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Os que duvidam das mudanças climáticas como devem ser chamados?

Compartilhe:     |  25 de fevereiro de 2015

As palavras estão por aí como epítetos. Aqueles que rejeitam as conclusões científicas sobre o clima são vistos como “negadores” e “desinformados”; aqueles que aceitam a ciência são chamados de “alarmistas” ou “warmistas”. Talvez o segundo termo, evocando os revolucionários sandinistas da Nicarágua, tente sugerir que a ciência é parte de uma conspiração socialista.

Nas longas batalhas políticas sobre a mudança climática, a discussões sobre o nome a ser dado às várias facções já acontece há muito tempo. Recentemente, porém, a questão tomou um novo rumo com um abaixo-assinado público que reuniu 22 mil assinaturas, número que continua aumentando.

Ele pede que a imprensa pare de utilizar o termo “cético” para as pessoas que questionam o aquecimento global e que passe a adotar “negadores”.

Os cientistas estão entre os que mais criticam o uso do termo “cético” para descrever aqueles que rejeitam categoricamente suas conclusões. Eles argumentam que o ceticismo é a base do método científico. O consenso moderno sobre os riscos das alterações climáticas, segundo eles, é baseado em provas acumuladas ao longo de décadas e que passaram por escrutínio crítico a cada passo.

Se você comparecer a qualquer convenção de ciência climática, irá presenciar um vigoroso debate sobre os detalhes dos estudos mais recentes. Pode haver discordância com relação a pormenores, mas todos os pesquisadores são praticamente unânimes ao avisar que a sociedade corre riscos extraordinários se continuar a liberar quantidades enormes de gases de efeito estufa na atmosfera.

Em outras palavras, os cientistas se veem como os verdadeiros céticos, tendo chegado a um consenso duradouro sobre as emissões simplesmente porque a evidência do risco é hoje esmagadora. Segundo essa visão, as pessoas que rejeitam as provas são falsos céticos, defendendo seu ponto de vista com estudos escolhidos a dedo, manipulação de dados e se recusando a levar em conta as evidências como um todo.

O abaixo-assinado contra o rótulo de “cético do clima” começou com Mark B. Boslough, físico do Novo México, que se sente cada vez mais irritado com o termo. “Está errado porque essas pessoas não adotam o método científico”, afirmou.

Boslough é participante ativo de um grupo chamado Committee for Skeptical Inquiry (Comissão de Indagação Cética), que há muito combate a pseudociência em todas as suas formas. No ano passado, ele escreveu uma carta pública sobre o assunto e dezenas de cientistas e defensores da ciência associados à Comissão não hesitaram em assiná-la. Entre eles está Bill Nye, do programa “Science Guy”, e Lawrence M. Krauss, físico e escritor.

Uma organização de defesa do clima, a Forecast the Facts, a transformou em petição – e quando as assinaturas chegarem a 25 mil, o grupo pretende apresentar um pedido formal às principais organizações de imprensa para alterar a terminologia.

Tudo isso levanta uma questão óbvia: se o termo não é “cético”, como devem ser chamados os opositores da ciência climática?

Primeiro convém entender por que eles denunciam a ciência com tanto entusiasmo: a oposição vem de uma certa facção da direita política. Muitos desses conservadores entendem que, desde que as emissões que causam o efeito estufa são geradas por praticamente todas as atividades econômicas da sociedade moderna, elas só serão reduzidas pela intervenção extensiva do governo no mercado.

Então, duvidar da ciência é uma maneira de afastar regulamentações. Esse movimento se baseia principalmente na ideologia, mas grande parte do dinheiro usado para divulgar seus escritos vem de empresas que lucram com combustíveis fósseis.

Apesar de compartilharem a oposição à regulamentação, no entanto, esses adversários da ciência climática não têm uma opinião única sobre todos os aspectos, por isso nenhum termo realmente se aplica a todos eles.

Alguns fazem alegações cientificamente absurdas, como negar que o dióxido de carbono seja um gás de efeito estufa ou rejeitar a ideia de que os seres humanos são responsáveis pelo seu aumento na atmosfera. Outros negam que Terra esteja aquecendo, apesar da esmagadora evidência de que está, incluindo o rápido derretimento de bilhões de toneladas de gelo em todo o planeta.

Mesmo assim, os críticos da ciência climática estabelecida incluem também algumas pessoas com formação em física atmosférica e publicações na área. Eles reconhecem os poderes de retenção de calor dos gases de efeito estufa e se distanciam daqueles que negam tais aspectos básicos.

“Pelo amor de Deus, não me incluam nesse grupo”, disse Patrick J. Michaels, ex-cientista da Universidade da Virgínia que hoje trabalha para o libertário Instituto Cato, em Washington.

Cientistas como Michaels tendem a argumentar que o aquecimento será limitado, ou ocorrerá tão gradualmente que as pessoas poderão conviver com isso sem problemas, ou que a tecnologia oferecerá uma alternativa salvadora – ou todas as anteriores.

Os cientistas contrários gostam de apresentar esses cenários otimistas como os únicos resultados plausíveis do aumento das emissões. Cientistas da situação os veem como sendo os últimos itens de uma lista de resultados possíveis que inclui um primeiro lugar alarmante e dizem que a única maneira de reduzir os riscos é reduzir as emissões.

Os cientistas dissidentes foram chamados “lukewarmers” (algo como “os mornos”) por alguns, por dizerem que a Terra irá aquecer só um pouco. Esse é um termo que Michaels aceita. “Acho brilhante!” disse. Ele está trabalhando em um livro: “O Manifesto dos Lukewarmers”.

Quando publicam em revistas científicas, apresentando dados e argumentos para apoiar seus pontos de vista, esses opositores estão praticando a ciência, e talvez o rótulo de “cético” seja aplicável. Mas nem todos o aceitam.

“Para mim, o ceticismo envolve dúvidas sobre uma proposição plausível, coisa que o nível alarmante do aquecimento global alarmante atual não é”, disse outro desses cientistas, Richard S. Lindzen, a uma platéia há alguns anos.

Estudos de Lindzen e de outros que duvidam dos riscos do aquecimento global não têm se saído muito bem na literatura científica, pois os cientistas da situação apontam fatos que veem como erros fatais. No entanto, os contrários depõem perante o Congresso e fazem declarações que não condizem com a grande maioria das provas científicas, declarando quase com certeza que a sociedade não corre qualquer risco que mereça atenção.

Talvez não seja de surpreender que muitos ambientalistas começaram a chamá-los de negacionistas.

Os dissidentes científicos se opõem a essa palavra, alegando que essa é uma tentativa deliberada de vinculá-los à negação do Holocausto. Alguns acadêmicos afirmam veementemente que não há tal intenção, mas outros começaram a usar a palavra “negadores”, ligeiramente mais suave, para dizer a mesma coisa sem gerar reclamações relacionadas ao Holocausto.

A negação científica penetrou em outros aspectos da vida moderna, é claro, manifestando-se como criacionismo, ideologia antivacinação e oposição a organismos geneticamente modificados, entre outras doutrinas.

“Para os grupos com tais pontos de vista, as provas já não importam mais; já é possível criar uma realidade alternativa”, disse Riley E. Dunlap, sociólogo da Universidade Estadual de Oklahoma.

Mas Dunlap salientou que o que está em jogo na maioria desses problemas não são coisas tão preocupantes quanto a negação da mudança climática, pela simples razão de que o destino do planeta pode depender disso.



Fonte: Uol



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