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Quem é o culpado?

Compartilhe:     |  2 de fevereiro de 2019

Por Fátima Morosine*

A tendência natural do ser humano, em situações de stress, provocado por desastres ou catástrofes, é encontrar um culpado.
No caso da tragédia de Brumadinho, há duas correntes:
a) a primeira, que culpa a direção da empresa Vale e busca um ponto de conexão entre cada responsável e os crimes cometidos contra toda a forma de vida, em especial as mortes de centenas de seres humanos;
b) a segunda, que culpa a legislação e fala em aperfeiçoar as normas de licenciamento da exploração mineral.
Sem dúvida, esses “suspeitos” precisam estar na lista.
Porém, acompanhando hoje cedo a cobertura da Globonews sobre a ordem de evacuação, dada pelo Corpo de Bombeiros, para os moradores do centro da cidade de Brumadinho, pelo risco de estouro de outra barragem , reforcei a minha convicção do quão despreparados somos, como Nação, para ações de prevenção e de situações de emergência.
O poder público escora-se na legislação; as empresas de mineração (licenciadas e clandestinas) se escoram na relação as vezes promíscua com o poder público e na ignorância e omissão dos potenciais afetados; e os dependentes de emprego e renda vão empurrando com a barriga ou fechando os olhos para coisas que eles sabem que podem vir acontecer.
Por duas vezes (ontem e hoje) escutei alguém da cidade dizer em entrevista: “não é verdade que a barragem que estourou estava fora de operação”.
Presenciei também hoje cedo, 28/1, o desabafo de um morador de lá, que dizia atônito: “recebemos a ordem de evacuação, mas não sabemos para onde ir e o que levar; e se realmente procede a ordem.”
Assisti também um vídeo gravado por um funcionário da Vale (que está circulando pelo WhatsApp) e que mostra o total despreparo desses funcionários, para se proteger da catástrofe, momentos antes da barragem vir abaixo.
Ou seja, supondo que a Vale tivesse um Plano de Emergência, funcionários e moradores não haviam sido treinados para a fuga, com segurança.
Onde estava o poder público (Federal e estadual) que não cumpria o seu papel de fiscalizador, além de regulador?
Ontem estavam os partidos e as lideranças partidárias ou sociais, que não cumpriam o seu papel de fazer funcionar a legislação, mesmo com a terrível lição de Mariana?
Onde estava o Ministério Público, que não olhou para esses crimes que continuavam a ser cometidos, mesmo depois de Mariana?
Moral da estória: não apenas a Vale é culpada. Cada um tem um pedaço do seu rabo preso nessa tragédia!
Começar pelos responsáveis mais visíveis e diretos? Sim!
Mas, se ficarmos apenas na aplicação de multas, bloqueio de recursos, mudança de normas para licenciamento e a eventual punição de alguma pessoa física da direção da Vale, estaremos apenas tapando o sol com a peneira!

*Fátima Morosine é analista ambiental da Sudema, mestre em Desenvolvimento, em Gestão Ambiental e Sustentabilidade e funcionária da Sudema desde 1982.



Fonte: Espaço Ecológico



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