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Quem são as vítimas da lama que se abate sobe o Rio Paraopeba?

Compartilhe:     |  28 de janeiro de 2019

Peixes mortos, água contaminada e 27 famílias indígenas sem café da manhã

Com voz embargada o cacique Háyó Pataxó Hã-hã-hãe líder da aldeia Naô Xohã fala com a reportagem da Envolverde sobre a perda do Rio Paraopeba, contaminado pela lama de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos mineiros da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) que rompeu na tarde desta sexta-feira (25) “Para nós, indígenas comprometidos com a preservação ambiental, ver o rio neste estado é uma ferida, uma dor similar a de perder um braço. Nós temos vida, mas não podemos avançar porque nosso rio morreu. Estamos com o coração ferido, crianças e idosos chorando ao ver o Paraopeba destruído, eles colhiam camarão do rio, pescávamos juntos. Está tudo mundo preocupado na Aldeia, perguntando a Tupã nosso deus o que faremos” desabafa.

Vídeo peixes mortos no Rio Paraopeba

https://web.facebook.com/envolverde/videos/319042462057178/

A Aldeia Naô Xohã, cujo nome em patxohã significa “espírito guerreiro” está localizada no município de São Joaquim de Bicas, vizinho da tragédia, e fica na beira do Rio Paraopeba.  Em Naô Xohã moram 27 famílias, a aldeia nasceu em novembro de 2017, próxima a terras exploradas pelo empresário Eike Batista e a mineração, com o objetivo de resgatar a cultura e preservar a natureza. As famílias da tribo Pataxó HÃ Hã Hã ocupam uma reserva ambiental de 33 hectares.

Quando a barragem em Brumadinho rompeu, uma avalanche de lama de rejeitos mineiros inundou o Rio Paraopeba, os estragos foram percebidos nas margens da aldeia apenas na madrugada do sábado (26). Era 4h da manhã quando o cacique Háyó Pataxó notou que a água tinha alterações, “O rio estava de cor vermelho escuro, os peixes estavam mortos. Estamos preocupados, vendo os peixes boiando de boca para fora. Logo vai começar a subir o cheiro deles mortos e isso pode trazer doenças para nossas crianças e idosos”, explica.

Uma alerta foi emitida para seis prefeituras dos municípios da Bacia de Paraopeba, entre este São Joaquim de Bicas, pedindo para as pessoas se manter longe do leito do rio.  Mas os pataxós Hã-hã-hãe decidiram permanecer na cidade e foram até a parte mais alta da Reserva para se proteger. “Não temos como ir para outro local porque o município não é a favor da nossa etnia e não temos condições financeiras para viver longe da aldeia” afirma o cacique, mas mostra-se preocupado com o risco de uma nova barragem estourar.

Impacto

Os pataxós Hã-hã-hãe se dedicam ao artesanato, cujos ganhos são utilizados para a reforma das ocas e casas de tabua. No entanto, a principal fonte de sustento da Aldeia Naô Xohã é a pesca.  Por se encontrar em uma reserva ambiental a caça é proibida. Eles também cultivavam a terra com mandioca, milho, bananeiras, fruteiras e hortaliças.  Todas as roças eram regadas pelo rio Paraopeba.

A pesca era peça fundamental na alimentação das 27 famílias, o café da manhã na aldeia, por exemplo, é peixe com farinha e mandioca cozida.

Com o rio poluído, além de ficar sem pescar os pataxós Hã-hã-hãe não poderão cultivar os seus alimentos. “A pesca era nosso principal meio de sobrevivência”, garante o cacique “O rio está poluído, os peixes boiando, não podemos nem tocar na água. Isso pode afetar a nossa saúde, provocando virose, febre” acrescenta. Além da alimentação, a água do rio era utilizada para tomar banho e lavar roupa.

Para Eni Carajá Filho apoiador da aldeia Naô Xohã a perda drástica do Rio Paraopeba, que já estava assoreado com lama fina e metais pesados e hoje tem rejeitos mineiros e lama bruta, é algo entristecedor. Ele defende que a natureza deve ser devolvida aos indígenas, mas acredita que isso levará anos “O Rio está morto, os peixes não vão respirar ali tão cedo. Os indígenas somos atingidos diretamente por esse crime ambiental” aponta.

Abandono Político

A última visita de um órgão público que a aldeia Naô Xohã recebeu foi da FUNAI, 15 dias antes da tragédia em Brumadinho. Desde a ruptura da barragem nenhuma autoridade se fez presente, o que gerou uma sensação de desamparo na comunidade pataxó “Estamos abandonados pelo governo, temos dificuldades de alimentação. O Estado nunca se importou conosco, agora vai ficar pior ainda” diz o cacique.

Mesmo com a presença do presidente Jair Bolsonaro em Brumadinho, o cacique Háyó Pataxó sente que para a comunidade indígena as coisas estão se complicando. “Sempre fazemos rituais, pedindo a deus que de uma direção a esses homens que não dão atenção à nossa etnia. O Governador de Minas Gerais, também não é a favor dos povos indígenas, nem dos voluntários que nos ajudam. Eles precisam entender que não estão lidando com dinheiro e sim com vidas”, conclui.

Enquanto nada é resolvido, Háyó Pataxó pensa em possíveis soluções para a comunidade e se mostra preocupado com a possibilidade de uma nova ruptura de barragem, que pode afetar diretamente a segurança da aldeia.



Fonte: Envolverde



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