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Quem são os flexitarianos brasileiros e por que decidiram comer menos carne

Compartilhe:     |  8 de dezembro de 2020

A redução no consumo de carnes tem feito crescer um novo perfil de consumidor no Brasil: os flexitarianos. São pessoas que diminuíram o consumo de produtos de origem animal, mas não os cortaram definitivamente do prato, como vegetarianos e, principalmente, veganos.

Pesquisa coordenada pelo The Good Food Institute (GFI) e feita pelo Ibope junto a consumidores das classes A, B e C mostra que 51% dos flexitarianos brasileiros passaram a comer menos carne em cada refeição, em vez de cortá-la totalmente (25%) ou retirá-la do prato em determinados dias da semana (24%).

No caso da carne bovina, 57% dos flexitarianos disseram comer, no máximo, uma vez por semana. Ao mesmo tempo, 70% comem ao menos uma vez por semana alternativas vegetais, que são similares, mas à base de plantas – e 45% comem três vezes por semana ou mais.

“Esse público cresceu de maneira expressiva nos últimos dois anos, aumentando em quase 40 milhões de pessoas de 2018 para 2020. A grande maioria dos brasileiros não se vê como vegetariano ou vegano, por isso os alimentos são vendidos com foco nos flexitarianos”, ressalta Raquel Casselli, gerente de engajamento corporativo do GFI Brasil.

Entre os flexitarianos brasileiros, a carne mais consumida é a de frango (56% comem três vezes por semana ou mais). No caso da bovina, o índice é de 43%. Por outro lado, a redução é menor no caso de derivados. Segundo a pesquisa, esses consumidores relataram consumir três vezes por semana ou mais laticínios (61%), ovos (58%) e leite (55%).

“A comida é uma tradição familiar e passa de geração em geração. O objetivo é levar esses alimentos que eles já estão acostumados, mas sem origem animal. Não acho que todos vão se tornar veganos, mas a redução é uma realidade. Só que, para isso, é preciso ter bons alimentos para substituir”, analisa Amanda Pinto, head de inovação do Grupo Mantiqueira, que criou a startup N.Ovo focada em alternativas vegetais ao ovo.

O estudo, que foi financiado por 11 empresas da indústria de alimentos, reforça esse conceito. Para o flexitariano, as características mais desejadas no consumo de alternativas vegetais são ser o mais natural possível (62%) e ter sabor, aroma e textura igual ou melhor (62%).

“As grandes empresas sabem que, ainda que movimento vegano esteja crescendo, não atende à demanda delas. Por isso, um dos grandes avanços foi quando a Beyond Meat, nos Estados Unidos, convenceu grandes redes a botar seus produtos ao lado da carne nos supermercados. Quando ficava longe, a pessoa nem entrava na gôndola de veganos ou vegetarianos”, observa Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

Veja a análise dos resultados da pesquisa

No Brasil, essa estratégia de venda já é comum em muitos supermercados. Na rede Pão de Açúcar, por exemplo, as alternativas vegetais estão espalhadas pelas lojas. Tem queijo vegetal ao lado do animal, por exemplo, assim como as carnes à base de plantas ficam muito perto das carnes tradicionais.

“Percebemos que este consumidor vê a qualidade acima do preço. O preço é um critério importante, mas o sabor é mais. Verificamos, também, que há uma recompra em quem experimenta as alternativas vegetais”

André Artin Machado, gerente de desenvolvimento comercial do Pão de Açúcar

Raquel, do GFI Brasil, reforça que o crescimento da experimentação de produtos à base de plantas passa por não ficarem em uma área específica nos supermercados.

“A maioria das pessoas que virem uma seção para diabéticos não vai se identificar, pois não é diabética. Porém, se o supermercado coloca uma geleia sem açúcar ao lado da geleia tradicional, muitos consumidores vão comprar por entenderem o benefício de consumir menos açúcar. É mais eficiente comunicar uma característica que pode ser valiosa para muitos (sem açúcar) do que focar num nicho que precisa dos produtos (diabéticos)”, exemplifica.

Efeito na indústria

Atenta ao maior potencial de venda, a indústria já trata o flexitariano como público-alvo de seus produtos, apesar de ressaltar que não abre mão de vegetarianos e veganos.

“Não queremos mudar as tradições e hábitos totalmente, mas substituir para que seja imperceptível a diferença. Nesse sentido, os flexitarianos são a prioridade”, diz Camille Lau, gerente de marketing da Unilever Food Solutions , que lançou recentemente no Brasil a marca holandesa The Vegetarian Butcher.

A Seara Alimentos endossa o discurso e também destaca a maior abertura de consumidores jovens para trocar a proteína animal pela vegetal.

“O flexitariano busca um produto com sabor e textura de carne, uma digestão mais suave ou diferenciada, entre outras características. Sabemos que, até 2030, o mundo vai adicionar 2,4 bilhões de pessoas. E nós, grandes empresas de alimentos, temos o papel de trazer soluções de acordo com o que consumidor está buscando”

José Cirilo, diretor executivo de marketing e trade da Seara

Para atrair esse público, algumas marcas já fizeram até adaptações no rótulo. É o caso da Vida Veg, que redirecionou sua estratégia a partir de 2019.

“Antes, colocávamos que era um produto vegano. Hoje, usamos 100% vegetal ou feito de plantas. A gente sabe que o público flexitariano é maior e vai trazer volume às vendas. E, no fim das contas, o propósito vegano e vegetariano acaba sendo levado adiante”, afirma Anderson Rodrigues, diretor executivo e um dos fundadores da companhia.

“As empresas estão em um cenário em que o consumidor está aberto a reduzir produtos de origem animal, mas ainda não está totalmente convencido nem consumindo tanto alternativas vegetais. Nossa expectativa, porém, é que esse número aumente, principalmente quando falamos em substituição à carne no dia a dia”, projeta Raquel, do GFI Brasil.

Ela cita como exemplo estudo da NPD Group, publicado recentemente, apontando que 89% das pessoas que pediram hambúrgueres plant-based não se declararam veganas nem vegetarianas. “É preciso educar e passar a atingir uma gama maior de consumidores, o que passa por oferecer produtos melhores e mais baratos, desenvolver alimentos típicos brasileiros, e investir pesadamente em inovação e comunicação”, conclui.



Fonte: Globo Rural - LEANDRO BECKER



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