dos EUA.

Um bom exemplo é a cremação. “Se eu dissesse há 50 anos que nós queimaríamos seus entes queridos a mais de 1000 graus, pulverizando seus esqueletos em uma máquina e devolvendo o que sobrasse dos ossos moídos”, afirmou, “você teria ficado com nojo”.

Ele vê o conceito de Katrina como uma alternativa “maravilhosa”.

Contudo, antes de tudo ela e seus apoiadores no Projeto Morte Urbana precisam encarar uma série de obstáculos. Sem falar no nojo.

Muitos americanos veem a ideia da compostagem de corpos humanos com muita repulsa; como uma contravenção às normas culturais e religiosas. Um crítico no site da Morte Urbana comentou: “Isso SÓ PODE ser piada. Se não for, só existe uma palavra para descrever o que vocês estão fazendo: DOENTIO”.

Outra pessoa escreveu: “Uma pilha de corpos é o que chamamos de ‘vala comum’. Parem já com isso”.

Além disso, ainda existem barreiras legais. As leis estaduais variam: nos últimos anos, muitos lugares legalizaram a hidrólise alcalina, também conhecida por cremação por água, por meio da qual os corpos são dissolvidos em uma mistura quente de água e lixívia. Mas em muitos outros estados, os corpos precisam ser enterrados, cremados ou doados para a ciência.

Ainda não se sabe como a compostagem humana deve ser utilizada. Determinados patógenos, como os priões ligados à doença da vaca louca, podem sobreviver à compostagem e animais que morreram em decorrência de determinadas doenças não podem ser compostados.

Alguns especialistas recomendam que o produto da compostagem do gado não seja espalhado em campos onde frutas e vegetais são produzidos para o consumo humano.

Assim como no caso da cremação, a contaminação por metais pesados ainda preocupa; é possível que as obturações tivessem de ser retiradas dos dentes. “Ainda precisamos conversar muito com a comunidade médica e o departamento de saúde”, afirmou Lynne Carpenter-Boggs.

Contudo, Katrina não pretende parar.

Recentemente, ela e Cheryl Johnston, antropóloga forense da Universidade de Western Carolina, voltaram à estação de pesquisa na universidade. Doze corpos estão se decompondo a céu aberto, servido de laboratório para que os estudantes de Ciência Forense possam aprender a analisar os restos mortais. Em um dos lados estava o corpo da senhora de 78 anos, que havia sido doado pela família e estava há três semanas em uma cama de lascas de madeira.

Depois de tirar parte da madeira, eles expuseram a mandíbula e parte do peito da mulher. A temperatura do monte era de apenas 10 graus.

“Ainda não aconteceu muita coisa”, afirmou Cheryl.

Katrina tentou não ficar triste. “Não estou surpresa. Quer dizer, eu estaria pulando de alegria se o termômetro marcasse 50 graus.”

Em uma ligação na manhã seguinte, Lynne, a cientista de solos, sugeriu o acréscimo de materiais ricos em nitrogênio para acelerar a compostagem.

No caso do gado, o estrume seria ideal, afirmou, mas isso não seria apropriado para os humanos. Ao invés disso, ela recomendou o uso de alfafa.

Katrina sorriu. “Quem não gostaria de ser enterrado com alfafa?”, perguntou.



Fonte: Uol - Catrin Einhorn - The New York Times



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