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Quatis e macacos invadem casas no interior de São Paulo e problema para no MP

Compartilhe:     |  15 de dezembro de 2014

A cidade com pouco mais de 20 mil moradores tem ritmo de vida sem pressa. Poucos carros nas ruas, praças tranquilas, Palmital é tão pacata que a delegacia chega a fechar nos fins de semana.

Os infratores mais comuns não têm endereço fixo, agem em bando e saem sempre de um bosque, bem no meio da cidade. Na mata, os vultos nos dão pistas. São tantos, que não foi difícil registrar alguns flagrantes.

A população de destemidos quatis e macacos encrenqueiros explodiu nos últimos anos no horto da cidade. A tranquilidade de Palmital estaria garantida se eles se contentassem com a área onde nasceram.

Dona Osmarina conta que eles entraram em bando. Conseguiram passar pela pequena abertura entre uma grade e o teto.

“Ficou uma anarquia. Tive que lavar tudo. Quebraram os ovos. O que puderam levar, eles levaram, o que eles não levaram, eles quebraram”, conta Osmarina de Souza, dona de casa.

Na vizinha, foi pior, eles chegaram de surpresa.

A guerra estava declarada e o assunto foi tomando proporções nunca imaginadas. Até que o problema foi parar no Ministério Público.

“E a promotora intimou a prefeitura para tomar uma providência, caso contrário, ia ser multado”, destaca Sebastião Clodoaldo de Souza, secretário de Meio Ambiente de Palmital.

E quem poderia encontrar uma solução? Os veterinários da Unesp de Botucatu a 230 quilômetros dali. Foi preciso fazer uma parceria com quem mais entende de animais silvestres.

A equipe trata em média dois mil animais no hospital universitário. São biólogos, médicos veterinários, engajados no salvamento dos animais silvestres, mas a equipe foi acionada para um outro desafio: foram chamados a Palmital para resolver o problema dos bichos, e dos homens.

“Nós percebemos que eles estão invadindo as casas, estão tirando as telhas das casas para tirar ovo de passarinho, então era um sinal de que estava faltando alimentação para eles aqui dentro”, diz Carlos Roberto Teixeira, do CEMPAS / UNESP de Botucatu.

Do alto, dá para ver a área de floresta junto à cidade. Foi o que sobrou para os macacos e quatis.

A primeira providência: atrair os invasores de volta ao endereço original. Agora, é em uma jaula aberta no meio da mata que eles encontram comida fácil.

Os veterinários chegam com as bananas, e ao redor da jaula fica cheio de quatis. Eles estão muito acostumados com o ser humano.

“Por isso que eles entram nas casas. Eles não têm medo. Se alguém enfrentar, eles entram também”, explica o veterinário.

É assim que os veterinários da Unesp estão fazendo para capturar e estudar os animais. São mais de 200, entre macacos e quatis.

Uma população que só aumentaria ainda mais se os pesquisadores não tomassem uma medida radical.

“A gente faz vasectomia, que é uma esterilização dos machos, onde eu não tiro o comportamento deles. Eu não altero a hierarquia do grupo. Estamos fazendo um controle populacional. Não fazemos castração”, destaca Carlos Roberto Teixeira.

E se você pensa que assim o conflito estava resolvido, calma. Do outro lado do front, também há problemas. Entre os humanos, muitos se negam a respeitar as recomendações dos pesquisadores e alimentam os animais.

Globo Repórter: E não incomoda eles aqui?
Márcia Regina Bernardini, dona de casa: Não, não incomoda não.
Globo Repórter: Destelhando a sua casa?
Márcia Regina Bernardini: Foi só quatro telhas que eles quebraram. Não incomoda não. Eu tenho dó, eu trato mesmo. Se eles continuarem vindo eu vou tratar, vou continuar tratando.

O único morador autorizado a alimentar os animais é o Sanderlei, funcionário da prefeitura. Fubá. Óleo. Ração de cachorro. Ovos. Quarenta quilos por dia.

Globo Repórter: E você pega eles pelo estômago?
Sanderlei Ramos, auxiliar de serviços gerais: Pelo estômago.
Globo Repórter: Pela boca?
Sanderlei Ramos: Também.
Globo Repórter: Eles gostam da sua comida?
Sanderlei Ramos: Não reclamam, não.

No alto da árvore o macaco-prego parece desesperado de fome. Tentando pegar uma larva ou inseto dentro do galho. É o que faz a dona Maria José ter pena. Ela mesma já passou dificuldade.

Maria José Galvão, dona de casa: Eles ficam com a mãozinha pedindo.
Globo Repórter: E a senhora faz o quê?
Maria José Galvão: Eu fecho a porta.
Globo Repórter: Deixa eles do lado de fora. Dá pena.
Maria José Galvão: Dá pena, dá pena porque eu já passei apertado, então sabe como que é dura a fome.

E o coração amolece ainda mais quando vê famílias inteiras de macaquinhos.

Maria José Galvão: Ah, a gente gosta dos bichinhos. E eles vêm com aqueles filhotinhos nas costas.

Os pesquisadores da Unesp vão ter muito trabalho. E não só pelo bem dos animais.

Gustavo Calasans Marques, veterinário da UNESP de Botucatu: Muito cuidado com estes animais, são muito bonitinhos, eles chegam perto, mas são transmissores de muitas doenças.
Globo Repórter: Esta é a grande preocupação de manter a distância de um morador do animal silvestre, não é?
Gustavo Calasans Marques: Ele leva doenças tanto para a cidade como carreia doenças da cidade pro meio silvestre.

Enquanto a situação não se resolve, algumas casas perto do horto já estão à venda.

“Quando as pessoas vem comprar, a primeira coisa que perguntam é: ‘e os bicho do horto não ataca aqui?’”, revela Maria Isabel Soares, aposentada

A de Maria Isabel está anunciada há dois anos.

Globo Repórter: Vocês querem uma casa menor?
Maria Isabel: É eu queria comprar uma menor.
Globo Repórter: E sem macaco?
Maria Isabel: Sem macaco.

Já os pesquisadores querem o fim da guerra e esperam trazer paz e equilíbrio para a mata e a cidade.

“Que isso aqui vire um município referência mesmo de como conviver, de como ter esta convivência em harmonia com os animais com a mata com a flora, com a fauna. Acho que dá para fazer um trabalho bonito aqui”, diz um professor.



Fonte: Globo Repórter



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