Espécies em Extinção

Quase duas mil espécies estão em risco de extinção no Espírito Santo

Compartilhe:     |  21 de dezembro de 2019

Diversos animais que existiam no estado já foram completamente extintos no território capixaba, como a jacutinga, a ariranha, o peixe-boi e a arara vermelha

O jacaré do papo amarelo (Caiman latirostris), única espécie que existe no Espírito Santo, está em risco de extinção

Já imaginou saber quais as espécies de mamíferos ou répteis estão ameaçados de extinção no Espírito Santo? Ou ter uma mínima noção de quais espécies não existem mais na fauna capixaba? Ou, por exemplo, identificar o tipo de fauna e flora existente na localidade onde será construído uma indústria?

Essa é a missão do projeto “Revisão da Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção do Espírito Santo”, que será lançado nos próximos dias. De acordo com o coordenador do projeto, o biólogo Claudio Nicoletti de Fraga, o dado atual, de 1874 espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção no estado, foi comparada a de 2005, quando 950 espécies constavam na lista.

“Tudo começou com a criação de um software para atualizar a lista de espécies que podem entrar em extinção, que se tornou exemplo na área ambiental em todo o país. Esse software é pioneiro em nível nacional, nós somos o segundo estado do Brasil que revisa a lista. Foram definidos vários grupos de conhecimento nas mais variadas especialidades: anfíbios, répteis, invertebrados, briófitas, peixes etc. Garimpamos todo o estado, até chegarmos a esse resultado final: são mais de 1800 espécies ameaçadas de extinção, sendo 1.430 da flora e 444 da fauna”, afirma o biólogo.

Após o trabalho de coleta e levantamento de informações, mais de 300 pesquisadores de todo o mundo, como China, Suíça e França fizeram uma avaliação de risco das espécies candidatas de forma virtual. Eles validaram os graus de ameaça para todas as espécies que foram incluídas na consulta ampla, gerando uma base de dados robusta sobre a ocorrência de espécies ameaçadas no Espírito Santo.

“Nós vamos entregar para o governo do Espírito Santo uma lista de prioridades: elencamos as espécies que mais correm riscos, avaliamos os impactos para plantas e animais. O próximo passo é o poder público formular um plano de ação: olhar para esse estudo e definir como agir perante esse quadro. A listagem representa um documento político para tomadas de decisões baseadas em conhecimento científico sobre a biodiversidade e que há mais de 13 anos não era atualizada”, afirma o biólogo.

Uma espécie da fauna capixaba que já foi extinta, de acordo com o estudo, é a arara-vermelha. Muitas vezes confundida com a arara-macao (Ara macao), por suas cores e tamanho, a arara-vermelha (Ara chloropterus) é uma ave que vive na Mata Atlântica e, embora essa espécie não esteja ameaçada de extinção no Brasil, não há mais registro dela no Espírito Santo.

Foto: Afonso de Bragança
A arara-vermelha (Ara chloropterus) foi extinta do Espírito Santo.

O coordenador do projeto ainda lembrou que outros animais que existiam no Espírito Santo anos atrás já foram completamente extintos no território capixaba, como a jacutinga, a ariranha, o peixe-boi e a arara vermelha.

“Não é possível culpar somente o poder público pelo aumento expressivo no número de espécies em risco de extinção. De 2005 até os dias atuais, aumentamos o conhecimento em relação as espécies, aperfeiçoamos o método de trabalho para garantir, com mais exatidão, o resultado final. Hoje, temos um sistema de avaliação robusto e que, certamente, deixará o governo com um poderoso instrumento de trabalho para preservação do nosso meio ambiente”, diz Cláudio de Fraga.

Já em relação a flora do estado, duas espécies chamaram a atenção dos pesquisadores por estarem com alto grau de risco de extinção: pau brasil e orquídea.

Para o mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre, Charles Duca, quando uma espécie é incluída em uma categoria de ameaça, a presença dela em determinados locais gera um alerta do ponto de vista das decisões dos órgãos ambientais, em relação às políticas de uso e ocupação do solo, visando a sua conservação na natureza e a preservação de seu habitat.

“Normalmente, os empreendimentos são proibidos ou as condicionantes são grandes, gerando um aumento considerável dos custos relacionados ao licenciamento ambiental e implantação de empreendimentos”, afirma.

Jacaré de papo amarelo

Foto: Divulgação

O estado do Espírito Santo está imerso na Mata Atlântica, local que abriga grande população de jacarés de papo amarelo, o símbolo da mata. Mas, a urbanização e a perda do habitat têm demonstrado ser um risco para os animais.

Atualmente, o jacaré de papo amarelo está classificado como ’em perigo de extinção’ (grau intermediário). Somente na Serra, mais de 400 jacarés são monitorados pelo Projeto Caiman, todos em lagoas que ficam na área industrial da ArcelorMittal Tubarão.

“O Espírito Santo tem uma grande população de jacaré desta espécie, distribuída principalmente em regiões de mata litorânea. De fato, a ArcelorMittal abriga a maior população do estado e, por isso, é tão importante na preservação da espécie”, afirma o pesquisador do projeto, Yhuri Nóbrega.

O nome ‘Caiman’ surgiu da denominação científica do jacaré do papo amarelo, Caiman latirostris. Esse jacaré pode viver de 50 a 70 anos, medindo dois metros, em média. O Projeto Caiman é uma iniciativa pioneira de pesquisa e conservação das populações da espécie, gerando dados técnico-científicos de saúde e ecologia da espécie, em parceria com a mineradora

As atividades do projeto vão muito além da monitoração. Atuam com estudos no “santuário dos jacarés”, na ArcelorMittal Tubarão. Além disso, promovem ações de conscientização da população, capacitam professores da rede municipal para atuarem como multiplicadores, trabalham com a formação de jovens pesquisadores, educação e sensibilização ambiental para a sociedade.

“Muitos podem perguntar por que uma empresa que é referência na produção de aço dedica tempo e investimento para preservar espécies, como jacarés. Nossa relação com esses répteis está inserida em um contexto mais amplo que está associado à prática do desenvolvimento sustentável e à nossa responsabilidade corporativa”, comenta na publicação o gerente Geral de Sustentabilidade e Relações Institucionais da ArcelorMittal Tubarão, João Bosco Reis da Silva.

O que fazer ao encontrar um jacaré-do-papo-amarelo?

Segundo o pesquisador, o projeto está disponível para atender essas ocorrências. Ele disse que se alguém se deparar com algum animal por perto é só acionar a equipe.

“Temos equipes especializadas para ir até o local ou até mesmo para tirar as dúvidas da população e dar orientações. O que queremos é preservar a espécie e evitar que eles acabem morrendo”, destacou.

Para entrar em contato com a equipe basta ligar para o número (27) 99573-4483. O telefone está disponível para emergências durante 24 horas.

Livro

Nesta quarta-feira (04), o Instituto Marcos Daniel, por meio do Projeto Caiman, vai lançar o livro “Jacarés da Mata Atlântica”, de autoria de Leonardo Merçon, Marcelo Santos e Yhuri Nóbrega. A obra revela os desafios da conservação de animais silvestres marginalizados, como esta espécie, e as ações empreendidas pelo governo brasileiro para sua preservação, dentre outros temas. Também conta um pouco da história desses animais e seus ancestrais, além dos seus costumes de vida, alimentação e reprodução.

Ao longo de suas 208 páginas, promove a reflexão sobre o tratamento oferecido aos jacarés pela sociedade e combate o desconhecimento, mostrando a fascinante história dessa espécie pré-histórica e a importância biológica que esses animais exercem como predadores de topo de cadeia.

Com belíssimas imagens dos animais, traz prefácio assinado por Pablo Siroski, presidente Regional para América Latina e Caribe do Grupo de Especialistas em Crocodilianos, que destaca a importância de ações empreendedoras como o Projeto Caiman para a proteção desta espécie animal. “Estou envolvido no mundo dos crocodilos há vários anos e conheci muitas pessoas, mas poucas com tanto talento e esforço para preservá-los quanto os membros do Projeto Caiman”, escreveu.



Fonte: Folha Vitória



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